Por que orgânicos? Humanista visita cooperativa que produz arroz sem agrotóxicos

Na Semana do Meio Ambiente, Humanista vai até a Coopan, em Nova Santa Rita, para conhecer a produção do arroz orgânico e seus benefícios ambientais e para a saúde.

Bibiana Davila*, com colaboração de Bárbara Lima e Rene Almeida

Boa parte do arroz orgânico disponível na Loja da Reforma Agrária do Mercado Público de Porto Alegre viaja pelo menos 39 quilômetros do Assentamento Capella até a capital dos gaúchos. Os grãos são fruto do trabalho das 29 famílias que compõem a Coopan (Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita) que vivem em uma pequena comunidade no município de Nova Santa Rita, na região metropolitana, entre pomares e lembretes de que: “se o campo não roça, a cidade não almoça” e “povo que ousa lutar, constrói poder popular”.

Na Semana do Meio Ambiente, a comunidade abriu as portas da sua produção para alunos de Relações Públicas e de Jornalismo, acompanhados pelos professores Vera Schmitz e Basílio Sartor, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que mantém projeto de extensão universitária com os pequenos agricultores. O portal Humanista acompanhou a visita para conhecer a produção do arroz orgânico e seus benefícios em detrimento do arroz branco, ainda mais comum nas prateleiras dos supermercados Brasil afora.

O arroz produzido ali, ocupando cerca de 300 hectares do assentamento, chega aos cinco mil quilos por semana. As famílias que fazem parte da cooperativa, oficializada em 1996 — mas criada na prática em 1994 —, recebem os lucros pelas horas de trabalho que dedicam à agricultura, ao mesmo tempo em que tomam todas as decisões sobre o futuro da Coopan de forma coletiva, em assembleias mensais. “A gente é dono e empregado ao mesmo tempo”, explica Airton Luiz Rubenich, 50 anos, que está há três décadas no que ele define como a “luta pela terra”.

Junto aos amigos Flavio Luis Seller, 50, e Romeu Bosa, 52, parceiros desde os primeiros dias de “lona” — nos acampamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) —, Airton destaca que a terra é apenas uma das facetas desta luta, que busca trazer mais saúde, educação e lazer para a vida no campo. “A gente tira até férias, para passear. Qual o colono que pode tirar férias?”, brinca o agricultor, que relembra com carinho a participação no Campeonato de Futebol da Reforma Agrária, no início do ano.


Coopan fica a aproximadamente 50km do Mercado Público de Porto Alegre


 

Não aos agrotóxicos, sim às políticas de incentivo

Não utilizar agrotóxicos na produção foi uma das decisões em consonância com os ideais do movimento. “Vai passar veneno no próprio pé?”, rejeitam os agricultores numa espécie de slogan. Eles tiveram a oportunidade de frequentar ainda na época de acampamento cursos sobre agroecologia e os perigos das substâncias químicas artificiais utilizadas nas lavouras. Como destacam, doenças como câncer e infertilidade são cada vez mais comuns entre aqueles que seguem no modelo tradicional de agricultura.

O grande desafio, entretanto, é criar um produto saudável que seja acessível à população, sem preços exorbitantes. Como o próprio Airton Rubenich defende, o apoio econômico do governo é essencial para a competitividade dos produtos da agricultura familiar no mercado. Além disso, a comercialização dos alimentos torna-se um gargalo, uma vez que espera-se que além de cultivar os produtos, os agricultores saiam em busca de compradores — muitas vezes em momentos que seriam de descanso. Para participar das feiras orgânicas em Porto Alegre, por exemplo, eles precisam acordar na madrugada e só retornam para casa no final da tardem mesmo aos finais de semana.

Uma das maneiras de diminuir os custos foi a criação da agroindústria, uma série de equipamentos que garantem a autonomia da Coopan, capazes de transformar o arroz plantado no assentamento nos grãos embalados em plástico, vistos nas prateleiras de mercados e feirinhas. Mas o empreendimento só foi possível graças à cooperação, em função do custo do maquinário. Parte da nova geração, que já cresceu dentro do assentamento, Fernando Milibransa Bosa, 22 anos, é um dos responsáveis pela operação destas máquinas. Contente em aprender sobre os equipamentos, ele confessa que um dia pretende se aventurar pelo mundo fora da agrovila. “Dos nossos, nenhum tem faculdade, mas agora os nossos filhos podem ter”, comemora Romeu Bosa, que é primo do pai de Fernando, esperançoso sobre os novos filhos da terra.

