Psicólogos disseram não à patologização da diversidade, avalia conselheira eleita para o CFP sobre “cura gay”

Frente em Defesa da Psicologia Brasileira venceu eleição ao Conselho Federal reafirmando proibição do tratamento de reversão; chapa que defendia “cura gay” ficou na última colocação.

*Yuri Correa / #EntrevistaHumanista

“A categoria deu uma resposta importante. Disse não à patologização da diversidade sexual e de gênero”. A avaliação é da psicóloga Ana Luiza Castro, conselheira eleita para o CRPRS (Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul) e coordenadora da Comissão de Direitos Humanos do CFP (Conselho Federal de Psicologia), com quem o Humanista conversou para repercutir a eleição da nova direção do órgão, que assume em dezembro.

Ana Luiza integra a Frente em Defesa da Psicologia Brasileira, que compõe a gestão 2017/2019 e foi representada no pleito ocorrido na última semana de agosto pela chapa 21, vencedora com 44.259 votos de psicólogos e psicólogas de todo o Brasil. Mais de 100 mil profissionais entre os 350 mil da categoria foram às urnas. A chapa 22 – Fortalecer a Profissão fez 25.249 votos; a chapa 23 – Renovação da Psicologia ficou com 10.079 votos; a chapa 25 – Avançar a Profissão no Brasil, 7.690 votos; e a chapa 24, do  MPA (Movimento Psicólogos em Ação), que defendia a chamada”cura gay”, ficou em último lugar com 5.458 votos – o que representa 12% do total de votos da chapa vencedora.

No início de agosto, em meio à campanha pela direção do CFP e dos conselhos regionais, o #ExplicaçãoHumanista se dedicou a entender a disputa, polarizada do ponto de vista temático em torno da possibilidade de regulamentação do tratamento de reversão para pessoas LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queer e demais designações). A chapa composta pelo MPA foi apoiada pela nora do presidente Jair Bolsonaro (PSL), a psicóloga Heloísa Bolsonaro, casada com o deputado federal Eduardo (PSL/SP), que se apresenta como “coach de potencialização de qualidade de vida”, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.


Ana Luiza Castro

A chamada “cura gay” foi um ponto de tensão durante a campanha pela direção do CFP. Como foram os debates em torno do tema? 

A “cura gay” efetivamente pautou os debates. Pela primeira vez a eleição para os Conselhos chamaram a atenção da sociedade. A questão fundamental foi a defesa de uma psicologia livre, laica, científica e absolutamente comprometida com a defesa dos Direitos Humanos. A categoria deu uma resposta importante. Disse não à patologização da diversidade sexual e de gênero.

E qual é a compreensão da chapa eleita sobre o tema? Existe, por exemplo, a necessidade de rever a regulamentação atual em algum aspecto? 

A Resolução N° 1/99 precisa ser cada vez mais fortalecida. A norma, em nenhum momento, proíbe que as psicólogas e psicólogos atendam pessoas homossexuais e, sim, estabelece que a suposta cura não pode ser oferecida.

Como a chapa eleita pretende atuar frente à eventuais denúncias de aplicação da “cura gay” por profissionais de psicologia?

Priorizaremos a informação e orientação à categoria. Mas, obviamente, cumpriremos a legislação. O nosso Código de Ética já estabelece que não podemos ser instrumentos de sofrimento, preconceito, intolerância e exclusão.

Um ponto que costuma ser deficitário nos conselhos regulatórios de profissões é a fiscalização. Considerando o conturbado cenário político, econômico e social brasileiro, que acaba afetando a saúde mental da população, a chapa eleita pretende intensificar a fiscalização com vistas a um atendimento ético e qualificado? E como fazê-lo?

A aproximação efetiva com a categoria é um desafio, também com as psicólogas que não residem nos grandes centros urbanos. Pretendemos, continuar criando com o Sistema Conselhos de Psicologia referências técnicas e éticas para o desempenho profissional.

O que você destacaria como principal desfaio do CFP no Brasil atualmente?

Defender uma psicologia laica, científica, diversa, democrática. E nesse sentido não retroceder.


Sistema Conselhos

Professora Neuza Guareschi, do Instituto de Psicologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), mestre em Psicologia, doutora em Educação, e ex-presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul explica a função dos conselhos.

 


*Yuri Correa é aluno do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS e foi repórter do portal Humanista no primeiro semestre de 2019.

FOTO DE CAPA: reprodução/Facebook

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