Em 20 anos, será uma catástrofe, alerta pesquisador sobre Mina Guaíba; ouça

Professor e pesquisador Rualdo Menegat repercute a audiência pública realizada no final de junho para avaliar consequências do projeto de mineração para Porto Alegre e região metropolitana.

Camila Souza / #EntrevistaHumanista

Quando o Humanista visitou o assentamento agroecológico Apolônio de Carvalho, em Eldorado do Sul (RS), no início de 2019, entre uma conversa e outra, um agricultor parecia decidido a fazer o possível para evitar a remoção das 72 famílias que vivem no local. “Estamos aqui para manifestar a indignação de mais de 400 famílias”, é a frase que utilizou Valcir de Oliveira ao cumprir parte da promessa, dessa vez referindo-se também às famílias atingidas pelo projeto Mina Guaíba nos arredores. Foi durante audiência pública realizada no dia 27 de junho.

Proposto pela mineradora Copelmi, o polêmico empreendimento que visa a minerar carvão a céu aberto, a 20 quilômetros de Porto Alegre, aguarda concessão de licença pela Fepam/RS (Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler) e mobiliza comunidade local e ambientalistas, que denunciam não só as consequências para o meio ambiente, mas também para a agricultura familiar e até para a saúde pública.

E não é para menos, alerta o professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), cuja avaliação é a de que o projeto causa danos irreversíveis à fauna, à flora e à água potável que abastece a Capital e a região metropolitana:


Coordenador do Atlas Ambiental de Porto Alegre, Menegat conhece como poucos o meio ambiente que cerca a metrópole dos gaúchos. Ouvido pelo #EntrevistaHumanista, o professor é enfático ao defender a necessidade de um amplo debate sobre o tema, passando pela realização de uma audiência pública também em Porto Alegre. Segundo ele, serão 166 milhões de toneladas de carvão, ao longo de 23 anos, o que justifica toda a ponderação possível antes que uma decisão definitiva seja tomada.


Professor Rualdo Menegat. Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

O que significa minerar carvão? Na audiência, a empresa argumentou que é um processo seguro, sem riscos ambientais.

A extração de carvão não é uma operação mecânica, em que somente se corta o subsolo e se extrai um volume de rochas, que são trituradas e beneficiadas. O carvão é um composto químico altamente reativo. Assim que é extraído do subsolo à superfície, reage com o oxigênio e a água, produzindo drenagem ácida. Isso porque contém uma enorme quantidade de enxofre. No caso do Mina Guaíba, pretendem extrair 166 milhões de toneladas de carvão, cada tonelada com 1,5% de enxofre. Isso resulta em uma quantidade de 2,4 milhões de toneladas dessa substância trazidas à superfície. Dada a reatividade do enxofre com o oxigênio e a água, será produzida drenagem ácida. Metais pesados, próximos ao carvão, como mercúrio, cádmio, chumbo e arsênio serão transportados. É literalmente um lixão químico. A geoquímica de uma mina de carvão é de difícil controle, porque a mina será a céu aberto. Não é uma indústria em que tu podes analisar toda a quantidade de água perdida. Está sujeita, portanto, a intempéries que podem ter impacto nos próximos 20 anos, aumentando a pluviosidade ao longo desse tempo. O controle da água e da drenagem ácida não será um tema fácil e o estudo de impacto ambiental apresentado pelo minerador não garante o controle disso, o que nos leva a supor que a água será descarregada no Jacuí a exatamente 20 quilômetros de Porto Alegre. A água terá uma quantidade enorme de metais pesados e poluentes, chegando às residências e promovendo a contaminação.


E quais as consequências à qualidade de vida?

O organismo vivo – humanos, pássaros, vegetais – retém metais pesados, que se acumulam e ocasionam infecções e problemas de saúde. Nos debates realizados, o minerador não conseguiu demonstrar algo diferente disso, pois o controle da drenagem ácida exige a presença de barreiras geoquímicas, o que o EIA/Rima [Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental, exigidos pela Fepamnão contempla. A conclusão, então, é de que os rejeitos continuarão produzindo drenagem ácida. No final, teremos um tanque ácido vazando essa drenagem até o lençol freático que alcança o Parque do Delta do Jacuí. Em vez do parque ecológico, haverá a retenção de metais pesados. A água do Jacuí inunda várias plantações de arroz na redondeza, que serão afetadas. O arroz é um absorvedor de cádmio e ficará contaminado por essa substância. Os órgãos do seres vivos absorverão os metais pesados: basta uma pequena dose para entrarem em disfunção. Em 23 anos, será uma catástrofe.