Se é verdade que nas últimas décadas políticas públicas de incentivo à produção e consumo de alimentos orgânicos no Brasil avançaram, o momento atual parece ser de retrocesso. Pelo menos é que indica o Decreto Nº 9.759, assinado em abril pelo presidente Jair Bolsonaro, que ameaça extinguir as CPOrg (Comissões de Produção Orgânica) responsáveis pelo fomento e fiscalização de pequenos produtores – em medida que afeta também outros colegiados de participação social, provocando a criação do movimento O Brasil Precisa de Conselho“Daqui para frente, a luta vai ser maior”, prevê Romeu.

 

MST: da luta ao assentamento
Airton, Flávio e Romeu formam uma parceria que começou na luta pela terra.

O Estatuto da Terra, criado a partir da Lei 4504, de 30 de novembro de 1964 — um dos primeiros atos do governo ditatorial do general Castelo Branco, com o intuito de frear os movimentos campesinos — dispõe sobre a redistribuição das propriedades rurais, a partir de uma reforma agrária que desapropria áreas não-produtivas de grandes latifundiários, amparado também na “função social da propriedade” prevista na Constituição de 1988. Apesar do texto constitucional, o que se viu nos últimos 50 anos é que as ações do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) só são realizadas quando há pressão popular.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra teve origem nos anos 1980 para oferecer a oposição necessária aos grandes produtores e para pôr em prática uma reforma agrária justa, na qual os trabalhadores não fossem enviados para os confins do Brasil — visando a desarticulação do movimento ou por interesses de ocupar as fronteiras — , mas, sim, para propriedades irregulares com potencial de serem espaços produtivos.

Dos municípios gaúchos de Sarandi, Severino de Almeida e Ronda Alta, Airton Rubenich, Flavio Seller e Romeu Bosa, respectivamente, decidiram deixar suas casas para trás e se unir ao MST no final dos anos 1980. Em busca de oportunidades, solteiros e com 20 e poucos anos, eles não sabiam muito bem o que os esperava. “Saímos em uma aventura”, lembra Flávio, que defende que eles queriam algo “diferente”: seguir no campo, sim, mas com qualidade de vida e uma porção de terra para cultivar.

Por quatro anos, eles andaram por todo o Rio Grande do Sul, viveram juntos em acampamentos, foram perseguidos por fazendeiros e policiais. No dia a dia embaixo da lona, se reuniam para discutir os rumos da luta, as saídas para a agricultura familiar, o futuro na vida do campo. Em 1994, finalmente, conseguiram a posse do Assentamento Capella. “As propriedades é que são irregulares. A luta por elas, não”, argumenta Décio Machado Monteiro, servidor do Incra no Rio Grande do Sul.


Rio Grande do Sul é destaque na produção de arroz orgânico

Segundo dados do Irga (Instituto Rio Grandense do Arroz), o plantio de arroz orgânico no Rio Grande do Sul ocupa seis mil hectares, sendo 4,6 mil em assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O Irga, inclusive, reconhece o MST como maior produtor de arroz orgânico da América Latina. A produtividade média é de 100 sacas por hectare e o custo de produção é a metade na comparação com o cultivo que usa agroquímicos.

Para entender mais sobre a produção de arroz orgânico no Estado, o portal Humanista conversou com o engenheiro agrônomo André Oliveira, do Irga.

Qual a importância da produção de arroz orgânico para economia do Estado?

Embora a produtividade do arroz orgânico em termos quantitativos seja inferior ao do arroz não orgânico, a produção tem um impacto qualitativo importante. Tem um processo de produção que não utiliza fertilizantes sintéticos, ou seja, sem utilização de adubos altamente solúveis. Também não utiliza pesticidas.

Quais as diferenças entre o arroz orgânico e o arroz usual?

Nós tivemos um processo evolutivo desde os anos 1980, mas foi no início dos anos 2000 que a produção da lavoura de arroz orgânico disparou, principalmente pela adesão dos assentamentos rurais a essa modalidade. A vantagem é que não tendo a utilização de pesticidas, é possível cultivar hortaliças, por exemplo, na mesma paisagem da plantação de arroz. O custo de produção do arroz orgânico por hectare está em torno de mil reais. Na produção usual isso vai para 6 mil. E os rendimentos, por maiores que sejam, precisam ser compensadores. Já uma produção orgânica organizada consegue um rendimento médio mais atrativo. Temos uma dívida com a produção orgânica, porque são poucas as pesquisas na área. Há algumas iniciativas para melhorar a fertilidade do solo, para combater pragas etc., mas faltam pesquisas. Usamos variedades que já estão mercado adaptando para produção orgânica: arroz preto, vermelho, arroz de risoto. Ultimamente cresceu também a procura de farinha de arroz orgânico.

Quais são os maiores produtores de arroz orgânico? Por que o Rio Grande do Sul está entre eles?

