Da sílaba ao texto ou aos descaminhos

Na coluna #OmbudsmanHumanista desta semana, Clóvis Malta ressalta que o jornalismo praticado pelo portal Humanista trata com eficiência de aspectos essenciais para a dignidade dos brasileiros, mas sugere alguns ajustes no tratamento dado a legendas em fotos e origem de dados em infográficos.

Clóvis Malta*

Comecei meu comentário de estreia como defensor dos leitores e público em geral no portal Humanista, da Fabico/UFRGS, tratando de sentimentos. Pouca coisa nos identifica mais como seres humanos do que sentimentos, e o jornalismo, principalmente o dedicado a questões relacionadas aos direitos das pessoas, precisa tê-los sempre como uma espécie de norte. É muito bom constatar que, de maneira quase generalizada, essa é uma preocupação constante nos conteúdos do portal.

Minha análise começa a partir da reportagem Da sílaba ao texto: em meio aos cortes na Educação, Brasil tem mais de 11 milhões de analfabetos, de Rene Almeida. O título me despertou o interesse para a leitura do material, que inclui também áudios e vídeos, tudo muito inspirador e original, editado com um alto grau de competência e sensibilidade. Os textos mais recentes levados em conta vão até Por que orgânicos? Humanista visita cooperativa que produz arroz sem agrotóxico, de Bibiana Davila, com a colaboração de Bárbara Lima e, também, de Rene Almeida. Entre um e outro trabalho, há muito jornalismo de qualidade, tratando com eficiência de aspectos essenciais para a dignidade dos brasileiros.

Há outros bons exemplos, mas De meninas a donas de casa: retratos da violência no casamento de crianças e adolescentes é, inegavelmente, um deles. Bárbara Lima, novamente, e Filipe Batista enfrentam um tema delicado com precisão, ao narrarem os descaminhos de quem se desvia da fase do aprendizado que vai da sílaba ao texto: os de meninas levadas ao casamento ainda em idade escolar. Educação, aliás, é também o tema da esmerada cobertura fotográfica das manifestações #15M e #30M, publicada em #FotoHumanista.

Surpreende e conforta a habilidade de estudantes de jornalismo no trato de aspectos sensíveis da condição humana, como a sexualidade – incluindo a rapidez em se corrigirem, quando necessário. Acontece e é comum, mas quando um texto troca “males” por “maus”, por exemplo, fica mais vulnerável. É importante levar em conta também que, com poucas exceções, fotografia pede legenda. Da mesma forma, embora seja elogiável a preocupação com o uso de elementos gráficos, esses recursos precisam ser compreendidos com facilidade, e devem incluir sempre a origem dos dados.

Aparentemente fáceis, entrevistas transcritas se mantêm como um desafio, pois precisam passar por um trabalho cuidadoso de edição e, muitas vezes, de síntese. Frequentemente, é necessário conciliar, sem margem para distorções, a espontaneidade da linguagem falada com a objetividade esperada de um texto escrito. É sempre importante ficar atento, também, para não passar a ideia de que números oficiais são definitivos ou incontestáveis. Finalmente, as publicações da capa do portal poderiam girar mais, principalmente no tópico Mais recentes. E já há matéria para inaugurar o link do tema Propriedade, não?

No conjunto, Humanista surpreende pela elevada qualidade dos conteúdos, incluindo os podcasts, que atraem audiência pela relevância das pautas. Da ameaça a um assentamento agroecológico pela Mina Guaíba às questões suscitadas pela deep web, incluindo os editoriais sobre educação e transporte, entre outros tantos trabalhos primorosos, os futuros jornalistas da Fabico têm revelado talento e destemor. Beleza, pois é por aí.

Em futuras contribuições, prometo ir mais ao detalhe. E é meio redundante, mas não custa reiterar: esse ombudsman, que divide suas atribuições com a colega jornalista Carla Dutra, estará sempre aberto a comentários e críticas.

 


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*Clóvis Malta é jornalista formado pela Fabico/UFRGS e tem 45 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como Diário de Notícias, Folha da Manhã, Revista Amanhã e Zero Hora (onde atuava como editorialista). Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: clovismalta@gmail.com.

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