O Brasil que fala mandarim

Comerciantes, empresários, trabalhadores rurais e alguns indocumentados. Esses são os chineses abrasileirados, uma das maiores comunidades de imigrantes no país.

Juan Ortiz

Já era a segunda vez que o comerciante Huang Chen* enfrentava uma ameaça de deportação da Polícia Federal. Essa cena havia ocorrido cinco anos antes, em novembro de 2008, quando acabou preso na sede da entidade em Goiás por conta de sua presença irregular no país. Às 20 horas do dia 1º de dezembro daquele ano, o avião do chinês decolou do Aeroporto Internacional de Guarulhos rumo à sua pátria natal. Aqui, ficaram a esposa Lao Xu* e o filho Huang Jianfeng*, que receberam anistia e visto temporário do governo.

Enquanto um retorno perigoso e improvável do Huang pai não acontecia, Lao teve que se virar sozinha em uma terra que mal conhecia, com um idioma que não dominava. Seu marido havia sido mandado para o outro lado do mundo e qualquer tentativa de retorno seria, no mínimo, arriscada. Mesmo diante das adversidades, a chinesa manteve a cabeça erguida. Trabalhou de sol a sol, trocou de endereço para o Distrito Federal e abriu seu próprio negócio em 2012 – a loja Lao Xu Comércio de Bolsas, que atua no varejo da Feira dos Importados de Brasília. Além disso, ela e o filho obtiveram a tão desejada autorização de permanência, garantia de poder ficar no país pelo tempo que quisessem. Ainda assim, o casal Lao e Huang aguardava uma chance para se ver novamente. E Huang estava determinado a tornar esse desejo realidade.

Em 2013, ele entrou clandestinamente no país pela última vez. A via de acesso foi a fronteira paraguaia com Foz do Iguaçu, zona conhecida por ter uma fiscalização que faz vista grossa à circulação de mercadorias contrabandeadas e pessoas sem documentos. Dois dias de estrada e 1.600 km depois, o comerciante chegou ao seu destino: a capital brasileira. Enfim, o reencontro com a família. Só que a situação ainda era delicada demais para grandes comemorações. Se o chinês fosse trabalhar com a mulher, teria que se manter sempre abaixo dos radares da polícia. Se tentasse regularizar a documentação, correria o risco de se entregar de bandeja para as autoridades. Não havia escolha fácil.

Para quem acabava de rever a esposa e o filho após uma longa jornada, o imigrante tomou uma decisão audaciosa: juntou a papelada para começar a viver nos trilhos, como manda a lei. O fundamento do seu pedido de residência era a própria política migratória brasileira, que garante o direito à reunião familiar até para quem tem ficha criminal. Com ajuda de Lao, conseguiu dar entrada ao processo de permanência no CNI (Conselho Nacional de Imigração) e pagou as devidas taxas. Só faltava levar alguns documentos para a Superintendência da Polícia Federal. Foi lá que o cerco apertou. Assim que Huang tentou explicar seu caso, o agente do setor de imigração imediatamente rejeitou a solicitação e o convidou a se retirar do país no prazo de três dias, sob pena de deportação. Era 19 de novembro de 2013.

A família chinesa procurou, em desespero, o escritório do advogado Alex Carvalho, que, dois dias depois, entrou com mandado de segurança para cassar a decisão na Justiça. Pedido negado. Mas, pelo menos, Huang pôde recorrer em liberdade até o julgamento em segunda instância. E foi no TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) que o desembargador Antônio Souza Prudente estendeu a mão ao comerciante estrangeiro, depois de quase três meses no limbo. O juiz não chegou a analisar o mérito do processo, porém suspendeu a notificação de deportação até que saísse a decisão administrativa do pedido de permanência.

Em 10 de abril de 2014, foi dado o veredito: Huang Chen entrou para a lista oficial dos 50 mil chineses residentes no Brasil, da qual Lao Xu e o Huang filho já faziam parte. A saga chegou ao fim, com um desfecho surpreendentemente feliz. “Ele foi bem corajoso, arriscou mesmo. Poderia ter ficado ilegal, mas preferiu pedir [a permanência]”, reconhece o advogado do comerciante.

 

Barrados nas fronteiras

Os chineses protagonistas desta reportagem são apenas alguns dos milhares que tiveram impasses com as autoridades brasileiras nos últimos anos. E as perspectivas não são lá muito animadoras. De acordo com dados do Sistema de Tráfego Internacional, pelo menos 13 mil chineses foram impedidos de entrar no país entre 2012 e 2017. Depois deles, as nacionalidades mais barradas foram a mianmarense e a americana, com cerca de duas mil pessoas cada uma.

A China ainda ficou nas primeiras posições do ranking brasileiro de deportações da última década (2007-2017): em torno de 100 pessoas, praticamente o mesmo que Portugal, Bolívia ou Itália. O gigante asiático só ficou atrás mesmo dos venezuelanos, que tiveram cerca de 300 deportações. No ano em que Huang esteve prestes a ser corrido daqui pela segunda vez, houve apenas quatro chineses entre os deportados. Em 2017, foram 15.

