Humanista

Bola em jogo: O espaço da comunidade LGBT+ no futebol

De torcidas a campeonatos e times inclusivos, grupo encontra espaço para ser visto e respeitado dentro do esporte mais popular do país

Ana Carolina Parise

O futebol é o esporte mais popular do Brasil. Ainda assim, a categoria exclui uma grande parcela da população quando o assunto é jogar, e até, torcer: a comunidade LGBT+. Até agora, 2019, não há nenhum jogador de renome nacional que seja assumidamente gay. Além disso, gritos homofóbicos, canções preconceituosas e piadas de cunho sexual fazem parte da realidade do esporte dentro e fora dos estádios. Diante deste cenário, as pessoas que fazem parte deste grupo encontram formas de se incluir dentro do universo do futebol por meio de torcidas organizadas, campeonatos exclusivos LGBT+ e times inclusivos.

 

Futebol, um esporte para todxs

A exclusão e o silenciamento no ambiente futebolístico já ecoaram em alguns casos conhecidos mundialmente. Dois grandes exemplos são o de Justin Fashanu, o primeiro jogador britânico a se assumir publicamente homossexual e que cometeu suicídio em 1998, e, mais recentemente, do alemão Thomaz Hitzlsperger, que se afirmou gay em 2014. No Brasil, o caso mais emblemático é o do paulista Richarlyson, que teve de ir a público se declarar heterossexual depois de sofrer diversos ataques homofóbicos por sua suposta homossexualidade.

Como saída para essa exclusão, a população LGBT+ tem realizado campeonatos próprios para incentivar a prática profissional do esporte, e mostrar que orientação sexual e identidade de gênero não determinam talento.

A segunda edição da Copa Internacional de Futsal LGBT de Gramado ocorreu nos dias 8 e 9 de junho de 2019.
Foto: Carlos Henz/Divulgação

Criada em 2017, a Champions Ligay é uma liga amadora de futebol masculino voltada para a comunidade LGBT+ brasileira. O torneio, organizado pela LGNF (Ligay Nacional de Futebol Society do Brasil), reúne equipes de todo o país, e é classificatório para a Copa do Mundo de Futebol Gay.

O presidente da Ligay Nacional de Futebol Society do Brasil da região Sul, Carlos Renan Evaldt, conta que o campeonato é para todos, e tem o propósito de desmistificar e quebrar os estereótipos que a comunidade LGBT+ carrega historicamente. Chegando à sua quarta edição em 2019, Renan conta que, a cada ano, o campeonato vem ganhando maior visibilidade e engajamento do público de fora da comunidade. Em 2018, o campeonato foi realizado em Porto Alegre, e Renan conta que ficou emocionado com a boa receptividade que o evento recebeu, o que os fez serem reconhecidos. “Por incrível que pareça, as pessoas aplaudiam, foi bem emocionante ver o público que foi assistir os jogos, curiosas para verem como era, foi bem interessante.”

Vídeo mostra decisão da 2ª Champions Ligay deste ano em Porto Alegre

Atraindo cada vez mais times interessados em participar, o evento não visa ao lucro e é independente, contando com parcerias e patrocínios para bancar algumas partes dos custos de promover um evento de tamanha proporção. Renan aponta que, além de promover a inclusão da comunidade no esporte, o campeonato também visa a mostrar ao público que o esporte LGBT é investimento. “A forma que eu amo não pode ser determinante”, pontua o presidente da LGNF.

Além da Champions Ligay, outro campeonato com o mesmo propósito vem crescendo no interior do Rio Grande do Sul. É a Copa Internacional de Futsal LGBT de Gramado, que neste ano chegou à segunda edição. Flávio Prestes, um dos organizadores do evento, conta que o foco da Copa é trabalhar a inclusão por meio do esporte sem preconceito.

A criação da Copa Internacional de Futsal LGBT de Gramado foi uma iniciativa do time Quero Quero, primeira equipe inclusiva da Serra Gaúcha.
Foto: Carlos Henz/Divulgação.

Segundo Flávio, a primeira edição, realizada em junho de 2018, teve participação tímida do público de fora da comunidade. Ele acredita que, o fato de ser em uma cidade pequena de colonização italiana e alemã, ainda estão enraizadas visões estereotipadas e preconceituosas em torno da população LGBT+. “É um trabalho de longo prazo para atrair mais público, queremos quebrar paradigmas e fazer um trabalho pioneiro na região”, pontua. Além disso, o organizador conta que o campeonato é alvo de ataques homofóbicos nas redes sociais, muitas vezes de pessoas que nem conhecem o real propósito do evento. “As pessoas acham que não pode, não deve e não querem que aconteça, então tem muita resistência”, diz.

Da mesma forma que a Champions Ligay, a Copa Internacional de Gramado também conta com parceiros e patrocínios para acontecer. Focando além do esporte e carregando uma questão social, a Copa contou com times masculinos e femininos inscritos na última edição, tornando-se acolhedora para quem se sente de fora da realidade do esporte tradicional, historicamente construído por uma ótica machista e homofóbica. “Gays deixam de jogar futebol porque não se sentem inseridos, já com os campeonatos se sentem incluídos em um ambiente que é deles”, afirma Flávio. “Qualquer pessoa pode jogar, essa é a ideia da inclusão, tu abrir pra todo mundo e não segregar ninguém”, finaliza.

