Ora aliado, ora vilão: celular é motivo de polêmica

Rene Almeida

Que o mundo mudou com o avanço da internet é inegável. Muitas empresas, profissões, esportes e áreas da ciência se transformaram. Segundo um levantamento da TIC Kids Online Brasil, 93% das crianças e adolescentes brasileiros acessaram a internet via celular em 2017. Se comparado a 2012, quando 21% dos pequenos tinham esse comportamento, é um crescimento significativo. Na escola, contudo, é difícil a implementar o celular e a internet no processo pedagógico.

“Dentro da minha sala de aula, não uso celular”, afirma Denise Tavares, professora na Escola Estadual Gentil Viegas Cardoso. Enfática, ela revela que proíbe o uso do telefone na sua turma de 3º ano. Segundo a professora, o aparelho é utilizado apenas como distração e acaba atrapalhando a aula. Se usassem aplicativos educativos, que pudessem ser trabalhados para o desenvolvimento da alfabetização, ela afirma que seria favorável. O fato de nem todos os alunos terem um celular próprio também impossibilita o uso. Outro ponto citado pela professora é o risco da criança perder o telefone. “Se houver um roubo, a responsabilidade não é minha. Aquilo não é material escolar.”

 

Na saída da escola, a auxiliar administrativa Janaína Ignácio Cardoso, 35 anos, aguarda seus filhos Breno, Marcelly e Jenifer terminarem o turno de aula (na foto, os quatro, já depois da aula. “O celular atrapalha porque eles pegam pra jogar, não pra ler, pra ver uma história ou o noticiário.” Ela revela que em casa proíbe o uso do aparelho em dias de semana para não interferir no estudo das crianças.

Andreia Guimarães, professora de Português dos 2º e 3º anos do Ensino Médio na Gentil, compactua do pensamento de Janaína e não poupa críticas ao uso do aparelho no ambiente escolar.

 

Entretanto, para ela os métodos de ensino precisam se modernizar e a tecnologia deve ser uma aliada do professor. “Os alunos não estão mais nessa vibe de caneta, livro etc. Se nós, professores, trabalhássemos com coisas diferentes, teríamos muito ganho”, argumenta.

Na direção Escola Estadual de Educação Básica Gentil Viegas Cardoso, a visão é cautelosa. A supervisora Cristina Coelho afirma que o aparelho não é proibido, mas há regras de uso. “Não pode ficar em cima da mesa, mexendo no momento de aula. Não proibimos, mas também não permitimos a utilização que não seja para fim educacional.” O vice-diretor, Julio Idiarte, pontua dois problemas na utilização abusiva: a falta de prática em escrever a próprio punho e as grafias equivocadas que são usadas nas redes sociais. “A questão não é no nível avançado, são nas palavras básicas que são escritas erradas porque é mais rápido no celular.”

A professora do SOE (Serviço de Orientação Educacional), Solange Borba, reconhece a dificuldade que a instituição e os alunos têm de entrar num consenso sobre as tecnologias. “Não conseguimos acompanhar. É muito mais atrativo uma criança pesquisar no celular. É muito mais rápido do que os recursos que temos para trabalhar. Então, torna-se cansativo para o aluno e repetitivo para nós.”

Janaína Cardoso, 38 anos, restringe uso do celular dos filhos: Breno, Marcelly e Jenifer.
Flexibilização do professor

Nem todos os especialistas consideram a tecnologia uma vilã. Patrícia Camini, professora do curso de pedagogia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), acredita que a discussão sobre tecnologia causa um conflito geracional. Para ela, o professor precisa estar aberto a novas fontes de consulta na sala de aula.

 

Ela exemplifica com as novas formas de introdução à leitura, como áudio, vídeo e imagens. Conhecer e trabalhar novas modalidades parece ser uma demanda que os próprios alunos já praticam fora da escola. “Tem jovens que participam de uma leitura multimodal, que integra imagem com texto em movimento, texto em áudio. E aí você quer que o aluno entre na leitura por um livro. Muitas vezes, ele vai se interessar depois pelo livro”, destaca Patrícia.

Para Thaiane Pereira, coordenadora de projetos do Movimento Todos pela Educação, a tecnologia ainda precisa superar algumas barreiras. “Não há internet em todas as escolas. Elas não têm materiais ou recursos tecnológicos. Mas a tecnologia pode e deve ser usada como aliada no processo de ensino-aprendizagem. Existem várias metodologias diferentes que podem ajudar os alunos.”

Embora o debate ainda esteja em aberto, a tecnologia está presente, cada vez mais, na rotina dos estudantes. E há pelo menos um consenso: se utilizada na medida certa e com o controle adequado dos pais, pode ser aliada no processo de aprendizagem.


Introdução


Os pais: mais do que levar à escola, é preciso incentivar


Reprovação nos anos iniciais: diferentes pontos de vista


Contexto social: a escola além do currículo


Alunos de inclusão: um desafio a mais


FOTOS: Rene Almeida/Humanista

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