Produzimos no estado desde 1983. A produção deu um salto com a aprendizagem que os assentamentos rurais tiveram. Com o apoio de políticas públicas, a produção cresceu. Quando falo isso, estou falando de reforma agrária. Isso aconteceu bastante na região metropolitana de Porto Alegre. Os assentamentos de Viamão, Nova Santa Rita, Eldorado… esses assentamentos tem solo de vocação arrozeira. No começo, muitos dos ruralistas assentados eram produtores de milho e não entendiam completamente o plantio do arroz. Isso gerou uma quebradeira inicial e, só depois, com as cooperativas e com alguns agricultores que já produziam bem, é que houve inciativas para qualificar esses produtores rurais assentados, aumentando a produção. Hoje, dos 6 mil hectares de cultivo, uns 4.500 estão dos assentados. E eles já tiveram uma área maior. Mas hoje é uma produção relevante. O movimento das feiras orgânicas explodiu. Até os mercados possuem esses produtos. Marcas como a Tio João já apresentam modelos orgânicos e integrais. Está crescendo muito. Antes havia um crescimento de nicho, agora temos um crescimento de segmento de mercado. As pessoas da cidade querem os orgânicos para o cuidado da sua saúde, principalmente depois dos 35 anos. Além disso, precisamos lembrar que a venda dos orgânicos é a renda dos assentados. Então, se no começo eles estavam debilitados, hoje, pelo contrário, cresceram muito. Em Viamão, por exemplo, onde existe plantio de arroz orgânico numa área de 1600 hectares também há uma área de preservação ambiental, que não era compatível com a produção de arroz usual, por conta dos químicos. Hoje exportamos arroz orgânico para o exterior, para o Canadá, por exemplo.


 

Uma alternativa saudável

Mas será que o arroz orgânico é uma boa opção para o dia a dia? A resposta dos especialistas é sim. A nutricionista Morgana Oliveira, formada pela UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre)explica que o alimento possui mais nutrientes que os tipos que possuem químicos em sua composição. O Humanista também conversou com ela para saber os benefícios do arroz orgânico para a saúde.  

Quais os benefícios do arroz orgânico para a saúde?

Todos os produtos orgânicos são mais interessantes por não terem pesticidas e fungicidas. Isso tem um ganho muito grande para saúde. Hoje o aumento de câncer e distúrbios hormonais está cada vez maior relacionados ao uso de agrotóxicos. Quando não se pode ter uma alimentação exclusivamente orgânica é importante dar preferência para os alimentos mais consumidos no dia a dia como o arroz. Às vezes as pessoas reclamam que orgânico é um pouco mais caro, mas é um investimento em saúde e uma economia que se faz na farmácia a longo prazo.

Que maus os agrotóxicos podem fazer para a saúde?

Os alimentos ricos em pesticidas e fungicidas são pobres em nutrientes e antioxidantes. Esses antioxidantes que irão prevenir e combater as doenças crônicas como a obesidade e o diabetes, além de prevenir a incidência de câncer. Os alimentos com agrotóxicos ficam pobres desses nutrientes e por isso aumenta a prevalência de doenças em pessoas que consomem alimentos muito ricos em agrotóxicos.

Há alguma dica de consumo diferente para o arroz orgânico?

Não. A diferença é que ele é muito mais saboroso. Uma dica que eu deixo é fazer o teste, não só com arroz, mas com outros produtos orgânicos também: ver o sabor. Experimentar um produto orgânico e outro não orgânico. Tenho certeza que você não vai mais querer consumir um produto não-orgânico porque o aroma, o sabor é imensamente melhor nos produtos orgânicos. 

Em que casos é mais recomendado uma alimentação orgânica?

Tem algumas situações clínicas que eu peço para o paciente priorizar uma alimentação 100% orgânica. Em gestantes, porque os não-orgânicos acabam interferindo na formação do feto e tem vários estudos comprovando o benefícios dos orgânicos para evitar doenças crônicas e alergias no bebê. Outro grupo de risco que é fundamental o consumo de orgânicos são os pacientes oncológicos, com câncer, com doenças crônicas como a diabetes.

O preço dos orgânicos acaba afastando muitos consumidores?

A indústria está interessada em lucro. Quanto mais pessoas optarem pelos orgânicos, mais a indústria vai se moldar para isso, e consequentemente os valores vão ficar mais acessíveis.

 


*Bibiana Davila é aluna da disciplina de Assessoria de Imprensa na Fabico/UFRGS, ministrada pelo professor Basílio Sartor, que acompanhou a vista à Coopan no dia 3 de junho de 2019.

FOTOS: Tábata Costa/Humanista-especial

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