O limite nem sempre preciso entre notícia e opinião

“[…] há também casos em que os repórteres se colocam, ou assumem como sendo suas, sem aspas, palavras e afirmações nem sempre muito precisas ou adequadas do entrevistado”, avalia ombudsman sobre produções de junho.

Clóvis Malta*

O vídeo institucional do Humanista traduz muito bem a garra desse pessoal que aproveita a oportunidade de ter um ambiente inspirador de redação na Fabico/UFRGS para produzir conteúdo jornalístico de altíssima qualidade. Num mês de abalo nos alicerces da mídia brasileira, com o impacto político da divulgação do conteúdo da #Vazajato pelo The Intercept Brasil, de manifestações pela diversidade e contrárias à reforma da Previdência, de união de torcidas futebolísticas rivais em favor de vítimas do frio, esses e outros temas foram devidamente contemplados na pauta, com a agilidade e a criatividade de verdadeiros profissionais.

Muito adequado o debate sobre a #Vazajato em podcast. Muito correto o acompanhamento da questão LGBT+, que inclui a exemplar reportagem sobre o tema no futebol, a #ExplicaçãoHumanista sobre divisões no movimento e o colorido levado para as redes sociais do portal. Os estudantes da Fabico tratam das duas questões sob o ponto de vista da informação e posicionando-se em editoriais – #VazaJato e Orgulho LGBT+. O conhecimento e o preparo dos alunos ficam evidentes no debate sobre os múltiplos aspectos envolvidos no vazamento de conversas virtuais entre integrantes da Lava-Jato, inclusive sob o ponto de vista dos Direitos Humanos, que é o foco do portal.

A influência de Glenn Greenwald sobre estudantes da área, inevitavelmente, tende a se ampliar ainda mais a partir de agora. Ousado e polêmico, o profissional norte-americano inova no texto, pela sua vasta experiência e reconhecimento tanto como jornalista investigativo quanto como colunista de opinião, mas também na forma como consegue compartilhar a apuração de um mesmo tema com diferentes veículos de mídia que encaram as informações disponíveis como de interesse público.

Estudantes de jornalismo têm que se preparar para todo tipo de texto – do mais objetivo ao opinativo, passando pelos de análise e comentários, entre outros gêneros. Particularmente quem está começando, porém, não pode se esquecer de deixar sempre claro para o leitor o que é fato e o que é opinião – ou, algumas vezes, como se costuma brincar a sério em redações, desejo.

O material de junho do Humanista traz farto material baseado acima de tudo em dados e informações. É o caso, entre tantos outros, dos textos sobre aborto, diversidade e futebol feminino, do que retoma o assunto mina de carvão e do primeiro #EnsaioHumanista. Mas há também casos em que os repórteres se colocam, ou assumem como sendo suas, sem aspas, palavras e afirmações nem sempre muito precisas ou adequadas do entrevistado. Cuidado. Subjetividade é para textos como a estreia da #CríticaHumanista, por exemplo, mas o mesmo formato não serve para temas que pedem uma abordagem mais objetiva.

O material noticioso do Humanista pode continuar se aprofundando mais, sempre. Se a intenção é explicar diferenças, ou se surge uma informação de uso prático para o leitor, por exemplo, é importante detalhar tudo ao máximo – sempre que necessário, num quadro. No caso de um editorial, o melhor é sair dizendo logo qual a opinião sobre o tema, de forma clara e firme, até mesmo contundente, usando informações apenas para contextualizar o assunto ou para reforçar o raciocínio.

Jornalista nunca pode perder de vista que fato é fato. Opinião, cada um tem a sua – inclusive esse ombudsman, defensor dos que acompanham os trabalhos do Humanista juntamente com a colega jornalista Carla Dutra.

 


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*Clóvis Malta é jornalista formado pela Fabico/UFRGS e tem 45 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como Diário de Notícias, Folha da Manhã, Revista Amanhã e Zero Hora (onde atuava como editorialista). Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: clovismalta@gmail.com.

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