SEXTANTE | Futebol, música e outras paixões

Histórias de orgulho e saudosismo da comunidade que se formou dentro do bairro Partenon.

Samara Onofre

Animada ao falar sobre o Flamenguinho, Vó Gilda pede para esperar que ela coloque a camiseta do time para tirar a foto. Aos 77 anos, não joga futebol, mas ainda encontra disposição para estar perto do clube do coração. “Sempre acompanho meu Flamenguinho, onde eles forem. Pode faltar jogador, mas eu não falto”, conta. Nascida em Porto Alegre, Gilda Maria dos Santos morava na Vila Nova, Zona Sul da cidade, quando em 1962 se mudou para o Campo da Tuca, na Zona Leste. Teve dez filhos e criou outros tantos que não eram biológicos. O Sport Club Flamenguinho foi fundado em 9 de novembro de 1975 por Adroaldo Padilha de Moraes, conhecido como Dom, e herdado por três dos filhos de Dona Gilda: Paulo Roberto, Silvio Roberto e Gilson Santos.

O clube do Campo da Tuca costumava desenvolver atividades além do esporte. Oficinas, desfiles, festas para crianças em dias temáticos e até uma ala especial no grupo carnavalesco Imperadores do Samba. Saudosista, Gilda mostra os troféus do time e explica que hoje, com o desenvolvimento tecnológico e outras distrações disponíveis, as novas gerações da comunidade já não têm tanto interesse em participar das ações do clube, por isso não existem mais com tanta frequência, mas pessoas como ela ainda são grandes incentivadoras da manutenção da cultura local.

Até hoje o Flamenguinho participa dos jogos do futebol de várzea e conquista títulos. Foto: Taciana Farias

Quando se mudou para a Zona Leste, Vó Gilda foi morar no antigo casarão, uma das primeiras construções naquela parte da cidade que hoje vem a ser a comunidade do Campo da Tuca. O espaço era uma pensão em que os inquilinos pagavam em torno de 70 cruzeiros. O casarão, que já não existe mais, pertencia a Adilles Meirelles, a dona Tuca, uma senhora que não morava lá, mas tinha pessoas de confiança que ficavam responsáveis por receber o dinheiro dos aluguéis e de cuidar do local. A comunidade que se localiza dentro do Bairro Partenon cresceu em torno do campo de futebol e hoje tem os seguintes limites estabelecidos popularmente: ao leste, o riacho, ao sul e oeste, a Rua Largo da Paineiras e, ao norte, a Avenida Veiga.

Formado há cerca de 60 anos, o Partenon não tem nenhuma grande indústria ou prédio alto e abriga casas de funcionários públicos e famílias que moravam em outros cantos da cidade. A capital gaúcha passou na década de 1950 por um processo de gentrificação. Populações pobres, como a família da vó Gilda, foram obrigadas a se deslocar para zonas mais periféricas, em nome do encarecimento e da higienização por parte da administração pública. Devido a esse movimento para lugares como o Bairro Partenon, surgiu então a preocupação da dona Tuca em manter o espaço do campo de futebol preservado. Hoje o local recebe seu nome como homenagem.

A comunidade foi crescendo em torno do campo, e cada vez mais usando o espaço para atividades culturais e esportivas. Foto: Arquivo ACCAT

 

O Surgimento das Entidades

Durante muito tempo, a vila não recebeu nenhuma atenção da Prefeitura Municipal. Até os anos 1980, não tinha água canalizada, luz e saneamento, e todas as casas eram feitas de madeira. As pessoas que ali moravam não eram assistidas por nenhum órgão, nem tinham seus direitos básicos garantidos. Isso começou a mudar com o surgimento de entidades, como os clubes de futebol, que ocupavam o campo, e a ACCAT (Associação Comunitária do Campo da Tuca), formada em 1978 por moradores insatisfeitos com o descaso público. Entre os fundadores está Antônio Matos, militante, produtor cultural e ainda um dos líderes comunitários. Incisivo quando precisa defender a comunidade, aos 68 anos ainda luta para que o lugar seja reconhecido como uma referência em cultura e oportunidades.

