O que estudantes gaúchos estão aprendendo sobre a Revolução Farroupilha

Humanista ouviu professoras de Porto Alegre e Alvorada para saber como a história do povo negro, sacrificado ao longo da guerra, é trabalhada nas escolas.

Caroline Silveira

Setembro é marcado no Rio Grande do Sul pelas celebrações em torno da Revolução Farroupilha, cujo signo é o dia 20, feriado fixado no calendário oficial do Estado. Chimarrão, churrasco no fogo de chão; danças ao som de músicas que conformam a cultura gauchesca. Um ato de civismo em torno de símbolos consagrados historicamente. Mas o que mesmo aconteceu durante a guerra entre os gaúchos e o Império no Século 19? 

Oferecer respostas mais fidedignas em relação aos acontecimentos têm sido um dos objetivos de professores que trabalham com alunos do Ensino Fundamental com quem o Humanista conversou essa semana (suas identidades são preservadas para evitar situação de constrangimento no ambiente escolar). A começar pelo questionamento à comemoração por um conflito cujo resultado foi desfavorável para o Rio Grande do Sul e, sobretudo, pelo alerta para o extermínio de negros que compunham a linha de frente do exército gaúcho.   

A Revolução Farroupilha foi uma revolta de estancieiros que buscavam a valorização de sua produção de couro e charque frente ao Império, que impunha impostos considerados excessivos. Começou em 1835, e durou 10 anos. Com a promessa de receber a liberdade após os conflitos, escravos negros eram enviados para as batalhas contra o exército imperial. Com lanças nas mãos e muitas vezes sem cavalaria, ficaram conhecidos como Lanceiros Negros. O episódio mais marcante foi o Massacre dos Porongos, quando negros foram dizimados.

“Quando trabalho esse texto com os alunos eles ficam revoltados. Dizem que não querem mais cantar o hino e comemorar a data, pois causa desconforto saber o que realmente aconteceu”, revela a professora Maria*, do 5º ano de uma escola pública de Alvorada (RS), na região metropolitana de Porto Alegre. Ela se refere ao livro didático que usa, contando a história dos Lanceiros Negros, e à estrofe do Hino Riograndense que perpetua o racismo: “Mas não basta pra ser livre / Ser forte, aguerrido e bravo / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”. 


Precursor da liberdade 

A história por trás do 20 de setembro, que fala do sacrifício de escravos, emboscada e traição ao povo negro, muitas vezes é ignorada. Não é o caso da professora *Camila, do 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola de Porto Alegre. Ela tenta fazer do dia, metaforicamente, o verdadeiro “precursor da liberdade”, como diz o hino. A inspiração? Professores que teve. “Eles eram muito à frente do tempo, porque me ensinaram de forma diferenciada nos anos 80, quando nem se falava sobre os direitos humanos”, lembra.

Na escola em que trabalha, a professora utiliza princípios africanos para ensinar aos alunos a importância do povo negro na história do Brasil e do Rio Grande do Sul. “Eu tenho um projeto de docência chamado olukó ayó, que significa ‘professora da alegria’, em tradução livre. Funciona com os princípios afro-brasileiros. Eu organizo práticas, aulas e projetos para trabalhar com as turmas, de acordo com seus níveis de percepção.”

Camila busca diferentes formas de trabalhar a história africana em aula sem omitir as partes delicadas, mas procura também não assustar ou ofender os alunos. “Eu começo contando histórias que tenham personagens negros. Depois disso, fazemos um trabalho no qual eles expressam por meio de desenhos o que eles pensam da história”, explica. E  foi assim que uma de suas turmas participou da exposição Africanidades, em 2017, no Memorial do Rio Grande do Sul. As crianças desenharam momentos da Revolução Farroupilha de acordo com o que sentiram após ouvir a história contada pela professora em sala de aula.

O Humanista foi ao Acampamento Farroupilha, no Parque Harmonia, em Porto Alegre, acompanhar a visita das turmas com as quais a professora Maria, de Alvorada, trabalha. Entre as crianças, todas animadas por saírem da sala de aula, o maior encanto foi ao ver os animais de perto. Também houve interesse pelos instrumentos antigamente utilizados, como o ferro de passar roupa. Contudo, ao serem questionados sobre a comemoração da data, alguns alunos demonstraram não serem favoráveis. “A professora nos contou a história, e foi muito injusto. Eu não sabia da história real, agora eu entendo que não é legal fazer essas coisas com outros”, conta Paula*, de 13 anos.

Estudantes de escola pública de Alvorada no Acampamento Farroupilha. Foto: Júlia Flor/Humanista.

Legislação ainda não garante igualdade 

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) regulamenta a integração cultural. Mas nem sempre foi assim. Só em 2013, depois de pressão por parte da sociedade civil, as diferenças étnico-raciais foram incluídas nos currículo de ensino nacional (título II, artigo 3º, parágrafo XII). “Promover medidas de conscientização, de prevenção e de combate a todos os tipos de violência, especialmente a intimidação sistemática (bullying), no âmbito das escolas” é uma medida incluída pela Lei nº 13.663, de 2018 (título IV, artigo 12, parágrafo IX). 

Já o PEE (Plano Estadual de Educação – Lei nº 14.705 de 25 de junho de 2015), prevê no Artigo 2, parágrafo XI, que uma de suas diretrizes é o “combate ao racismo e a todas formas de preconceito”.

Os números do Anuário de Segurança Pública, divulgado em setembro, no entanto, revelam que a legislação não é suficiente para garantir uma cultura livre de preconceitos. O Rio Grande do Sul é o estado que mais registrou injúrias raciais em 2018 no Brasil. Foram 1.507 casos, que chamam a atenção para a longa luta que professores têm em escolas gaúchas até garantir um ambiente de convívio sem racismo.


*Os nomes das fontes ouvidas pela reportagem são fictícios.


FOTO DE CAPA: Júlia Flor/Humanista

 

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