Tinta Bruta torna a produção nacional mais colorida

No Dia do Cinema Brasileiro estreia o #CríticaHumanista, espaço criado para a reflexão sobre produções culturais que promovem os direitos humanos. 

Yuri Correa* / #CríticaHumanista

Quando estreou em 2015, o longa-metragem gaúcho Beira-Mar me chamou a atenção não só pelo olhar delicado com que abordou a paixão embrionária entre os meninos Tomaz e Martin, mas principalmente pela naturalidade com que o filme construía essa relação. Enquanto a maior parte das produções focadas na temática LGBT ainda se debate para contar as velhas (e necessárias) histórias sobre preconceito, bullying, aceitação e a luta por direitos, o projeto de estreia dos diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon atua em outra frente: naturalizar as relações LGBT.

No mês que marca o dia do Orgulho LGBT, o STF (Superior Tribunal Federal) decidiu pela maioria de votos criminalizar a homofobia. Um passo atrasado e, ainda assim, importante na jornada de conquistas dessa chamada “minoria social”, a medida do STF não é para ser comemorada. Se ela se fez necessária é porque, anualmente, pesquisas feitas por ONGs como o GGB (Grupo Gay da Bahia) apontam que centenas de LGBTs são assassinados todos os anos no Brasil. Segundo dados do CGB, foram 420 casos apenas em 2018 – e existe mais uma parcela preocupante do número de suicídios no país que está ligada à orientação sexual das vítimas.

Portanto, fica óbvia a necessidade das mídias continuarem abordando as temáticas LGBTs em forma de denúncia à violência sofrida por esses grupos. Por outro lado, também é de um vanguardismo bem-vindo retratar a lésbica, o gay, os bissexuais e os transexuais fora desses cenários clichês, trazendo-os para ocupar espaços normalmente reservados aos heterossexuais e cisgêneros. Através da sua curta e impressionante carreira até aqui, Filipe e Marcio têm demonstrado interesse particular nesse recorte. Desde que lançaram Beira-Mar, trouxeram olhares semelhantes de sensibilidade no curta O Último Dia antes de Zanzibar (2016), na minissérie O Ninho (2016) e, agora, no recente e mundialmente premiado Tinta Bruta (2018).


No centro da trama desse último projeto está Pedro (Shico Menegat), um jovem introspectivo com certa fobia de aparecer em público, a não ser, claro, quando está performando como o Garoto Neon. Utilizando tintas fluorescentes, Pedro dança e pinta o próprio corpo sob a luz negra em frente à câmera de seu laptop para espectadores anônimos na internet – e alguns, inclusive, pagam por shows particulares. Entretanto, seu ganha-pão fica em risco quando ele descobre que outro homem está copiando a sua performance, o que o leva a confrontar e conhecer Leo (Bruno Fernandes).

Nessa abordagem, o trabalho de Shico Menegat é essencial quando compõe o protagonista como alguém cuja postura já denuncia sua personalidade fechada. Os braços colados ao corpo, a cabeça inclinada e os ombros curvados para frente se combinam aos cabelos que, normalmente quando em público, protegem que o rosto e, principalmente, os olhos de Pedro encontrem os dos demais transeuntes. Filipe e Marcio potencializam essa angústia do personagem e a transmitem ao espectador através de planos subjetivos que mostram pessoas encarando-o e, presumivelmente, julgando sua aparência introvertida e um tanto arisca.

Porém, os méritos narrativos de Tinta Bruta vão ainda além. Os diretores (que também são os roteiristas de seus projetos) constroem uma metrópole que consegue a proeza de ser sufocante e abarrotada de olhares hostis, ainda que também soe vazia e desesperadoramente solitária. Mais de uma vez, Filipe e Marcio enfocam as muralhas de prédios que cercam Pedro pelas ruas, com suas janelas que exibem apenas as silhuetas de moradores observando as ruas abaixo, como num pesadelo Kafkiano onde todos são testemunhas de um problema que não estão dispostos a resolver.

E solidão é uma palavra-chave para conseguir entender a essência desse longa-metragem. Enquanto tenta adquirir alguma identidade sob às tintas luminosas de sua persona artística, Pedro também tem que lidar com um processo judicial que o expulsou de uma faculdade, depois que o jovem reagiu impulsiva e violentamente a uma provocação. Sob a pele tingida de neon, o protagonista guarda não apenas a melancolia da solidão (para piorar, ao começo do filme, a irmã Luiza se muda, deixando-o para morar sozinho), mas uma revolta eruptiva cuja força se somou, como fica muito bem insinuado, de anos de repressão e pequenas provocações (que não deixam de ser violências) como aquela que o levou ao ato pelo qual está sendo julgado.

Por isso se faz tão adequada a atmosfera concebida por Filipe e Marcio, pois assim como em O Processo ou A Metamorfose, de Kafka, o protagonista parece estar sendo constantemente julgado por um sistema e pessoas que nem ele consegue compreender, e em que os próprios são também parte do suposto crime cometido. Afinal, qual a violência mais brutal, aquela que se desfere num golpe só ou aquela que, por anos, penetra na pele e deixa uma enorme cicatriz, como a ponta de uma chave de metal rasgando o rosto de alguém?

O papel de Tinta Bruta é somar às vozes que têm falado cada vez mais alto sobre as reivindicações da comunidade LGBT. Há pouco mais de dois anos, um filme com essa temática e protagonizado e produzido por pessoas negras venceu o Oscar de Melhor Filme, e ainda no ano passado, outra levou outro desses troféus da Academia para casa (Me Chame pelo Seu Nome). Tinta Bruta trilhou um caminho admirável, no Festival de Berlim 2018, um dos maiores e mais tradicionais do mundo, venceu o Teddy de Melhor Filme, troféu dedicado às produções LGBT. Devido ao reconhecimento, Filipe e Marcio fizeram parte do júri da Queer Palm na última edição do Festival do Cannes – a mostra também é dedicada ao cinema com essas temáticas.

Talentos comprovados como o da dupla de realizadores gaúchos demonstram não só a pluralidade e a competência do cinema nacional (tão questionada pela opinião pública), como também acrescentam à produção mundial de narrativas que contribuem para a conscientização e para a naturalização de “minorias”. Tinta Bruta é apenas o exemplo mais recente e mais próximo que temos em mãos. Nesse caso, o Orgulho não se refere apenas á sigla LGBT, e se estende para os nossos conterrâneos e o trabalho de ponta que vêm realizando.


*Yuri Correa é repórter do Humanista e crítico de cinema com formação em produção audiovisual pela PUCRS.

FOTO: reprodução

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