Padrões de beleza restritivos causam sofrimento a mulheres

Como a relação com o corpo foi ressignificada ao longo do tempo até chegarmos ao padrão da mulher branca e magra como ícone de beleza e sucesso

Por Andressa Machado

Ser gordo em um mundo feito e pensado para ser magro é uma punição social, aponta Gabriela Scapini, pesquisadora e integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher e Gênero (NIEM/UFRGS). A pessoa é punida quando, para encontrar uma roupa que lhe sirva, ela precisa buscar por lojas especializadas em tamanhos grandes, cujos preços nem sempre são acessíveis a todos; quando uma atividade tão trivial como pegar um ônibus se torna um desafio, porque os bancos são muito estreitos e não comportam pessoas com um corpo que foge à normativa do pequeno e magro. Flávia Magalhães Novais, pesquisadora e integrante do Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero (NUPSEX/UFRGS) aponta que “nós, como mulheres, passamos a vida inteira ouvindo ‘cuidado que tu vais ficar gorda’ – ficar gorda é a pior punição que pode acontecer na vida de uma pessoa. E quando tu és uma pessoa gorda, tu és uma pessoa gorda e ponto. Tu és reduzida a isso”. A pressão estética é tão vil que pune quem foge, até mesmo, do tom de pele branco – em um país composto por mais de 50% de uma população não-branca (de acordo com o censo de 2014 feito pelo IBGE), o ideal de beleza é justamente aquele que é contradiz a grande maioria: pele branca, cabelo loiro e olhos claros.

O corpo é ressignificado ao longo do tempo, da cultura e, inclusive, pelas crenças que predominam na época. Durante a Idade Média, por exemplo, o corpo foi negado por estar associado aos prazeres, dentre eles a gula, que é considerada um dos sete pecados capitais. Por outro lado, o Renascimento valorizava corpos mais cheios, principalmente relacionados à maternidade. Havia, contudo, o recorte de classe: as mulheres que conseguiam ter uma boa alimentação eram as das classes mais abastadas, então ter formas mais arredondadas estava diretamente ligado à riqueza. “Era uma época de escassez e quem era gorda sinalizava pertencer a uma alta casta, ter muito poder e riqueza, e esse era o padrão de beleza. Sempre aquilo que não é a maioria, é o padrão”, afirma a psicóloga e pesquisadora Patricia Romani.

Gabriela Scapini explica que, em meados de 1800, se tem a invenção ou a construção da palavra obesidade na França. O termo surgiu como um discurso médico do período, no qual apontavam que as gorduras podiam entupir os vasos sanguíneos. Através disso foi sendo construído, ano após ano, o discurso de que um corpo gordo era “ruim”. Umberto Eco, em A história da feiúra, mostra como o gordo foi sendo associado ao feio, enquanto que o belo estava diretamente ligado ao magro, e como isso foi também modificado na sociedade.

Para Scapini, outro mito comum é a noção de que pessoas gordas não são saudáveis apenas por serem gordas. Segundo a pesquisadora, o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), que é a métrica utilizada para definir quem está acima de peso, é uma classificação da antropometria, um segmento da antropologia que mede o corpo humano e suas partes, usado a partir do século XIX como forma de estabelecer normas sociais e definir o que seria um “corpo humano normal”.

“Essas tentativas de definir e categorizar pessoas entre normais e anormais estão fortemente associadas à eugenia, ciência que tenta determinar quais seriam os seres humanos com o melhor patrimônio genético, e que já serviu de justificativa para genocídio, escravidão e colonização”, pontua Scapini.

O vídeo abaixo “What is beauty?” (“O que é a beleza?”, em português) feito pelo canal CNN mostra as transformações do conceito de beleza feminina no decorrer da história da humanidade.

Para as pesquisadoras Gabriela Scapini e Flávia Magalhães Novais, a gordofobia está atrelada ao discurso médico. Ainda que problemas de saúde possam se relacionar ao excesso de peso, Gabriela e Flávia salientam que há uma generalização de que pessoas gordas são não-saudáveis. Segundo elas, a preocupação com a saúde do outro justificaria comportamentos gordofóbicos: “É difícil desconstruir a ideia de que o corpo gordo não é, necessariamente, um corpo doente. Como é que eu vou dizer ao médico que eu não quero uma dieta, que eu não quero emagrecer?”, questiona Flávia.