Ainda é difícil saber o que leva tanta gente da China a enfrentar problemas migratórios por aqui. “Pode ser que isso ocorra simplesmente porque a imigração chinesa é muito alta”, pondera o professor Maurício Santoro, do departamento de Relações Internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Estimativas extraoficiais da Associação Chinesa do Brasil indicam que há pelo menos 250 mil chineses e descendentes morando no país. Por outro lado, a população chinesa registrada na Polícia Federal soma apenas um quinto desse número. Em fevereiro de 2018, o total de estrangeiros registrados passava de 1 milhão de pessoas.

De acordo com Santoro, outro fator que pesa contra os estrangeiros é a pouca verba investida neles. “Nossa lei de imigração melhorou recentemente. Mas o desafio hoje é menos o que está na legislação e mais os recursos financeiros para uma boa política migratória”, aponta. Embora haja diversos acordos diplomáticos para facilitar a chegada de turistas chineses e a permanência de vizinhos sul-americanos, os órgãos estatais se mostram apáticos às demandas dos imigrantes.

Alguém que deseja obter a autorização de permanência, por exemplo, precisa dedicar um bom tempo para achar a lista completa e atualizada de documentos exigidos, preencher os devidos formulários, pagar mais de R$ 300 reais em taxas administrativas e agendar horário no site da Polícia Federal, que têm poucas informações em outras línguas e cujo atendimento ainda pode demorar várias semanas – ou meses, se houver problema na documentação. E isso só para dar início ao processo. Na prática, a maioria dos recém-chegados têm basicamente duas opções para não cair na ilegalidade: tentar a regularização na queda de braço com a burocracia ou recorrer a agências especializadas que cuidam desse tipo de trâmite.

O portal Humanista entrou em contato com a Polícia Federal para pedir esclarecimentos sobre o assunto, mas não obteve retorno até a data da publicação da reportagem.

 

Uma “rota de seda” latina

Os chineses vêm para o Brasil há mais de 200 anos. O primeiro grupo do qual se tem notícia desembarcou em 1812, no Rio de Janeiro, para trabalhar nas plantações de chá. Naquela época, a relação sino-brasileira tinha como objetivo atrair o mercado inglês, mas os cultivos não deram bons resultados porque o clima era quente demais.

No começo do século 20, os qingtianeses (de Qingtian, no leste da China) começaram a atuar como sacoleiros e donos de lojas no eixo Rio-São Paulo, onde vendiam toalhas bordadas, porcelanas e lenços de seda. Foram eles que abriram as portas para as importações e a vinda de chineses de outros lugares. Atualmente, as áreas paulistanas da famosa rua 25 de Março e do Brás (bairro que concentra grande parte do comércio popular da cidade) são os maiores centros de distribuição de mercadorias chinesas no país. O fluxo migratório movimenta também a economia local – inclusive com a receita gerada por lojas, mercearias e restaurantes.

Mas a relação entre Brasil e China não se resume ao comércio popular. Em 2017, as exportações brasileiras para o gigante asiático atingiram a casa dos US$ 44 bilhões, sendo que 80% delas se concentraram em três mercados principais: soja, minério de ferro e petróleo. E é nesses produtos do setor primário que muitos empresários chineses têm investido fortemente. Pelo menos até o momento.

Se os prognósticos se confirmarem, a política externa verde-amarela está prestes a dar uma guinada radical. A quebra de laços do novo governo com o maior parceiro comercial brasileiro ainda é um salto no escuro. “Para a China, a relação com o Brasil tem muito menos peso do que o contrário”, alerta o sociólogo Carlos Freire, especialista nas relações socioeconômicas sino-brasileiras.

Militares chineses recebem coroa de flores brasileira durante cerimônia em Pequim, no dia 1º de setembro de 2017. Foto: Isac Nóbrega/PR/Agência Brasil

O último registro que a reportagem encontrou de Huang e Lao foi um acidente de trânsito ocorrido no dia 9 de março de 2018. O casal estava no seu veículo, um Gol preto, o marido ao volante, quando colidiu com outro carro em um cruzamento da Avenida Leste QN122, Samambaia Sul, região administrativa do Distrito Federal. Não houve menção a qualquer lesão grave. Pelos documentos judiciais aos quais o Humanista teve acesso, soubemos que a família agora mora em Vicente Pires, cidade-satélite de Brasília, a 10 km de distância da Feira dos Importados. A família chinesa acabou não atendendo às tentativas de contato. A explicação do advogado de Lao Xu, Ronaldo de Almeida, foi simples: “eles não são de parar de trabalhar para conversar.”


*A pedido do advogado Alex Carvalho, o portal Humanista usou nomes fictícios para se referir aos imigrantes chineses.


FOTO DE CAPA: Rovena Rosa/Agência Brasil

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