 

O caso do Magia Sport Club: uma grande família 
Magia Sport Club o é primeiro time LGBT+ do Rio Grande do Sul. Foto: Walter Rosa/Divulgação

 

Atualmente, existem seis times inclusivos no Rio Grande do Sul: Magia, Maragatos, PampaCats, Flamingos, Ximangos e Quero Quero.

O Magia Sport Club é a primeira equipe LGBT+ do Estado. Criada em 2005, é exemplo da iniciativa que busca a inclusão por meio do esporte. No início, o Magia não tinha ativismo, mas depois de entrarem oficialmente para a Ligay, o time adquiriu o propósito de mostrar para o mundo que o esporte é para todos, independentemente da sua condição ou gênero. Hoje são 230 pessoas envolvidas com a equipe, divididas em seis modalidades: futebol masculino, futebol feminino, vôlei aberto, vôlei de competição, handebol e jiu-jitsu; as quais disputam campeonatos regionais, nacionais e até internacionais.

Carlos Renan Evaldt, presidente do Magia Sport Club há três anos, conta que a equipe acolhe a todos que procuram, sem importar raça, sexo, gênero ou condições físicas. “Os estereótipos não são levados em conta nas modalidades”, diz Renan, que participa do grupo há mais de seis anos. Os times recebem desde pessoas que não sabem jogar, mas querem aprender, as que só querem praticar como hobby, até aquelas que querem participar para competir. Segundo o presidente, há espaço para todo mundo, pois o Magia “é uma grande família”.

A equipe também é considerada um projeto social, que abraça pessoas que enfrentam momentos de fragilidade, como LGBTfobia, expulsão de casa e até desemprego. “O Magia se tornou um projeto social que agrega todas as tribos”, explica Renan. O clube também participa de atividades em escolas públicas e privadas, onde, por meio do esporte, aborda questões como bullying, preconceito e inclusão. Por conta de todas essas propostas, o Magia ganhou relevância nas comunidades, e não apenas na LGBT+, mas também na sociedade como um todo.

Time masculino do Magia treina duas vezes por semana nas quadras do Mundo dos Esportes

“A gente queria jogar com homens”. Essa é uma das diversas frases LGBTfóbicas que o time de futebol masculino do Magia já ouviu. Sendo o primeiro time LGBT+ do Estado, o clube proporcionou uma abertura para mostrar que pessoas pertencentes à comunidade podem jogar futebol de qualidade, de forma não caricata em um ambiente sadio. “Desmistifica essa coisa de que futebol é só para hétero, macho alfa”, diz Renan. Além disso, a equipe tenta apresentar à sociedade uma proposta diferente, para tirar a população LGBT+ dos guetos e acabar com os julgamentos embasados em estereótipos. “Minha condição física é a mesma que a de um hétero”, aponta o presidente. Ele complementa:  “Estamos fazendo um empoderamento de dizer: sim, eu posso”.

Sergio Cunha, conhecido como Serginho, é um grande fã do Magia. Com 68 anos, o cabeleireiro conta que encontrar o grupo foi tudo de bom em sua vida, e acredita que a equipe é fôlego a mais para acabar com os estereótipos que são tão intrínsecos à comunidade LGBT+. “O Magia veio salvar tudo isso, mostrar para o mundo que a gente pode participar sim, por que não? É tudo questão de respeito, o fato de ser gay não muda nada”, acredita.

 

Bandeira com as cores do arco-íris acompanha equipe da Capital. Foto: Magia Sport Club/Divulgação

Hoje, o time de futebol do Magia é o que mais atrai visibilidade para o clube. E por lá, o Fair Play (jogo limpo) é levado a sério.

Para o presidente, o movimento de se consolidar dentro do esporte como LGBT+ tem data marcada para acabar: “As pessoas vão entender que esporte é esporte”. “Acredito que daqui a 10 anos não vai ter necessidade de a gente ter esse movimento de afirmação que temos hoje”, completa. Mas, enquanto esse dia ainda não chega, o intuito é mostrar que, segundo Renan, “pode ser diferente, que existe algo além do arco-íris.”

 

Olê, olê, olá! Existir, resistir e torcer

O Rio Grande do Sul tem como maiores representantes do futebol gaúcho o Internacional e o Grêmio. De um lado, “vamos ganhar lá dentro do chiqueiro, e que se fodam os putos do gaymio”, do outro, “macacada filha da puta, chupa rola e dá o cu”. A cada jogo, essas e outras canções repletas de LGBTfobia ecoam nos quatro cantos dos estádios lotados de cada time.

Recentemente, uma movimentação diferente chamou a atenção da torcida do Internacional. No dia 22 de abril, por meio da rede social Twitter, um grupo de torcedores anunciou a criação de uma torcida LGBT colorada, com o objetivo de garantir um lugar seguro e inclusivo para que essa população possa apoiar o time dentro do Beira-Rio.

