EDITORIAL | Segurança “pública”?

As mortes causadas por policiais no Rio de Janeiro bateram recorde. Já são 1.249 vidas interrompidas por aqueles que deveriam justamente zelar por elas.

Mil duzentas e quarenta e nove. Esse foi o número de vidas que a polícia do Rio de Janeiro interrompeu apenas em 2019. Todas essas famílias que perderam seus entes receberam a justificativa de que era por um bem maior: acabar com o tráfico de drogas; com o crime organizado. 

Na última sexta-feira, dia 20, Ágatha Félix (foto), 8 anos, estava no colo da mãe dentro de uma kombi quando foi morta com um tiro disparado pela polícia, conforme relatam testemunhas. Elas estavam voltando para casa, no Conjunto de Favelas do Alemão, no Rio de Janeiro (RJ). Era noite e a polícia carioca afirmou estar em confronto no momento em que a menina foi atingida. Pessoas que estavam no local, contudo, contestam essa versão.

Ágatha foi a quinta criança atingida e morta por uma bala perdida durante ações policiais neste ano. Entre janeiro e agosto de 2019, vale ressaltar, foram 1.249 vidas interrompidas por ações de agentes de segurança pública. Outras 45 vidas de policiais também acabaram nesses confrontos.

Quantas outras pessoas inocentes terão que morrer nessa guerra?

Desde o início de 2019, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), adotou um forte posicionamento contra o tráfico de drogas. Sua proposta é combater o crime organizado, anseio de todos os brasileiros e brasileiras. Mas a que custo?

No dia 7 de abril, o carro de uma família foi atingido por 80 (oitenta) tiros na Zona Norte do Rio. Das cinco pessoas que estavam dentro do automóvel, uma faleceu. Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, foi a vítima. Segundo o Exército, o veículo foi confundido com o de criminosos.

Em 8 de agosto, Dyogo Costa Xavier de Brito, 16 anos, foi baleado enquanto estava no ônibus indo para o treino de futebol, em Niterói. A Polícia Militar afirma que havia drogas na mochila do garoto. Ele foi um dos cinco jovens que perderam a vida nas 80 horas sangrentas daquela semana no Rio.

Para Witzel, as mortes são lamentáveis, mas a política de segurança pública do estado “está no caminho certo”. Ao mesmo tempo em que o país inteiro lamenta a perda de mais uma vida inocente, o governador do Rio de Janeiro decide retirar incentivo a policiais que não matam durante operações

A OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro) lamenta o ocorrido, e repudia o que chama de “normalização da barbárie”. Enquanto isso, o jornalista Luís Ernesto Lacombe prefere dizer ao vivo em um programa matinal que não há como tirar conclusões sobre a bala que atingiu a menina e que a política pública de Witzel está funcionando adequadamente.

Humanista, como veículo jornalístico especializado em Direitos Humanos, acredita que essa não é a resposta para uma cidade, um estado ou um país mais seguro. Vidas de trabalhadores, estudantes, pais, filhos e – acima de tudo – inocentes acabam de repente deixando muita dor e indignação aos que aqui permanecem. São moradores de favelas e também policiais. Não são números, são vidas. Atualizamos nosso cabeçalho e logotipo, assim como perfis do portal nas redes sociais (FacebookInstagram e Twitter), representando luto, até que alguma medida significativa seja implantada ou que as políticas públicas de segurança no Brasil pensem em um sistema realmente pacificador, que vise a reabilitação, que contribua para uma sociedade justa e fraterna; não para um massacre. 


Atualizado às 10 horas do dia 26 de setembro de 2019 para correções de português.


FOTO DE CAPA: Arquivo Pessoal

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