Mães pesquisadoras discutem dificuldades de conciliar maternidade e carreira científica

Nos dias 10 e 11 de maio ocorreu o I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência em Porto Alegre

Por Ananda Zambi

Muitas mulheres querem ser mães um dia. Muitas também querem ser cientistas, mas ainda hoje a maternidade é vista como um caminho mais natural para a mulher. Nos dias 10 e 11 de maio de 2018, foi realizado na PUCRS o I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência. Organizado pela ONG Parent in Science, com apoio do instituto Serrapilheira, o evento discutiu temas pouco debatidos na sociedade, como a conciliação entre maternidade e vida profissional, a presença feminina na área de exatas e biológicas, a importância do cuidado parental na vida dos bebês e a falta de líderes mulheres nas universidades.

O Parent in Science surgiu em 2017, com o intuito de criar um fundo de financiamento voltado para mães docentes Como existiam poucos dados sobre o tema — somente um relatório internacional realizado pela editora Elsevier no ano passado, em que mostrava que as mulheres colaboram menos em artigos internacionais e que elas se deslocavam menos a fim de pesquisa do que os homens — o Parent in Science inicialmente se tornou um projeto de pesquisa, que reúne cientistas para levantar essa discussão do impacto dos filhos na carreira científica. Não só as mães são o público-alvo do projeto, pois os pais também enfrentam dificuldades — por exemplo, enquanto as mulheres podem parar sua carreira por pelo menos quatro meses com a licença-maternidade, a duração máxima da licença-paternidade é de apenas 20 dias.

Membro do Centro de Biotecnologia da UFRGS (CBiot) e idealizadora do projeto, a professora e pesquisadora Fernanda Staniscuaski abriu o simpósio contando sua experiência de ser mãe de dois filhos e professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: “Um dos maiores impactos de ser mãe durante a carreira científica é a dedicação exclusiva aos filhos. Durante o primeiro ano de vida do meu primeiro filho, eu não consegui me dedicar à ciência. Quando voltei à vida profissional, me sentia aquém, pois fiquei dois anos sem publicar.”

Fernanda Staniscuaski abriu o simpósio contando sua experiência de ser mãe de dois filhos e professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foto: Gustavo Diehl

Staniscuaski também apresentou dados preliminares da pesquisa nacional feita pelo Parent in Science, que coletou informações de 1182 docentes mulheres das quais 78% eram mães. Conforme os dados, a maioria das pesquisadoras que responderam ao questionário online tem um único filho, que geralmente nasce após três anos de contratação pela universidade, ou seja, no início da carreira, “o que compromete a retomada da vida profissional depois”, segundo Fernanda. Além disso, mais da metade das mães cuidam de seus filhos sozinhas; apenas 34% dividem os cuidados com o pai. Os dados também mostram que a média de idade da primeira gravidez é de 32 anos, bem acima da média nacional, que é de 26 anos. Mais de 80% das mães informaram não conseguir trabalhar em casa ou realizar apenas tarefas simples, como responder a emails. Com relação a submissões de trabalhos, 55% já perderam prazos de editais. Finalmente, mais de 80% acreditam que a maternidade foi desfavorável para suas carreiras profissionais (para ver todos os dados, clique aqui).

Apesar das dificuldades, a fisiologista e uma vencedoras do Prêmio L’Oreal Para Mulheres na Ciência 2017 Pamela Mello-Carpes não se arrepende de nenhuma das duas escolhas. Também palestrante do simpósio, ela conta que sempre quis ser mãe e pesquisadora. Ela engravidou no final da faculdade de fisioterapia:

“Minha maior dificuldade foi manter minha escolha de carreira diante da maternidade. Durante a graduação, eu tinha o plano de finalizar o curso e fazer mestrado e doutorado na área de fisiologia. Para tal, eu teria de mudar de cidade. Grande parte das pessoas acharam que eu não poderia, ou não conseguiria manter meus planos de pós-graduação, mas como eu nunca pensei em desistir, decidi que faria as duas coisas da melhor maneira possível.”

Sua pesquisa fala sobre a importância do cuidado parental no início da vida do bebê. Utilizando ratos de laboratório, os resultados confirmaram que a negligência de cuidados pode gerar, quimicamente, falta de confiança e déficit de memória na criança, o que torna a comunicação um fator-chave para o desenvolvimento do animal:  “A forma como interagimos, principalmente nos primeiros anos de vida, é fundamental para o desenvolvimento do cérebro.” Segundo a pesquisa, o cérebro dos pais também se modifica ao exercer o cuidado.