Torcedores LGBTs do Inter se organizam para criar uma torcida própria. Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Em entrevista concedida à GaúchaZH, o estudante de Letras Thiago Vargas, idealizador e porta-voz do projeto, conta como surgiu a proposta. “Eu já tinha a ideia há bastante tempo. Sempre pensei que seria legal se existisse algo no estilo da Coligay (torcida LGBT+ do Grêmio, já extinta) no Inter. Então, em uma conversa no Twitter com o Tafael (Medeiros, jornalista colorado), ele me perguntou por que eu não fazia se tinha vontade. Então, me dei conta de que se eu não fizesse, ninguém iria fazer”, explicou Thiago ao veículo.

Criação da torcida foi anunciada no Twitter

 

Porém, a iniciativa não foi tão bem recebida pelo restante da torcida do clube. O grupo  recebeu diversas reações deslegitimadoras e ameaças no ambiente virtual, evidenciando a LGBTfobia enraizada na categoria. Apesar disso, Thiago afirmou à GaúchaZH que o grupo não pretende recuar: “Estamos focando para dar certo, sabemos que realmente é algo necessário”.

 

Para Vittoria, uma torcida LGBT+ é fundamental no Inter. Foto: Arquivo pessoal

 

Vittoria Ben, estudante de Publicidade e Propaganda na UFRGS e torcedora do Internacional, acredita que a torcida LGBT do time enfrentará desafios em um primeiro momento. “Tudo que foge da heteronormatividade e do domínio masculino no futebol causa estranhamento, e as pessoas ficam incomodadas”, aponta a estudante. No entanto, ela reforça a importância de ter uma torcida LGBT+ do Colorado: “Tornar palpável, olha o tanto de pessoas que são LGBT que também torcem para o Inter e que não querem ser violentadas, que querem ser respeitadas ali no estádio que é a segunda casa de todo torcedor.”

Para Vittoria, a mais nova torcida precisa se organizar internamente e conversar com as outras já consolidadas que apoiam as pautas da comunidade LGBT+, para que, dessa forma, a presença desse grupo se torne cada vez mais aceita dentro dos estádios.

 

Gays e gremistas: as marcas da Coligay 
Torcida gremista era vista como um símbolo de resistência no esporte. Foto: Ricardo Chaves

A iniciativa de criar uma torcida organizada exclusivamente para pessoas LGBT+ no futebol brasileiro não é novidade. No final da década de 1970, surgia a pioneira e a que revolucionaria, a sua maneira, o torcedor brasileiro: a Coligay do Grêmio. Vista como um símbolo de resistência no esporte, a torcida fundada por Volmar Santos, surgiu em plena época da ditadura militar no país, quando havia forte repressão por parte do Estado. Independente disso, a torcida, integrada exclusivamente por pessoas LGBT+, animou e foi considerada “pé quente” para o time durante seus seis anos de existência. O cabeleireiro Serginho participou ativamente da Coligay, e garante que o grupo, que tinha foco total em torcer para o Grêmio, era muito respeitado na época.

 

Em 2014, foi lançado o livro Coligay: Tricolor e De Todas as Cores, do jornalista Léo Gerchmann. Na obra, relata a história e o pioneirismo da torcida no futebol gaúcho e nacional. Conectado a questões como diversidade e segregacionismo, Léo conta que escrever a obra o fez ter uma noção muito maior do que é a homofobia.

“Torcida sadia, essa é a palavra que resume a Coligay”, afirma o jornalista. Segundo ele, o grupo dava apoio incondicional ao time, havia um lado maternal na relação dos dois, e por conta disso a Coligay é tão reconhecida e valorizada até hoje. Para Léo, “a Coligay provocou grandes transformações nos estádios e até na sociedade”, e na visão dele, até o momento, ela nunca se repetiu. A Coligay acabou por um motivo trivial: Volmar, um dos criadores, precisou voltar para Passo Fundo por motivos pessoais, o que levou a torcida a seu fim definitivo em 1983.

 

A Coligay inspirou e inspira até hoje, e não apenas a comunidade LGBT+, mas todos os tipos de minorias dentro dos estádios, como as mulheres, a se movimentarem e conquistarem o seu espaço como torcedor. “Tem um valor imensurável até hoje, e o livro é importante para manter a mensagem da Coligay”, pontua Léo. “Eu tenho honra de ter participado dessa grande torcida”, diz Serginho, que continua sendo torcedor fanático do Grêmio.

Torcida surgiu durante a ditadura militar no Brasil. Foto: Ricardo Chaves

 

Apesar de, atualmente, a comunidade LGBT+ ter mais visibilidade e voz para conquistar seus espaços, o futebol ainda não é um ambiente acolhedor para essa população, avalia o jornalista. “Onde tá escrito que gay não pode jogar futebol?”, pontua Serginho, que acredita que hoje, talvez, o clima seja ainda mais hostil do que em 77. No entanto, fica a esperança pela mudança e pelo fim do preconceito. A luta segue.

 


Como participar

Para ingressar nas equipes do Magia Sport Club, é preciso se inscrever por meio das redes sociais do clube no Facebook e Instagram.


 

FOTO DE CAPA: Click Certo Fotografia/divulgação

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