SEXTANTE | Vidas que vão, corpos que ficam

Universidades necessitam de cadáveres para atividades de ensino e pesquisa, porém dificilmente conseguem obter um número suficiente, por isso, nos últimos anos, começou a se tornar mais comum a doação de corpos

Elias Santos

Luíza Eduarda dos Santos, 42 anos, nativa e moradora de Novo Hamburgo, e Olena Gradynar, 35 anos, nascida em Odessa, na Ucrânia, e moradora de Canela, não se conhecem. Ambas, porém, querem ter o mesmo destino depois de suas mortes: decidiram doar seus corpos para universidades como forma de contribuir para o desenvolvimento dos estudos de alunos da área da saúde.

A doação de corpos em vida ainda não é a alternativa mais popular em todo o mundo, porém, pouco a pouco, começa a se tornar mais comum. Os cadáveres são utilizados nas universidades para uma série de estudos em diversos cursos e pesquisas. Contudo, as universidades enfrentam muitas dificuldades para obter um número suficiente de cadáveres. O Ministério da Educação recomenda em média um cadáver para cada 10 alunos em sala de aula, número que se mostra bastante difícil de atingir. A maioria das instituições depende exclusivamente do recolhimento de cadáveres não reclamados –  conhecidos popularmente como indigentes -, um processo bastante caro e burocrático.

Um dos motivos pelos quais a doação de corpos não é popular é a importância do rito de despedida do corpo. “Os rituais são questões culturais que demarcam mudanças significativas na nossa vida, demarcam início ou término de etapas. Muitas vezes duram pouco tempo, mas ficam recordações com valores imensuráveis e inesquecíveis. Ao não realizar esses ritos, podemos estar perdendo os valores simbólicos de nossas vidas”, afirma a psicóloga Aline Hofmann, da cidade de Canela. Já Andrea Oxley da Rocha, coordenadora do Programa de Doação de Corpos da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), ressalta que a doação de corpos é uma decisão muitas vezes motivada pelo altruísmo de cada indivíduo e não necessariamente priva a família de todos os ritos mais difundidos de um funeral. “Nós orientamos as famílias que não existe problema na realização de um velório. Caso seja algo muito longo, nós entramos em contato com a funerária para que se façam alguns cuidados para evitar que o corpo entre em processo de putrefação”, relata.

“Então, já que eu vou apodrecer, prefiro estar num lugar onde eu posso ajudar” – Olena Gradynar

Luíza Eduarda é mulher, transexual e ativista do movimento LGBT. Ainda não é doadora cadastrada em algum programa, embora tenha a decisão já definida. “Existem poucas oportunidades de estudarem corpos de pessoas transexuais depois da morte. Se eu defendo os estudos envolvendo pessoas trans em vida, inclusive participando de alguns no Hospital de Clínicas, me parece coerente que após o término do meu ciclo eu doe meu corpo para a ciência estudar”, afirma. A doação do corpo de Luíza também é um ato político. “As pessoas têm que entender, e isso eu falo a partir da minha vivência dentro do Hospital de Clínicas, que nós não somos cobaias, nós estamos contribuindo com a ciência. Muito se reclama que a ciência é feita por cisgêneros (quem não é transgênero), para cisgêneros, e que as pessoas não têm conhecimento nem tato para lidar com transexuais. Como nós vamos mudar isso sem colaborar?”, questiona.

Já a ucraniana Olena Gradynar conta que nunca quis ser enterrada. “Depois de algumas pesquisas, eu descobri que as universidades precisam muito de corpos para serem estudados, nossos futuros médicos precisam de matéria prima para estudar. Então já que eu vou apodrecer, prefiro estar num lugar onde eu posso ajudar.” Ela doou seu corpo para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e optou por não ter velório: “Prefiro ser lembrada por minha vida, não por minha morte”, afirma. A mãe de Olena, Tamara Sinitsyna, respeita a decisão da filha, apesar de não simpatizar muito com a ideia. “Não é normal”, diz.

Cadáveres ficam disponíveis no Laboratório de Anatomia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Foto: Elias Santos.

 

Referência Nacional

A UFCSPA se tornou referência nacional ao criar o seu Programa de Doação de Corpos. Desde 2008, a universidade vem desenvolvendo o programa que consiste na conscientização da população gaúcha sobre a possibilidade de doar o corpo, ainda em vida, para a instituição. O processo é bastante simples e tem trazido resultados muito positivos. Desde o início do programa, já foram recebidos 113 cadáveres e há mais de 500 doadores cadastrados, número que garante uma quantidade de cadáveres suficientes para atender os 16 cursos de graduação da universidade.

