Nova ponte do Guaíba ameaça cultura do Arquipélago de Porto Alegre

Obras para construção da nova ligação entre as cidades de Porto Alegre e Guaíba geraram remoções e incertezas sobre o futuro ainda deixam moradores das ilhas inseguros.

Antonella Nery

Quem passa diariamente pela BR 290, a Freeway, em Porto Alegre, nas imediações da Arena do Grêmio, se espanta com a velocidade imprimida nos últimos meses à construção da nova ponte ligando a capital gaúcha à cidade de Guaíba. O que pouca gente se dá conta é dos impactos que as obras produzem sobre moradores da região do bairro Arquipélago. É o que o portal Humanista foi conferir.                  

Desconhecida ou esquecida por grande parte dos moradores da própria cidade, a Ilha Grande dos Marinheiros é uma das que faz parte do conjunto de ilhas sobre o lago Guaíba. No entanto, muito mais do que distante fisicamente do centro urbano, a ilha distancia-se em termos sociais. A região que tem uma identidade única acaba desafiando o imaginário convencional a respeito da cidade. Crianças brincam com seus vizinhos sob palafitas em meio às águas poluídas do lago que as cerca.

A falta de acesso a serviços públicos básicos, como saneamento, torna a ilha uma das áreas com menor índice de desenvolvimento humano municipal da região metropolitana, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. É alarmante a desigualdade entre as comunidades do local e os habitantes da “cidade grande”,  forma como os ilhéus se referem aos demais bairros de Porto Alegre. Afinal, apesar dos problemas estruturais que marcam sua história, a cidade ainda é considerada a sexta capital mais rica do Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) . É como se as águas do Guaíba e os sete quilômetros do centro estabelecessem uma relação alheia ao cotidiano da capital.

Apesar de a comunidade viver em casebres construídos com sobras de calhas e materiais de demolição, os ilhéus gostam do seu modo de vida, próximo à água e distante dos demais problemas da cidade, revela Juramar Coras, um dos moradores com quem a reportagem conversou. São mais de 800 famílias, na maioria formadas por descendentes de pescadores, que dividem as estreitas ruas do arquipélago. Mesmo ganhando notoriedade nacional no final dos anos 1980, com o curta-metragem Ilha das Flores, de Jorge Furtado, essa população ainda é invisível aos olhos do restante da sociedade.

Ao visitar a ilha é possível se deparar com muitos moradores banhando-se em uma faixa de areia na margem rasa do Guaíba. Contudo, esse momento de lazer pode trazer graves consequências à saúde da população. O lago que recebe lixo e dejetos de todas as regiões de Porto Alegre e a ausência de uma rede de esgoto tornaram comum doenças infectocontagiosas como hepatite, leptospirose e verminose.

Crianças brincam às margens do Guaíba, expostas à doenças infectocontagiosas como hepatite, leptospirose e verminose. Foto: Luis Felipe Abreu/Instituto Alana/Agência Pública

 

Nova ponte

Visando a atender um anseio antigo dos gaúchos, fruto da parceria do governo federal com a prefeitura, a nova ponte sobre o lago Guaíba está em construção desde 2016. Essa segunda travessia deve ampliar a interligação da Região Metropolitana de Porto Alegre com o sul do estado. Uma conexão sobre o Delta do Rio Jacuí que visa a cessar as interrupções que ocorrem diariamente na única ponte existente, estimando um futuro fluxo de quase 50 mil veículos por dia, segundo o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), órgão responsável pela obra.

A nova ponte é orçada em cerca de R$ 640 milhões, está em sua fase final de construção e acaba trazendo à tona problemáticas relacionadas à realocação dos moradores da Ilha dos Marinheiros. Com mais de 70% da obra pronta, as previsões de entrega mais recente são para o segundo semestre de 2019, mas o reassentamento das famílias estende-se até outubro do mesmo ano, pelo menos.

De acordo com o DNIT, mais da metade das famílias que moram na ilha foram cadastradas para morarem em loteamentos construídos por meio do Programa Minha Casa, Minha Vida do governo federal, com recursos garantidos pelo Ministério das Cidades. Essas novas moradias que serão concedidas aos ilhéus serão na área localizada na margem sul da BR-116/290 e terão cerca de 40 metros quadrados, abastecimento de água e rede de esgoto.

Os moradores criticam a falta de informação sobre seus futuros. Afinal, essa realocação provisória deve ter um planejamento que considere a dinâmica cultural das comunidades, como explica Nana Sanchez, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)  e militante do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas).

Segundo Carta Compromisso firmada pelo senador Paulo Paim (PT) em audiência pública no dia 21 de julho de 2016, além de destinar recursos para realocação, foi acordado não dar continuidade na obra enquanto não fosse resolvida devidamente a questão da moradia. Embora o DNIT afirme estar realizando reuniões constantemente com as lideranças comunitárias das ilhas, é importante reconhecer o direito dessas comunidades optarem por permanecer por lá, defende o antropólogo Rafael Devos. “São pessoas que construíram laços de pertencimento com uma condição diferenciada de moradia na cidade, uma identidade ligada à proximidade com as águas dinâmicas do rio e marcada pela solidariedade entre as famílias.”

O antropólogo que já trabalhou por cinco anos na ilha em sua pós-graduação explica que pelo tempo que conviveu com os ilhéus pôde compreender um pouco da memória compartilhada dessa população. Não se trata apenas de avaliar um terreno por suas dimensões ou uma casa por seu tamanho, mas de reconhecer as particularidades e a trajetória dessa determinada comunidade. Apesar de considerar difícil antecipar os impactos que serão causados, essa condição instável repleta de incertezas sobre seus futuros, que já se arrasta por anos, produz insegurança sobre as famílias. Afinal, muitos ilhéus têm na memória a violência de remoções passadas.

Além disso, Devos acredita que há sempre um impacto nas relações de solidariedade entre famílias e vizinhanças, como coletivos com laços diversos: cuidado compartilhado de crianças, idosos, cultos religiosos, e assim por diante. Logo, desagregar esses laços geraria tensões. Os habitantes são a favor de melhorias nas condições de urbanização, desde que o lado humano seja considerado, levando em conta suas identidades enquanto moradores das ilhas.

Historicamente, vários projetos urbanos em Porto Alegre e em diversas outras cidades de médio e grande porte, principalmente de infraestrutura ou de embelezamento, causam a remoção de pessoas pobres, de acordo com Nana Sanchez. A obra da nova ponte do Guaíba comprovaria essa lógica, já que diversas vigas foram colocadas próximas à casas ainda habitadas, pelo fato de a construção iniciar-se antes das realocações. A geógrafa acredita que a pressa na construção e a falta de informação e de apoio social para as comunidades configuram-se como uma violação dos direitos humanos. A ânsia pelo progresso às vezes acaba deixando de lado as próprias condições humanas.

“É importante que pensemos nessa realocação com o mínimo de impacto na vida dos habitantes. O certo seria que ficassem até no mesmo bairro para não perderem seu atendimento à saúde, sua rede de educação e mais todas as relações que a pessoa cria no território em que ela mora”, argumenta Nana Sanchez. Ela ainda conclui que se a população da região do arquipélago tivesse uma condição financeira melhor, toda essa obra teria sido conduzida de maneira diferente, com menos impactos.

Projeto da nova ponte sobre o lago Guaíba. Divulgação/DNIT

 


 

FOTO DE CAPA: Diana Mendel/@poadecima

 

 

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