Bom de papo, Antônio senta na sala de sua casa e conversa sobre qualquer assunto: política, economia, música, futebol, morte e outras coisas. Foi morar na Tuca quando criança. Daquela época se lembra bem das dificuldades que não só sua família, mas a vila inteira passou. O mais novo entre dez irmãos descreve sua mãe como uma mulher batalhadora. “Ela sempre dizia quatro coisas: respeitar a Deus, respeitar os mais velhos, trabalhar, e o quarto ponto eu não me lembro agora, mas não era para estudar, nós não éramos incentivados a isso”, conta.

Casado há mais de 40 anos com Leci Soares Matos, Antônio toca com a esposa alguns projetos da Associação. Além disso, também é o presidente da cooperativa de reciclagem local, espaço que, por meio de parcerias com a Prefeitura, gera renda e trabalho para pessoas da comunidade através da separação de parte do lixo municipal. Apesar da companheira, do filho, dos netos e de uma comunidade inteira que se conhece, Antônio revela que está começando a sentir a solidão chegar. Perdeu a mãe, oito dos nove irmãos e viu muitas pessoas da Tuca partirem. “Quando você tem uma família muito unida como a minha e você vê todo mundo indo assim, você sente que é o próximo”, diz.

Antônio e Leci ajudaram a fundar a Associação Comunitária do Campo da Tuca
Foto: Glauber Cruz

 

Reconhecimento Cultural

Assim como no futebol, as gerações anteriores eram muito mais participativas nas ações culturais da comunidade do que as de agora. Antigamente eram mais frequentes as oficinas de música, reciclagem, esportes e artes, e o campo era mais utilizado para as festas em datas comemorativas. Dentre os momentos inesquecíveis da comunidade está o dia 7 de fevereiro de 2006, quando um dos principais artistas da música brasileira e, na época, Ministro da Cultura, Gilberto Gil, foi recepcionado na vila da Zona Leste ao som de tambores. Cerca de mil pessoas viram Gil inaugurar um totem que marcava simbolicamente a identidade e a força dos trabalhos desenvolvidos nos Pontos de Cultura da Região Sul. Gil cantou Domingo no Parque com o público. Hoje em dia, a comunidade é prestigiada pelo pagode na Cervejaria, que acontece nas sextas-feiras, e pelo Baile Funk da Tuca, geralmente nos sábados. Esses eventos são muito frequentados pelo público de fora da comunidade e são importantes fonte de renda, pois os moradores aproveitam para vendas ambulantes ou em seus próprios comércios.

A cerimônia preparada para receber Gilberto Gil foi apresentada pelo Antônio
Foto: Arquivo ACCAT

“Sinto que não tem mais nada de cultura aqui, nada que incentive e oriente as crianças”, diz Magali dos Santos Barreto com um ar meio desesperançoso. Ela, que tem 44 anos e mora na Tuca há 43, conta que costumava promover festas e oficinas para as crianças da comunidade, mas com o tempo foi parando por achar que aquilo estava tomando um outro rumo. Segundo Magali, as coisas passaram a ser muito comerciais. Na concepção dela, as ações na vila não são mais feitas pela cultura e sim pelo dinheiro envolvido. Seu pai, Eloíno do Santos Barreto, conhecido como “Cabeludo”, foi um dos fundadores do time local “União da Tuca”. Ele tinha um boteco no bairro e conhecia todo mundo.