Pamela Mello-Carpes conta que sempre quis ser mãe e pesquisadora, e acabou engravidando no final da faculdade de fisioterapia. Foto: divulgação

Conforme a professora de Embriologia da Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO) Rossana Soletti, que abriu o segundo dia de evento,  46% dos brasileiros com acesso à internet a utilizam para buscar informações sobre saúde, e 99% das gestantes usuárias se informam sobre gravidez no Google. Apesar de existir uma parceria entre a ferramenta de buscas e o Hospital Albert Einstein, de São Paulo, ainda  é baixo o nível de confiabilidade dessas notícias: “Por exemplo, a quantidade de informações confiáveis sobre cesárea é de pobre a moderada. Os cientistas precisam falar diretamente com o público.” Rossana também apresentou o projeto Maternidade com Ciência, que tem como objetivo ampliar a comunicação de evidências científicas para gestantes e mães.

Mari Castañeda é professora e diretora do Departamento de Comunicação da Universidade de Massachusetts Amherst e autora do livro Mothers in Academia (mães na academia, tradução livre), e apresentou no simpósio o projeto The Poetics of Mama-Scholars: Fostering a Culture of Care and Equitable Policies for Parents in Academia (A poética das mães acadêmicas: promovendo uma cultura de cuidado e políticas equitativas para os pais na academia,). Castañeda declarou que cerca de 15% das professoras que trabalham em universidades são mães, e que se for levar em conta as  que têm uma posição permanente dentro delas, o número é ainda menor. “Ironicamente, o ambiente acadêmico como um todo é majoritariamente feito por mulheres”, diz a professora. Mari também cita um estudo realizado pela professora Joya Misra, também da Universidade de Massachusetts, que revela que existem penalidades para trabalhadoras mães: aprofunda a diferença salarial e afeta o crescimento dentro da instituição. Apesar do estudo realizado por Misra mostrar que independente da quantidade de filhos que as mulheres trabalhadoras dos Estados Unidos têm já é o suficiente para elas serem penalizadas, ele também revela que existe uma porcentagem de diferença salarial de acordo com o número de crianças: com três ou mais crianças, o salário diminui 18%; com duas, 13%; e com uma – surpreendentemente -, 14%.

A socióloga e professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Silvana Bitencourt apresentou a pesquisa Maternidade na universidade: desafios para a construção da igualdade de gênero, que realizou com a professora Elizabeth Farias da Silva, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa concluiu que grande parte das renúncias das mulheres acadêmicas – sendo elas mães, gestantes ou sem filhos – são feitas na fase do doutorado, quando, segundo Silvana, existe uma pressão maior para desenvolver um trabalho num prazo determinado de quatro anos. Bitencourt também colocou em questão as diferenças temporais entre homens e mulheres, como a idade reprodutiva, as licenças, os apoios, entre outros, e o dilema de conciliar vida profissional – a exigência da produtividade científica – e familiar: “Falar desses dois assuntos também é uma questão política. Maternidade é uma questão social, não é só da mulher”, explica.

Homens também têm dificuldades, pois o estereótipo do homem trabalhador e da mulher cuidadora ainda é forte no campo acadêmico. O geólogo Rualdo Menegat já publicou mais de 34 artigos em periódicos especializados, 63 trabalhos em anais de eventos, escreveu 50 capítulos de livros, tem quatro livros publicados e já ganhou 14 prêmios e homenagens. O pesquisador foi pai durante o doutorado e fala da falta de tempo para se dedicar e conciliar as duas atividades: “Uma dificuldade dar conta de todo trabalho que temos. Mas sempre vi meu filho como um incentivo para continuar fazendo ciência, e nunca deixei de cuidar dele e partilhar as tarefas domésticas com minha esposa por causa de meu trabalho de pesquisador. Se nos organizamos, há tempo para tudo”, afirma

Rualdo Menegat foi pai durante o doutorado e afirma que foi difícil conciliar as duas atividades. Foto: Gustavo Diehl

O I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência resultou sugestões de possíveis alternativas para melhorar as condições profissionais e pessoais dos pais e a vida dos bebês. Uma das ideias foi a campanha Maternidade no Lattes – que já está acontecendo -, onde as pesquisadoras mães sugerem que haja um espaço na plataforma virtual indicando se elas tiveram filhos e em que período, esclarecendo às agências de fomento e instituições de pesquisa que a maternidade muda o ritmo da carreira profissional, mas não a encerra. Outras propostas foram a progressão funcional de docentes mães, horários mais flexíveis, maior duração da licença paternidade, presença de creches e recreacionistas nos campi e reimaginar condições estruturais e culturais sobre o assunto.

Um comentário em “Mães pesquisadoras discutem dificuldades de conciliar maternidade e carreira científica

  • 24 de julho de 2018 em 10:52
    Permalink

    Um evento inovador no Brasil e que abrirá portas para um debate amadurecido sobre as reações condições de maternidade na América Latina.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *