Cultura surda é desconhecida pela sociedade brasileira

Histórias de surdos evidenciam os desafios de acessibilidade numa sociedade predominantemente ouvinte

Por Ana Paula Machado

Em 2017, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), abordou a educação de surdos no Brasil no seu tema de redação. O assunto trouxe visibilidade às questões que envolvem a comunidade surda, pois os estudantes que prestaram o exame puderam refletir acerca dos desafios educacionais, sociais e pessoais que essas pessoas enfrentam. De acordo com o Censo de 2010, 9,7 milhões de pessoas têm deficiência auditiva no Brasil. Somente no Rio Grande do Sul, há mais de 617 mil surdos.A surdez pode ser adquirida tanto hereditariamente quanto por infecções contraídas na gestação. Além disso, traumatismo craniano e acidentes de trânsito e de trabalho também podem provocar surdez. Pessoas surdas são aquelas que possuem perda auditiva (total, bilateral ou parcial) de 41 decibéis ou mais. Por exemplo, se a pessoa possui deficiência auditiva moderada, o som mais baixo que ela consegue ouvir em boas condições de audição é a partir de 41 decibéis. Sons como o choro de um bebê são difíceis de serem ouvidos, neste caso.

Para celebrar a cultura surda e relembrar os desafios diários enfrentados por surdos, em 2008 o 26 de setembro foi definido como Dia Nacional do Surdo – data que marca a inauguração do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos). Além dessa data, foi instituído o Setembro Azul, mês que é conhecido por diversas datas significativas para o povo surdo, tais como o Dia Nacional e Internacional do Surdo – comemorados nos dias 26 e 30 de setembro. O Setembro Azul é repleto de eventos para a comunidade surda, que promove atividades através de suas associações e grupos, a fim de comemorar as conquistas obtidas ao longo do tempo e também conscientizar a sociedade sobre a acessibilidade oferecida a essas pessoas. Uma das grandes vitórias que o movimento surdo obteve ocorreu em 2002, através da sanção da Lei n° 10.436, na qual a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi reconhecida como a segunda língua oficial do Brasil. Com isso, Libras passou a ser considerada uma língua, não apenas uma linguagem.

Por meio de lei sancionada em 2009, a Libras é reconhecida como língua oficial. Foto: Ana Paula Machado

Quando não havia Libras

*entrevista realizada em Libras

“Me percebi sozinha”. Foi assim que Ana Luiza Paganelli Caldas, 49 anos, se sentiu quando, aos 12 anos de idade, era a única que se comunicava em Libras em sua roda de amigos. Com pai e mãe ouvintes, sua comunicação foi através da oralização, ainda que ela fosse surda. Quando Ana tinha 8 meses de idade, sua mãe percebeu que algo não ia bem. “Em um dia, choveu muito forte e minha mãe ficou me observando, porque o meu semblante estava tranquilo e feliz, como se nada tivesse acontecido. Ela ficou preocupada e me levou ao médico”, relata. Naquela ocasião, foi diagnosticada como surda. A mãe, preocupada com o futuro da filha, procurou por livros didáticos para crianças surdas, além de jornais e notícias para entender mais sobre o assunto, já que, até então, não havia surdos na família.

Assim, aos 2 anos de idade, Ana Luiza começou a estudar no Colégio Concórdia e passou a ter contato com outras famílias que tinham crianças surdas em seus lares. Mas, apesar disso, Ana não estava imersa na cultura surda. “Antigamente, não tinha Libras. Minha mãe me treinava oralmente. Ela falava as palavras, escrevia num caderno e, em seguida, oralizava para mim. Foi assim que aprendi as palavras”, conta.  Dessa maneira, desde muito nova, ela foi forçada a  usar aparelho auditivo, pois não somente a sua mãe, mas a sociedade como um todo, não consegue enxergar a surdez como uma condição que não é pior do que ser ouvinte. “Eu não gostava do aparelho auditivo, parecia que havia uma panela de pressão nos meus ouvidos. Quando minha mãe saía, eu tirava o aparelho para brincar e, quando ela voltava, eu colocava de volta antes que ela percebesse”, lembra, aos risos.

