Alvoroço Filmes completa dez anos de produção independente em Alvorada

Evandro Berlesi busca escrever uma nova história para a cidade através do audiovisual

Por Felipe Goldenberg

Alvorada é a cidade mais violenta do Rio Grande do Sul, segundo dados da Secretaria de Segurança Publica (SSP). Em meio a tantas notícias desanimadoras, há quem tente, porém, escrever uma nova história para a cidade. É o caso do cineasta e roteirista Evandro Berlesi (foto), 40 anos, um dos fundadores da produtora independente Alvoroço Filmes.

“Eu cresci assistindo à Sessão da Tarde. Pensava e escrevia filmes desde criança. Eu até tenho um roteiro com todos os meus amigos da rua sendo atores do filme”, relembra Evandro.

O cartaz da Alvoroço causou um rebuliço entre os alvoradenses (Foto: Felipe Goldenberg/Humanista)

Tudo começou em 2008, com os alvoradenses saindo de suas casas para trabalhar e se deparando com dezenas de cartazes espalhados pela cidade. Eles continham somente os dizeres “Alvoroço em Alvorada – Calma! Não é nada disso que você está pensando”.

“A galera ficou doida! Achou que tinha algo a ver com tiroteio, bandidagem, guerra de tráfico, essas coisas”, conta Evandro. Ninguém sabia, na verdade, que tudo fazia parte da divulgação do primeiro trabalho da Alvoroço Filmes, coordenada, na época, por ele e Rodrigo Castelhano.

A cidade, que estampava as páginas policiais dos jornais, virou cenário de filme. O primeiro longa-metragem, “Dá um Tempo” (2008), contava a história de Jorge, um adolescente que trabalha como office-boy de uma funerária que acaba se apaixonando por uma garota. O problema é que ele só conhece o nome dela: Laíssa Golf.

A comédia romântica contou com atores, equipe (Evandro, responsável pelo roteiro, e Rodrigo, pela operação de equipamentos), sets de gravação e trilha sonora totalmente alvoradenses. Entre as participações especiais, estavam o ator Jairo Mattos, famoso por atuar em novelas da TV Globo, e até mesmo o então prefeito da cidade, João Carlos Brum.

Para Brum, o filme foi o primeiro passo para as pessoas se enxergarem na cidade. “As pessoas viram uma outra Alvorada. As imagens se referiam à cidade, aos pontos turísticos, às conversas, aos bate-papos”, relembra. “Eu nunca estive na frente das câmeras. Quando eu assisti ao filme, até achei que poderia ter atuado um pouquinho melhor!”.

“As pessoas viram uma outra Alvorada. As imagens se referiam à cidade, aos pontos turísticos, às conversas, aos bate-papos”

João Carlos Brum

O filme foi apresentado pela primeira vez na 13ª Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, e foi selecionado para o 18º Gramado Cine Vídeo. Já a primeira exibição pública aconteceu na Praça Central de Alvorada em 7 de setembro de 2008, chegando a reunir mais de 25 mil alvoradenses.

A equipe da Alvoroço convidou estudantes de escolas da rede pública de ensino para participar do elenco. Um dos alunos que passou pelo projeto é Henrique Gonçalves, 25 anos, na época, morador do bairro Jardim Aparecida e aluno da Escola Estadual de Ensino Médio Nossa Senhora Aparecida.

“Um dia, o pessoal da Alvoroço apareceu no meu colégio convidando os alunos para fazer um teste. Meu único contato com a arte tinha sido dançar em CTG. Eu gostei tanto que hoje trabalho profissionalmente como ator”, conta.

“Um dia, o pessoal da Alvoroço apareceu no meu colégio convidando os alunos para fazer um teste. Eu gostei tanto que hoje trabalho profissionalmente como ator”

Henrique Gonçalves

Segundo Evandro, ninguém da produção e do elenco recebeu cachê – o filme inteiro foi bancado por ele e por Rodrigo. “A gente só consegue produzir por ser cara-de-pau. Fazemos isso por opção, porque somos felizes, mesmo com todas as dificuldades”.

