Bordado Empoderado incentiva a reflexão e autoconhecimento nas mulheres

Curso de bordado tornou-se um espaço de troca de vivências e conexão entre mulheres

Por Állisson Santiago e Andressa Machado

O bordado pode remeter a uma imagem no passado, quando mulheres utilizavam a técnica, principalmente para enfeitar peças dos seus enxovais, mas em uma época de empoderamento feminino, é difícil imaginar que um curso de bordado sirva apenas para ensinar a decorar toalhas e guardanapos com desenhos de flores e animaizinhos.

O Bordado Empoderado une uma forma de expressão artística, empregada majoritariamente por mulheres, com um movimento político, o feminismo, formado principalmente por mulheres. Essa junção entre arte e política gera interesse pelas aulas. Aluna de todos os cursos oferecidos até agora, a revisora Liliane Darós, que já sabia bordar utilizando a técnica mais tradicional, o ponto cruz, procurou o Bordado Empoderado não só pelo aprendizado prático que ele lhe proporcionaria: “Me interessei por essa nova técnica, também por não ser aquele bordado tradicional. Adorei porque era a mistura de uma técnica antiga com outro engajamento, que falava mais comigo.” A estudante Juliana da Silva, conta que uma das modalidades que a interessou foi o curso Bordando PPKs (bordados com o formato de vaginas).

“Eu acabei indo nesse bordado de PPKs. Foi mais a irreverência da coisa que me chamou a atenção e também por ter essa temática feminista, que não é necessariamente o que tu associa com o bordado”, confessa.

Para a professora dos cursos, Bruna Antunes, a representação feminina é importante para trabalhar a autoestima das participantes. Ela conta que uma das intenções do Bordado Empoderado é manter as mulheres engajadas na temática. “Uma questão que também envolve o curso é a autoestima. Então eu tento motivar as alunas de várias formas, para elas se manterem produtivas dentro do contexto do bordado e também com a parte criativa mesmo. Ano passado a gente começou os desafios de bordado no grupo do Whatsapp e era sempre elogiando mulheres. Tipo, mulheres que te inspiram, mulheres nos seriados que te inspiram, mulheres na história que te inspiram.”

Uma mulher nascida em 1915, que em plenos anos 30, um período de segregação racial nos Estados Unidos, uniu a música secular e o gospel e com sua guitarra e estilo musical inédito e atraia diversos públicos. Além do fato de ser mulher e negra, do sul dos Estados Unidos, Rosetta era bissexual e suas músicas flertavam com sua sexualidade, tendo trabalhado e atuado em turnês com sua parceira Marie Knight, nos anos 40, duas mulheres negras e em um relacionamento, cantando juntas, um ato radical. Após o término desse relacionamento e da parceria musical, Tharpe segue com seu estilo musical baseado na música gospel, grava ainda discos, faz turnês pela Europa mas vem a falecer e seguir durante anos no esquecimento, sendo enterrada em um túmulo sem identificação de derrame. Sister Rosetta Tharpe já foi induzida ao Rock’n’Roll Hall of fame, influenciou artistas como Aretha Franklin e Johnny Cash mas teve seu reconhecimento vindo tardiamente. Ela é uma mulher inspiradora, que inovou na música, e a viveu intensamente. Por isso escolhi ela para o #DesafioBordadeiras #benovembro #SisterRosettaTharpe #embroidery #bordadoempoderado Fonte: https://www.npr.org/2017/08/24/544226085/forebears-sister-rosetta-tharpe-the-godmother-of-rock-n-roll

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Uma relação horizontal com quem ministra o curso fez do Bordado Empoderado um espaço de construção coletiva das aulas. “Fiz um grupo no Whatsapp, porque lá a gente consegue conversar melhor sobre as coisas que elas querem aprender no bordado. Mas óbvio que as gurias também discutem feminismo, porque esse é o nosso alinhamento,” conta Bruna. Liliane destaca que, no decorrer das aulas, o vínculo entre as participantes se fortalece e se transforma em amizades importantes. “A gente vai conhecendo o trabalho das outras mulheres que estão ali, que muitas vezes são artesãs e outras vezes são gurias com outros interesses. É um espaço de troca muito importante. É um grupo de convivência. Eu não consigo imaginar, hoje, como seria minha vida sem essas mulheres que eu conheci por meio do bordado.”

Pano para criatividade e autoconhecimento

A prática do bordado tem sido importante para as participantes também como uma terapia. A professora relata que o artesanato é uma forma de organizar próprios pensamentos. “Eu fazia para me sentir menos ansiosa. Quando tinha um momento muito ruim, de muita coisa acumulada, eu pegava um tecido e descontava nele. Porque, para mim, tem esse efeito de reorganizar minha cabeça. De eu conseguir priorizar as tarefas. Para mim é isso e acho que tem um monte de gurias que sente isso também”, explica Bruna.