Durante a audiência, a Copelmi usou a mineração feita pela empresa na região de Butiá (RS) como bom exemplo. Qual a sua avaliação? 

Não há mina de carvão limpa no mundo. Se a mina de Butiá fosse exemplo, a Copelmi não estaria pagando multa à Fepam por crime ambiental. É uma conversa de marketing que deve ser analisada com cuidado, já que não corresponde à realidade da mineração no mundo. Os problemas de saúde em Butiá e em Arroio dos Ratos [também no RS] são inúmeros. Ambos sofreram migração significativa após a mineração, pois as pessoas saíram de seus municípios porque a vida se tornou impraticável. Essa história de fazer a cava de mineração e, depois, colocar um gramado com vaquinhas em cima e dizer que tudo está resolvido é esconder um problema debaixo do tapete. A cava e os rejeitos do carvão continuam reagindo e produzindo um tanque ácido. No caso do Mina Guaíba, o minerador afirma que o siltito será o material do piso onde o rejeito será colocado por cima,  mas esse siltito não garante a impermeabilização, então obviamente a drenagem ácida vazará. O que o projeto propõe é o uso dessa rocha como impermeabilizante. Porém, o material não contempla essa propriedade. Além disso, não preveem outros mecanismos de controle da drenagem ácida. Não há garantia alguma. 


Esses fatores justificam a ampla oposição da comunidade e de grupos ambientalistas?

A mina de carvão não vai se estabelecer em um lugar vazio. Existem várias comunidades, inclusive a de arroz orgânico, que abastece a população com alimentação de qualidade. As regiões metropolitanas, em todos os locais modernos, têm como planejamento do seu território incluir cinturões verdes às suas áreas, para que a cidade possa consumir produtos agrícolas produzidos perto dela. As cidades precisam produzir alimentos. Isso é muito importante porque baixamos os preços de produtos que vêm de muito longe, e os cidadãos podem ter controle do que consomem. A mina vai, de fato, rebaixar o lençol freático (cerca de 100m), causando impacto até 15 quilômetros além do perímetro, atingindo a margem do Guaíba e do Jacuí. Esses fatores fazem com que a população rejeite um projeto de grande impacto, além do transtorno que a detonação por explosivos causará diariamente. Além disso, há o problema na atmosfera. A extração do carvão, que deverá ser separado da rocha através de lavagem, será colocada em uma enorme pilha, com um cone de 10m de altura e tamanho de 2mm, muito fino, de modo que qualquer vento será capaz de removê-lo, chegando na atmosfera e formando poeira. Essa poeira origina o fenômeno da chuva ácida, afetando automóveis, residências e deteriorando a qualidade de vida de 4,6 milhões de pessoas. Todos os moradores da região da Mina sabem desses efeitos e seguramente devem se mobilizar, porque os impactos na saúde são imediatos. 


E a questão dos empregos? Justifica um empreendimento dessa magnitude?

O empreendimento se baseia na criação de empregos e possível desenvolvimento. Contudo, o ambiente degradado, localizado no coração da região metropolitana, irá gerar uma deterioração. As pessoas ficarão doentes. A mina de carvão representa o oposto, pois retira a atratividade para um conjunto de serviços que são fundamentais, como o turismo. Ninguém quer ver a mineração em um local caracterizado pela presença de sítios belíssimos e áreas de preservação ambiental. Teremos, caso haja concessão da licença de instalação, uma enorme área degradada e de difícil recuperação.


Quais as alternativas, então, para a preservação da área?

