EDITORIAL | Entre erros e acertos: a experiência de vivenciar uma redação

Semestre letivo chega ao fim e, nesse período, tivemos a oportunidade de sentir como é difícil – e ao mesmo tempo prazeroso – produzir um portal diário, com pautas que visam aos direitos humanos.

Inovação. Essa talvez seja a primeira palavra que vem à cabeça quando se pensa na produção de reportagens e outros produtos jornalísticos para o Humanista. Embora a maioria dos conteúdos sobre os quais o portal se debruça também seja abordado pela mídia tradicional, aqui há, sem dúvida, um diferencial: o jornalismo, praticado numa sala de aula que emula uma redação, é sempre pensado com empatia,  priorizando pessoas e enquadramentos que não têm a visibilidade necessária para uma boa convivência em sociedade. Inovar, nesse sentido, vai além do emprego desta ou daquela tecnologia.

O semestre que se encerra (2019/1) foi desafiador a todos e todas nós, que estamos concluindo a graduação em jornalismo pela Fabico/UFRGS e, ainda, enfrentamos percalços quando é preciso retratar temáticas que demandam sensibilidade e participação coletiva. As pessoas têm à disposição incontáveis produtos jornalísticos; porém, poucos incentivam a inovação: o olhar sensível é, muitas vezes, o primeiro passo – para o que nossos ombudsmans, os jornalistas Clóvis Malta e Carla Dutra, que estrearam nesse semestre, contribuíram decisivamente.

Encontrar temas que correspondessem à proposta do Humanista não foi difícil. O Brasil é permeado por contradições políticas instáveis, preconceitos e desigualdades que se intensificam cotidianamente. Retratá-los, por si só, contemplaria ao interesse público e aos valores-notícias que devem guiar as redações jornalísticas. Só que fomos, já nas primeiras aulas, instigados a pensar fora da caixa. Como enquadrar uma pauta de modo diferenciado? Quais as vozes escutadas e o que elas têm a acrescentar em relação à defesa dos direitos humanos? Repórteres, assim, centraram-se na inovação tanto do texto escrito quanto no formato, escolhendo pautas centradas em questões relacionadas à educação, ao casamento de menores de idade, às mulheres e aos direitos LGBTQI+.

A primeira reportagem publicada pela redação que manteve o portal nestes primeiros meses de 2019, por exemplo, discutiu o ensino militar, desvendando suas polêmicas e explicando o que representa, de fato, esse modelo educacional. Além disso, retratamos um cenário infeliz de mais de 11 milhões de analfabetos no Brasil e que, mesmo diante desse número, tem um governo que decide cortar investimentos da área – problemática também abordada em uma das reportagens publicadas no semestre. São alguns dos exemplos, apenas; haveria tantos outros. O certo é que perceber uma realidade dura e encontrar um ângulo que fuja de estereótipos e estigmas tão comumente enfatizados reflete um processo árduo, mas chave para que os direitos humanos sejam, algum dia, consolidados em sua plenitude.

No Rio Grande do Sul, predomina a movimentação de grupos ambientalistas contrários ao Mina Guaíba, projeto da empresa Copelmi Mineração que pretende construir a maior mina de carvão do país nos municípios de Eldorado do Sul e Charqueadas. O Humanista acompanhou os episódios que se sucedem na polêmica “novela”, produzindo uma reportagem que, diferentemente dos veículos de comunicação tradicionais, focou nas comunidades agroecológicas que serão removidas caso a proposta seja aprovada. Foi preciso, novamente, acionar a empatia como valor humano ao contar a história de pessoas que batalharam para a conquista de sua terra e temem perdê-la. Onde os direitos estão ameaçados, o Humanista estará presente, é o lema que fica para colegas que passarão pela redação nos próximos semestres. 

E os produtos jornalísticos não se restringem à reportagem, não. Inovamos ao fazer o primeiro podcast periódico de uma disciplina do jornalismo da Fabico/UFRGS, centrado na análise da cobertura da mídia sobre temas da agenda pública e na educação para a leitura do jornalismo. O #ConversaHumanista contou com a presença de convidados e foi uma experiência diferenciada de tudo o que havia sido feito na graduação, contribuindo para que conhecêssemos mais esse produto em ascensão. O #CríticaHumanista foi outro lançamento, com a crítica do filme Tinta Bruta, produção nacional que aborda delicadamente uma relação homoafetiva. 

Pecamos, provavelmente, na gestão do tempo. Algumas peças exigiam revisão mais atenta: aprendemos, no entanto, que vivenciar uma redação é correr contra o relógio; e lidar diariamente com a equação “velocidade x qualidade”. Entrevistar e, no mesmo dia, ter o texto e os recursos audiovisuais prontos para serem oferecidos ao leitor requer organização. O acontecimento jornalístico, no mais das vezes, não é atemporal: acontece e precisa ser noticiado o quanto antes. Ter a noção disso foi fundamental para que, ao chegar no mercado de trabalho, estejamos mais preparados. Escrever textos de qualidade em prazos curtos é uma habilidade necessária, principalmente na era do digital, marcada pela volatilidade e pelo instantâneo. 

As produções foram variadas – #ExplicaçãoHumanista, #ConversaHumanista, #EntrevistaHumanista, #CríticaHumanista, #EnsaioHumanista, as reportagens… – e englobaram em uma única disciplina todo o conhecimento adquirido ao longo da graduação. Antes, era preciso trabalhar rádio, impresso e televisão separadamente. No portal, conciliamos esses formatos e vimos como funcionam publicações digitais, tendo a experiência, mesmo que ainda breve, de viver uma redação. O ponto alto, na verdade, foi entender a importância de pensar em conteúdos que contribuem na defesa dos direitos humanos, o que exige uma escrita cuidadosa, atenta, sensível e extremamente empática – características que talvez sejam deixadas de lado nos canais hegemônicos e inclusive em nosso dia a dia.

Um jornalismo capaz de iluminar os principais conflitos sociais, de produzir conhecimento sobre a sociedade, empregando as tecnologias à esse propósito, é a tendência – pelo menos no jornalismo que entende as características da sua própria crise e que visa a contribuir para a melhora da vida das pessoas. Fizemos o possível. Em breve, chegam novos e novas repórteres Humanistas para levar adiante essa bandeira!



FOTO DE CAPA: reprodução

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