Há um termo para isso na área de pesquisa chamada “sociologia da obesidade”: healthism (ou higiomania, em português), que é um julgamento moral sobre alguém com base em sua saúde ou preocupação em excesso com a saúde. De acordo com esse estudo, quem não é considerado saudável, ou faz coisas contrárias ao que é tido como tipicamente saudável, acaba sendo visto como uma pessoa ruim ou com moral defeituosa.

“Cada vez mais aumentamos nossas expectativas sobre as pessoas em termos de saúde e comportamentos saudáveis, e é uma expectativa disseminada, que permeia a vida social, profissional e educacional dos indivíduos”, diz Michaela Null, professora de Sociologia da Universidade de Wisconsin-Fond du Lac.

Transtornos alimentares

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (National Institute of Mental Health, em inglês), 70 milhões de pessoas no mundo todo sofrem de algum tipo de transtorno alimentar. Pode-se dizer que é um transtorno com prevalência no gênero feminino, já que somente de 10% a 15% das pessoas acometidas de bulimia ou anorexia são homens, segundo dados do American Journal of Psychiatry.

Uma pesquisa divulgada em 2014 pela Casa do Adolescente, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, mostrou que 77% das adolescentes apresentavam predisposição a desenvolver algum distúrbio alimentar como anorexia, bulimia ou compulsão por comer. Dentre os outros dados, 85% afirmaram acreditar que existe um padrão de beleza socialmente imposto, 46% disseram que mulheres magras são mais felizes e 55% gostariam que fosse possível acordar magras. Outro balanço do mesmo órgão apontou que, em média, a cada dois dias uma pessoa é internada por anorexia ou bulimia somente nos hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo.

 

 

A publicitária Ana Virtuozo, 24 anos, sofreu de bulimia e anorexia no período entre adolescência e início da vida adulta. Ana conta que levou cinco anos até conseguir sair do transtorno. Durante esse tempo, ela relata que teve recaídas nas quais fazia uso de laxantes e forçava o vômito. “Eu lembro até hoje o dia em que eu resolvi experimentar vomitar a comida e me senti muito bem. Foi muito despretensiosamente que eu comecei a fazer isso, e eu comecei a praticar. Primeiro, eu disse que ia fazer só de vez em quando, só que se tornou uma coisa recorrente, em absolutamente toda refeição eu vomitava”, relembra.

Ela conta que em determinado momento vomitar deixou de ser o suficiente porque, como aquele alimento seria regurgitado em seguida, ela passou inconscientemente a ingerir mais calorias: “Então eu parti para os laxantes e virou uma coisa diária. Tu começa tomando dois comprimidos por dia e quando eu vi já estava tomando uma cartela inteira (por dia). Tu come e dez minutos depois tu vai no banheiro e evacua líquido. Isso foi uma das coisas que me fez querer parar porque eu não conseguia trabalhar direito, estava sempre com dor de barriga e tendo cólicas horríveis. Nesse tempo, desencadeou a anorexia”.

Ana relembra que nesse período se tornou viciada em contar calorias, organizando a rotina de exercícios e alimentação de forma a “zerar” todas as calorias ingeridas no dia: “Eu lembro que contava as calorias até do chiclete que eu comia. Tentava não passar de umas 500 calorias por dia. Nos dias que eu não zerava, eu comecei a intercalar com dias que eu não comia ou que eu só comia salada”.

A relação que Ana trava com seu corpo hoje é de disciplina e saúde. Ela continua se preocupando com peso, mas não faz mais usos de medicamentos ou de jejum para emagrecer. Ela mantém uma alimentação saudável aliada a exercícios diários e relata que, mesmo querendo mudar algumas coisas no visual, está muito feliz com a aparência que tem hoje.

Racismo

Além da preocupação com o peso, algumas mulheres sofrem a pressão adicional do racismo. Relembrando os ícones de beleza dos anos 1990, podem-se listar supermodelos como Gisele Bündchen e Kate Moss, as quais se tornaram ícones do que era um corpo efetivamente belo. O grande porém é que esse modelo de beleza eurocêntrico (cabelo loiro, pele e olhos claros) não corresponde à maior parte da população do Brasil, composta por 53,6% de indivíduos autodeclarados pretos ou pardos, segundo o censo de 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Mulheres de outras etnias sofrem, além da pressão estética, o racismo. A estudante A.L. de 22 anos, que pediu para manter a identidade em sigilo, relata que na infância e pré-adolescência, além de sofrer bullying por conta do peso, foi discriminada por ser negra.

“Eu andei com meu cabelo preso durante todo o período de escola. Certo dia resolvi sair com ele solto e assim que cheguei na escola, a primeira coisa que ouvi foi ‘Sai daqui porque tu tá horrível. Vai prender esse teu cabelo’ e aquilo, naquele momento, foi encarado como bullying. É preciso pensar que às vezes não é bullying, mas sim racismo”, conta A.L.

A jornalista Jéssica Nakamura, 27 anos, tem descendência japonesa e relata que, desde criança, foi pressionada a tentar se encaixar no padrão de beleza branco e ocidental. Ela conta que grande parte da pressão veio de dentro da família, principalmente através do pai: “Eu lembro que desde pequenininha, por volta dos cinco anos, ele me dizia: ‘esfrega o olho, para ficar com dobrinha’. Eu tenho astigmatismo muito forte até hoje e acho que foi por causa disso, então foi uma coisa que atingiu até a fisiologia do meu corpo”. A ausência de referências de pessoas de origem asiática na mídia também contribuiu para que a construção identitária de Jéssica buscasse se enquadrar na lógica ocidental: “Eu via as revistas e não tinha ninguém parecido comigo, mas eu não me dava conta de que isso era porque eu tenho uma origem étnica diferente, eu achava que eu tinha que mudar e ficar bonita como elas. Eu evitava tomar sol para ficar branquinha, tenho deficiência de vitamina D até hoje por causa disso. Descoloria o cabelo pra ficar loira e parecer menos japonesa, usava maquiagem para ficar mais ocidental”, relembra.

 

 

 

Ainda que existam movimentos que buscam trazer mais diversidade nas campanhas de moda e capas de revista, um estudo realizado pela Dove em 2016, com 4 mil mulheres na faixa etária entre 18 e 64 anos, e 2.800 meninas de 10 a 17, residentes de sete países (dentre eles o Brasil), mostrou que 82% das brasileiras gostariam que a mídia retratasse mulheres de diferentes tipos físicos, além de idade e raça. Outro dado da pesquisa mostra que 63% das mulheres e 57% das garotas brasileiras acreditam que, para serem bem sucedidas na vida, elas precisam estar enquadradas em determinado tipo de aparência.

Refletir sobre o impacto da pressão estética é o primeiro passo para desconstruir padrões alimentados há anos pela mídia e pela indústria da moda, e dados como “71% das mulheres se sentem pressionadas para serem perfeitas e boas em tudo que fazem”, também levantados pela pesquisa da Dove, servem de alerta para a dimensão da importância que a aparência estética tem em nossa cultura. Flávia Magalhães aponta que o feminismo é uma ferramenta que funciona como um despertar para compreender e questionar o papel do corpo na sociedade: “O corpo da mulher é como outro corpo. O homem branco é o corpo que não precisa ser nominado porque ele já tem um lugar e o corpo da mulher é outro corpo e vai se subdividindo em o corpo da mulher gorda, o corpo da mulher negra e aí vai”.

A estudante A.L. aos poucos vem notando que o relacionamento com a imagem tem melhorado e que a descoberta desse fato se deu através da análise das próprias redes sociais: “Nas últimas fotos que postei, várias foram tiradas em frente ao espelho e aparecendo meu corpo inteiro. Talvez essas fotos em frente ao espelho que estão no meu Instagram sejam um recado, para mim mesma, de que eu estou me aceitando de alguma maneira”.

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