Magali se recorda da infância e da adolescência, quando participava ativamente das ações culturais. Ela lembra com sorriso no rosto de concorrer para ser rainha e princesa do Flamenguinho e dos desfiles na Imperadores. Morando com o atual marido, Daniel da Silva Becker, as três filhas, Maísa Diuly, Demillyn Patrícia e Danielly e o neto, Miguel, Magali tem uma loja de variedades no bairro. Gosta muito da vizinhança e sempre se sentiu segura no local. Magali se casou pela primeira vez com 15 anos, teve a primeira filha, Maísa, com 21, e tentou se manter estudando. Conseguiu terminar o Ensino Médio, mas com a chegada da segunda filha já não foi possível uma especialização. Maísa foi a primeira da família a entrar em uma faculdade. Ela cursa Publicidade e Propaganda na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Quem também já aproveitou muito as ações da comunidade foi Pedro Acosta. Filho de pai frentista e mãe empregada doméstica, hoje tem 38 anos e cursa doutorado em Etnomusicologia na UFRGS. Cresceu no Campo da Tuca junto com suas quatro irmãs mais novas. Os pais se separaram quando ele tinha 11 anos, e a vida da família mudou bastante desde então. A mãe e os filhos se mudaram para outra casa um pouco mais acima no morro, mas Pedro sempre voltava para a Rua Comunitária para rever os amigos. Algum tempo depois, conseguiram voltar a morar na Tuca. Ele fala de sua mãe, Líbia Regina Acosta, como uma mulher trabalhadora e forte que criou, educou e incentivou os filhos a sempre estudar e trabalhar para não passar dificuldades.

Pedro estudou na creche da Associação Comunitária do Campo da Tuca (ACCAT), participou durante a infância e a adolescência dos projetos e oficinas que eram ofertados no lugar e ali viu se desenvolver ainda mais seu interesse pela música. Cresceu com a influência do pai tocando instrumentos de percussão, participou da bateria da escola de samba “Os Filhos da Candinha” e também foi um dos integrantes do grupo de pagode “Swing da Gente”. Pedro lembra que, quando completou o Ensino Médio, sentiu a pressão e a necessidade de ter um trabalho de carteira assinada para ajudar a família. Conseguiu um emprego como lavador de carros, onde ficou por dois anos.

“Em determinado momento eu quis largar o trabalho, pensei que tinha que investir na música, já que eu tinha uma banda de pagode e amava fazer isso”, conta. Com o dinheiro da rescisão, ele fez a carteira profissional na Ordem dos Músicos. Primeiro passou pelo teste prático e depois fez um curso teórico para poder lecionar. Foi aí que Pedro voltou para a ACCAT como oficineiro e professor voluntário. “Eu lembro que cheguei lá, depois de muito tempo, e estava tocando ‘Bonde do Tigrão’, as crianças cantando, e eu cheio de preconceito em relação ao funk”, relata.

Pedro voltou para a ACCAT para ensinar música às crianças da comunidade
Foto: Arquivo ACCAT

Após isso, Pedro fez magistério, licenciatura em música e mestrado, onde apresentou a dissertação Bailes, festas, reuniões dançantes, trampos, montagens e patifagens: uma etnografia musical no Campo da Tuca, a capital do Funk no Sul do país. Nessa pesquisa, Pedro traz muitos dados e entrevistas que contam a história do Campo da Tuca e como se desenvolveu a cultura musical no local. Hoje trabalha na Escola Municipal Especial de Ensino Fundamental Professora Lygia Morrone Averbuck e na FASE-RS (Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul).

O professor já não mora mais na Tuca, vive com a esposa e o filho em um apartamento perto da avenida Protásio Alves. Lá sente falta de participar da comunidade ativamente, não costuma nem conversar com os vizinhos direito. Quando pode, volta para a Tuca para visitar a mãe e os amigos e para tocar seu projeto na Rádio Web Tuca, atividade de extensão nascida dentro da disciplina Encontro de Saberes, na UFRGS, e que agora tem continuidade dentro da comunidade. “Na minha época foi muito interessante como a maioria da comunidade se desenvolveu com as ações comunitárias. Hoje tudo acontece através da internet, então é ali que está a nova cultura da Tuca”, explica Pedro. Quem sabe ele tenha encontrado o caminho para revitalizar a cultura do local.

FOTO DE CAPA: Taciana Farias

Um comentário em “SEXTANTE | Futebol, música e outras paixões

  • 20 de fevereiro de 2019 em 22:25
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    Eu nasci e cresci no Campo da Tuca, realmente era assim…. Participei de muitas oficinas, inclusive aluna do “tio Pedro”. Hoje moro em Gramado e fico muito triste com o que vejo quando vou visitar meus pais e irmãos.

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