De uma escola com educação para surdos, foi transferida para a escola regular – a Escola Uruguai. Foi quando chegou um dos momentos de maior dificuldade. “Não soube por que minha mãe havia me tirado daquela escola. E agora? Como vai ser?”, se questionava. Cercada de estudantes ouvintes, Ana Luiza conta que a professora a fazia sentar nas primeiras classes da sala de aula, a fim de aprender através da oralização. “Sofria na aula, não entendia. A professora fazia ditado e me obrigava a fazer também, ainda que soubesse que eu era surda. Todos entendiam, menos eu, que precisava ler para entender”, desabafa. As matérias nas quais Ana tinha mais facilidade de compreensão eram Matemática e Inglês, pois as regras gramaticais e as preposições eram uma espécie de bicho de sete cabeças – a Libras tem uma estrutura própria e, por isso, não é uma expressão gestual da Língua Portuguesa.

Quando o sentimento de solidão tomou conta dela, aos 12 anos, por ser a única não ouvinte no círculo social, sua mãe teve a ideia de levá-la ao aniversário de outra criança surda. “Eu cheguei lá e vi que eles eram como eu, então amei Libras desde lá e só queria me comunicar assim”, sorri. Desde então, Ana participa da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul. A entidade promove encontros, festas, viagens e intercâmbio cultural. “Conheço uruguaios e argentinos. Tenho contato com culturas diferentes e aprendo muito com eles”, afirma.

Ana Luiza e o marido Augusto Schallenberger, que também é surdo, em evento promovido pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos do RS. Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, Ana Luiza é professora da UFRGS, onde dá aulas de Libras, a Língua Brasileira de Sinais. Quando analisa o universo onde está inserida, lamenta a falta de comunicação que há no ambiente acadêmico. “É muito difícil pra mim, porque não tem comunicação. Falam ‘oi’ e a gente não entende um ao outro”, desabafa. A professora também aponta e questiona a falta de alunos surdos na Universidade, criticando a postura adotada na aplicação do concurso vestibular. “Falta vestibular só para surdos. É sempre o convencional, limitado. Tem que ter uma prova de português diferente, falta libras para os surdos no vestibular”, afirma.

Fora do ambiente de gradução, há outros obstáculos que ela classifica como “desafios de acessibilidade”. Ir ao médico e comprar roupas, por exemplo, são alguns deles, pois na maioria desses lugares não há pessoas capacitadas para atender aos surdos. “Eu pergunto ‘Sabe Libras?’ e em todo lugar que vou, ninguém sabe”, lamenta. Para Ana Luiza, falta muita coisa para que a comunicação entre surdos e ouvintes seja eficaz. Tanto no trabalho, como na faculdade, há o déficit de intérpretes, monitores e pessoas que espalhem a língua de sinais. “É necessário ir à luta e nunca parar”, ressalta.

Surdos oralizados

Aos 10 anos de idade, Lakshmi Lobato se viu surda. Por consequência da caxumba, teve perda bilateral da audição. A profundidade de sua surdez foi tanta que os aparelhos auditivos não surtiram efeito. “Eu sentia falta de ouvir. Sempre fui uma pessoa extremamente auditiva. O som me inspira e motiva”, explica. Ao contrário do que se espera, Lak, como gosta de ser chamada, não teve contato algum com a Libras, e por isso, não possui qualquer identificação com a língua. “Não tenho interesse no assunto. Respeito, contanto que não tentem me impor nada em relação a isso”, declara.