Com a mina, serão destruídos dois arroios superficiais: o Arroio Jacaré e o Pesqueiros. Ademais, a paisagem mudará significativamente, com a destruição do aquífero encontrado na região em que se deseja operar a mina. Esse local tem uma caixa de meio volume de água do Guaíba, limpa e cristalina, que poderia ser usada como uma reserva de emergência. Podemos ser inteligentes e guardar essa água, como uma reserva estratégica que não temos, e, ao mesmo tempo, cuidar desse lugar como um local de turismo sustentável, de atividade agrícola orgânica, que será uma preciosidade sem fim. A troco de que vamos colocar em risco a cidade de Porto Alegre?  O colapso do abastecimento de água significaria o colapso de Porto Alegre e, portanto, da região metropolitana. É razoável um empreendimento que coloque em risco milhões de pessoas? É isso que queremos como futuro? Que sociedade é essa? Por que as autoridades não estão agindo? Qual o argumento que coloca em risco o ambiente, a saúde das pessoas e o abastecimento de água?


Qual a sua avaliação sobre a decisão que a Fepam deve tomar? A tendência é que conceda a licença?

Não há garantias no estudo de impacto de que haja controle dessa complexidade. Associa-se a isso a dificuldade de governança de um empreendimento de alto impacto, afinal, são 166 milhões de toneladas de carvão que nunca existiram em nosso solo. Se não há capacidade de governança nem ao ordinário, imagina ao extraordinário? O Estado está com toda sua capacidade fiscalizatória sucateada. Como querem que se dê conta de uma mega mineração se não temos capacidade de controle? A sociedade não tem como monitorar esse empreendimento, que possui várias inconsistências técnicas em seu estudo de impacto ambiental. Aprovar o projeto é se sujeitar a uma aventura, é jogar no escuro.


 

Audiência Pública é marcada por tensão 
Comunidade e ambientalistas manifestaram contrariedade ao projeto Mina Guaíba. Foto: Maiara Rauber/MST

Charqueadas sediou o primeiro encontro para discutir o Mina Guaíba, em março. A Fepam exigiu um novo debate, atendendo à solicitação do MPE (Ministério Público Estadual) e do MPF (Ministério Público Federal), ocorrido na última quinta-feira, 27. Diferentemente da primeira audiência, a segunda teve grande adesão da população. Além de serem introduzidos os dados coletados no EIA/Rima (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental), setores da sociedade manifestaram pontos de vista majoritariamente contrários, expostos por meio de questionamentos que ressaltaram os efeitos negativos.

O clima foi de tensão: em diversos momentos, moradores dos municípios possivelmente afetados se exaltaram, alegando que o projeto destruiria o meio ambiente, representando um risco a todos os moradores do Rio Grande do Sul. Quando Cristiano Weber, gerente de sustentabilidade da Copelmi, tentou responder às contestações, vaias ecoavam pelo ginásio lotado em Eldorado do Sul. As manifestações favoráveis surgiam tímidas, em meio à blocos de contrárias. 

A novidade foi mesmo a apresentação do EIA/Rima, com tempo reservado para que a sociedade pudesse expressar sua opinião. Uma das principais consequências do empreendimento é a realocação do assentamento Apolônio de Carvalho, onde os moradores cultivam arroz orgânico a partir da agricultura ecológica.


 

FOTO DE CAPA: Maiara Rauber/MST

2 comentários em “Em 20 anos, será uma catástrofe, alerta pesquisador sobre Mina Guaíba; ouça

  • 3 de julho de 2019 em 21:00
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    – Este projeto é criminoso
    – Destrói o Delta do Jacui
    – Desaloja agricultores e vizinhos perto da Mina
    – Polui o Rio Jacui e Lago Guaíba
    – Termina com o silêncio e com a natureza do Delta
    – Compromete as lavouras de arroz que utilizam água do Jacui
    – Favorece a formação de chuva ácida
    – Compromete a potabilidade das águas
    – Atinge com metais pesados os animais e peixes
    – Polui o ar que respiramos com partículas danosas a saúde

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  • 4 de julho de 2019 em 23:03
    Permalink

    Muitas vezes fui ao médico procurar por alguma coisa que me aliviasse de doenças, mas nunca tinha uma idéia de como o ambiente pode estar me afetando. Importante sabermos das origens das coisas.

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