O sucesso foi tanto que levou a Alvoroço a criar o projeto Alvoroço nas Escolas, que buscava novos talentos em escolas municipais para a produção de curtas-metragens. Os estudantes faziam teste de elenco e, depois de aprovados, participavam de oficinas de atuação e roteiro.

Os cartazes de divulgação do projeto “Alvoroço nas Escolas” e do filme “Dá um Tempo” (Foto: Felipe Goldenberg/Humanista)

O projeto deu origem a quatro curtas em 2009: “Achei um Violão”, “Preserve-se”, “Tecnicamente Apavorados” e “Tem Gente!”. Todos com o mesmo espírito: serem totalmente alvoradenses.

O segundo longa da Alvoroço, “Eu Odeio o Orkut” (2011), é uma adaptação do livro de Evandro de mesmo nome, escrito com o “dinheiro do seguro-desemprego”, conforme descreve Evandro. O filme teve participação especial de Luana Piovani, Júlio Rocha e Jairo Mattos.

O ator Marcos Kligman, 41 anos, interpretou Jader Bertola no filme. Para ele, o trabalho empodera os moradores e melhora a imagem da cidade, tão marcada pela violência. “Um bando de bastardos sem dinheiro algum fazendo um filme. Tudo pelo amor, pelo engajamento. Qualquer profissional diria que é piada, mas funcionou”, conta.

“A gente foi conseguindo várias coisas aos poucos para o filme. Liberação para gravar nos lugares, um helicóptero, um iate, a participação da Luana Piovani… tudo com muita força de vontade e cara de pau”, diz Kligman.

“Qualquer profissional diria que é piada, mas funcionou”

Marcos Kligman

O mais recente trabalho da Alvoroço, chamado “Dormitório”, é o quinto longa de Evandro. Diferentemente dos filmes anteriores, este tem a intenção de entrar em festivais de cinema. “É muito difícil comédias serem selecionadas. ‘Dormitório’ tem uma história totalmente diferente, dramática, obscura. Mas não posso negar que já estou com outro roteiro de humor em mente”, declara Evandro.

Imagem promocional do filme “Dormitório” (Foto: Divulgação)

O filme contou com projeto de financiamento coletivo e ultrapassou de meta de R$ 6.500. Ao todo, foram arrecadados R$ 7.240 com o apoio de 88 pessoas. A previsão de estreia é para ainda este ano.

A ideia de levar arte e cultura para crianças e adolescentes de lugares mais carentes incentivou Henrique a também criar um projeto semelhante em Gravataí, onde é professor de teatro. “O brasileiro não tem a cultura de ir ao teatro, de ler, de estar envolvido com as artes. Por isso esse tipo de projeto é muito importante”, afirma o ator.

“Eu sou muito grato à galera da Alvoroço porque eles mudaram minha vida. Minha vida na cidade não foi fácil, e a arte ampliou meus horizontes, me ensinou a voar mais alto”, diz Henrique.

Para assistir aos trabalhos da Alvoroço Filmes, você pode visitar o canal do YouTube. Caso queira conhecer mais sobre o projeto, acesse o site ou a página do Facebook da produtora.

Felipe Goldenberg

Quase jornalista, ator e estagiário na RBS TV. Apaixonado por audiovisual, design, games e tecnologia. Viciado em café preto com adoçante.

Um comentário em “Alvoroço Filmes completa dez anos de produção independente em Alvorada

  • 22 de janeiro de 2018 em 14:01
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    Um cara desses que fazem falta no cinema. Enquanto os nossos profissionais são raposas atrás de dinheiro e sem nenhum sonho, o Berlesi mostra pra todo mundo que o que falta é vontade de ação, proatividade. E isso ele tem de sobra.

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