Depois da perda da audição, a comunicação de Lak durante 26 anos foi através da leitura labial. O método foi o suficiente para que ela conseguisse estudar e obter a graduação em Publicidade e Propaganda. A publicitária não retrata grandes dificuldades no que diz respeito a sua comunicação, pois sempre foi integrada na família, no círculo social e na escola sem quaisquer tipos de adaptação. “A maioria das pessoas estavam bem dispostas a me ajudar e isso garantiu que eu sempre me sentisse incluída onde quer que eu estivesse”, lembra. Então, aos 32 anos, Lak se submeteu a uma cirurgia de implante coclear no ouvido esquerdo. O procedimento não foi considerado satisfatório do ponto de vista médico, já que sua cóclea não estava em bom estado. No entanto, para Lak, a cirurgia foi um sucesso do ponto de vista emocional. “Eu ouvia os sons ambientes e era capaz de discriminar a maioria deles, mas ainda dependia da leitura labial”, relata.

Lakshmi Lobato é blogueira, palestrante e autora de dois livros voltados à cultura surda. Foto: Arquivo pessoal

A felicidade pela realização do procedimento foi tanta que a publicitária passou a relatar suas descobertas e redescobertas sonoras no blog Desculpe, não ouvi. A fim de ter uma audição mais aguçada, Lak submeteu-se a uma nova cirurgia, dessa vez do lado direito, que obteve grande sucesso. “Hoje, falo no telefone, ouço música e levo uma vida próxima à que eu teria, se não tivesse deficiência auditiva”, afirma.

Ainda que a blogueira tenha uma história sem grandes dificuldades por conta de sua deficiência, ela aponta que é necessário que a sociedade tenha mais interesse de incluir – adotando vídeos e filmes legendados e equipamentos de transmissão fechada de áudio, por exemplo. “É comum acharem que Libras faz parte da vida de toda pessoa surda e que se aprende num passe de mágica. É uma língua como qualquer outra: precisa ser estudada e praticada e isso depende do interesse e necessidade de cada um”, afirma. A falta de conhecimento das pessoas faz também com que elas não saibam da diversidade que há na comunidade surda. A comunicação de surdos pode vir através de Libras, escrita, leitura labial, aparelhos e implantes auditivos e outras tecnologias.

“E não é que ouvi?” é o segundo livro escrito por Lak Lobato e é destinado a crianças usuárias ou não de implante coclear. Foto: Arquivo pessoal

Hoje com 40 anos de idade, Lakshmi é blogueira e escritora – tem dois livros publicados (“Desculpe, não ouvi! – O livro” e a obra infantil “E não é que eu ouvi?”). Além disso, também já proferiu palestras para o TEDx – programa de eventos locais realizado de maneira independente.

Libras na primeira infância

Fiorella é uma criança surda cujos pais têm a mesma condição. Em uma página do Facebook chamada “O Diário da Fiorella”, seus pais publicam vídeos, imagens e textos onde mostram as descobertas da filha de 3 anos. Fiorella, que tem Libras como sua língua nativa, acaba mostrando aos seguidores a necessidade da aquisição da Libras como forma de comunicação de bebês surdos e também da estimulação precoce – a pequena já frequenta uma escola especial para surdos.

A ideia inicial dos pais Francielle e Fabiano era mostrar o cotidiano da filha surda para pais que também o sejam. No entanto, surgiram muitos questionamentos de pais ouvintes sobre os estímulos e a inclusão de crianças surdas no ambiente escolar. Então, a página ampliou seu público e hoje conta com mais de 80 mil seguidores, com um conteúdo acessível a surdos e ouvintes.

SERVIÇO:

Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul

A Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul é uma associação privada sem fins lucrativos. Desde 1955, a entidade promove atividades culturais e esportivas, encontros, conferências, congressos e outras atividades que tenham como finalidade a aproximação entre os surdos, suas famílias e a comunidade em geral. A sede da instituição está localizada na Rua Dr. Salvador França, nº 1800, no bairro Jardim Botânico.

Escolas para surdos na Capital

Atualmente, cerca de 6% dos 55 mil estudantes da Rede Municipal de Ensino são surdos, o que corresponde a três mil alunos. Esses estudantes integram o público-alvo da Educação Especial. Para isso, a Prefeitura de Porto Alegre está realizando melhorias e obras de acessibilidade para melhor atendê-los. A Capital conta hoje com 4 escolas dedicadas à educação de surdos. São elas:

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