Um artigo produzido por alunos da UFCSPA em 2017 e publicado na Anatomical Sciences Education, uma das mais importantes publicações do mundo na área da anatomia, aponta que o perfil do doador do programa é majoritariamente composto por mulheres brancas, com mais de 60 anos, divorciadas ou solteiras, membras de alguma religião e pelo menos com o ensino médio completo.

A UFCSPA promove todos os anos uma exposição com algumas peças e também uma cerimônia de agradecimento para a família de doadores, organizada pelos próprios alunos que os utilizaram em atividades de ensino e pesquisa.

Muito embora o uso de softwares e modelos 3D esteja se popularizando, há questões que entram em discussão sobre a substituição do uso de cadáveres. “Os modelos 3D e softwares são excelentes para complementar, mas não substituem, justamente por não terem a compreensão das estruturas em três dimensões, até mesmo da textura.” Há também uma função ética na utilização dos corpos nas atividades de ensino. Com os corpos, o aluno aprende a lidar com a pessoa quando ela está na condição mais vulnerável, como um paciente em coma ou morto, por exemplo. “Tu trabalhas com esse aspecto que não é apenas técnico. Várias pesquisas têm mostrado que o aprendizado e a memorização é maior com o uso de cadáveres, principalmente com a dissecação”, aponta Andrea Oxley da Rocha, coordenadora do programa.

Por mais de 20 anos, Liselotte procurou uma maneira de doar o corpo para a ciência. Quando encontrou, inspirou também sua mãe. Foto: Elias Santos.
Famílias doadoras 

Voni Beskow Fredrich faleceu em 2018, aos 85 anos. Seu corpo foi doado para a UFCSPA e hoje faz parte do acervo da universidade. A filha de Voni, Liselotte Fredrich, sempre quis doar seu corpo. Como psicóloga, ela mesma teve aulas de anatomia durante a sua graduação. “Quando eu consegui fazer os papéis, a minha a minha mãe disse ‘eu também quero doar se isso vai ajudar eles’”, conta Liselotte. “Então eu chamei meu irmão, porque eu queria saber se ela se empolgou por mim, ou se realmente queria doar. Nosso pai faleceu com 49 anos, então tem no cemitério o lugar que seria dela, e toda a família esperava que ela fosse pra lá, mas, quando eu falei com meu irmão, ele disse que ela estava empolgadíssima por poder doar e ajudar os estudantes”.

Embora o tema gere alguns estranhamentos, a doação de corpos começa a ganhar espaço nos debates sobre as possibilidades para os corpos que ficam quando as vidas se vão, afinal de contas, assim como na doação de órgãos, essa decisão se trata de um grande altruísmo para benefício de toda a humanidade.

 

História da Anatomia

O grego Alcmeão de Crotona, um dos mais proeminentes discípulos de Pitágoras, foi o responsável pela primeira dissecação de um cadáver que se tem registro, que ocorreu no século VI a. C. No século II d.c., a prática de estudos em corpos humanos foi proibida, tendo predominado por muito tempo os estudos em animais. As dissecações só voltaram a acontecer de maneira legal com a abertura da primeira universidade de medicina, 700 anos depois. Entre os mais notórios interessados na dissecação estava Leonardo DaVinci, que desenvolveu uma extensa obra sobre o tema.

Antigamente todo o processo de dissecação precisava ocorrer até 48 horas após a morte. Hoje em dia, os corpos são fixados em formol e depois conservados em glicerina, um preparo que dura de seis a oito meses, tornando possível sua utilização por tempo indeterminado.

 

Quer ser doador?

Entre em contato com o Programa de Doação de Corpos da UFCSPA através do e-mail doacaodecorpo@ufcspa.edu.br ou pelos telefones (51) 3303-9000 e (51) 3303-8727.

 


FOTO DE CAPA: Estudantes de medicina têm aula prática de anatomia em laboratório da UFSCPA. Créditos: Elias Santos.

2 comentários em “SEXTANTE | Vidas que vão, corpos que ficam

  • 28 de novembro de 2019 em 15:39
    Permalink

    Gostaria após minha morte doar meu corpo, moro em Santos e gostaria de saber se no caso possa ser doado ai

    Resposta
    • 3 de dezembro de 2019 em 10:35
      Permalink

      Olá, Claudia.
      Entre em contato com o Programa de Doação de Corpos da UFCSPA através do e-mail doacaodecorpo@ufcspa.edu.br ou pelos telefones (51) 3303-9000 e (51) 3303-8727.

      Resposta

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