Manuela Fonseca é uma das alunas que tem o bordado como um aliado para a ansiedade da rotina. “É uma coisa muito útil para pessoas que sofrem de ansiedade, que precisam de alguma coisa que acalme. Eu acho que essas coisas manuais acalmam o cérebro”, conta a bordadeira, que chegou a ter problemas para dormir, antes começar a praticar a técnica com frequência.

Outra aluna para quem bordar se tornou um reforço da saúde psicológica foi Juliana. “No momento que eu escolhi fazer esse curso eu estava passando por uma fase meio complicada na vida e foi uma coisa que me ajudou muito a desestressar. Foi uma coisa que eu aliei à minha terapia oficial”, explica Juliana, que também propaga o bordado: “Eu recomendo, porque tu estás fazendo uma terapia, estás fazendo uma coisa que é bonita e que dá prazer.”

Linha solidária

Com o Bordado Empoderado, Bruna pôde ministrar oficinas juntamente a    iniciativas que acolhem pessoas em vulnerabilidade social, como a Ocupação Mulheres Mirabal, Casa Camaleão e o Projeto Travessias. Bruna então passou a fazer todos os meses uma turma com elas. “Claro que o curso é o meu trabalho e paga minhas contas. Mas tem esse negócio também afetivo de ver essas mulheres fazendo alguma coisa artística que elas tinham bloqueado antes, é ótimo. Alcançar essas mulheres é que é alcançar a potência do curso.”

Empoderado desde o primeiro ponto

Pode-se dizer que desde a primeira aula o bordado empoderado foi o que ele se tornou. Ao ver num grupo de Whatsapp que uma amiga estava pedindo indicações de lugares onde pudesse aprender a bordar, Bruna se prontificou a ensiná-la. Enquanto ela passava técnicas e dicas para a iniciante, a conversa das duas logo conectou o feminismo e o bordado. “Eu lembro bem daquele primeiro dia, porque eu ensinei uns pontos básicos e ela me apresentou iniciativas de fora, de americanas e inglesas que estavam pegando o bordado e repaginando, colocando a temática feminista e temais atuais”, conta a bordadeira.

A partir, disso elas começaram a publicar no Instagram as obras que produziam, principalmente as que tinham conteúdo empoderado, com frases e símbolos femininos e feministas. As postagens chamaram a atenção de outras mulheres daquele círculo social, que também quiseram aprender a bordar. Em meio aos compromissos profissionais que tinha à época, Bruna conseguiu organizar um encontro com todas as que estavam interessadas, desde o aluguel da sala até a compra dos equipamentos necessários.

“Consegui um lugar, vi material e cobrei só o valor de custo das gurias. Nem queria tirar nada para mim, para mim era diversão, só diversão. Eu ia ensinar as minhas amigas a bordarem em uma tarde!”

Por haver oito confirmadas e a capacidade de ensinar até 15 pessoas, o curso foi divulgado no Facebook, abrindo a possibilidade para mais gente participar. Ao invés de apenas preencher as vagas, a então fotógrafa de gastronomia se viu dentro duma nova demanda na vida, pois 60 pessoas se inscreveram em um final de semana. “O louco foi que, logo que rolou essa primeira turma, me procurou uma moça, antropóloga, que estava fazendo pesquisa de tendência e artesanato. Ela sentou falando comigo como se fosse um negócio, um projeto meu de vida. Aí que me caiu a ficha de perceber que isso era possível. Alguém está me levando a sério!”

Foi lidando com a fila de espera que Bruna viu uma oportunidade de negócio inesperada e acabou desenvolvendo o Bordado Empoderado. Além disso, mudanças na atividade profissional também a conduziram para o empreendimento, que hoje se transformou na sua principal fonte de renda. Desde que começou, um período de dois anos e meio, mais de mil alunas fizeram os cursos. Veja abaixo algumas peças produzidas pela Bruna.

Curso mensal para iniciantes

Na trajetória do Bordado Empoderado já foram mais de 20 tipos de oficinas ministradas com conteúdos diversos. Dentre os 15 cursos oferecidos atualmente, o único que é oferecido de forma permanente mês a mês é o de iniciantes. Para os demais, Bruna abre enquetes – geralmente em grupos ou eventos no Facebook – para verificar a demanda e assim planejar o material a ser trabalhado em aula. “Eu boto um curso avançado novo, que é uma criação minha, daí eu me obrigo a criar alguma coisa diferente a cada mês”, explica.

Mais informações sobre novas turmas e valores no link: www.sympla.com.br/bordadoempoderado

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