Quais são os desafios do transplante cardíaco no Brasil? Ouça

Quem espera por um transplante de órgão no Brasil sofre com os inúmeros desafios. Pablo Py, que já ganhou um “novo coração” e hoje dá essa chance aos seus pacientes, conversa com o Humanista sobre eles

Jadde Molossi, com colaboração de Caroline Silveira / #EntrevistaHumanista

Três dias depois de completar 18 anos, Pablo Mondin Py descobriu que tinha displasia arritmogênica do ventrículo direito, uma doença no músculo cardíaco que geralmente só se manifesta entre os 30 e 50 anos. Caracterizada por arritmia e insuficiência cardíaca, a doença pode inclusive causar morte súbita. Após muitas internações no hospital, síncopes e recaídas que foram piorando com os anos – cinco, no total -, Pablo recebeu um novo coração e, junto com ele, uma nova vida.

Por conta da sua própria história, Pablo – que já tentava o vestibular para medicina na época em que descobriu a doença  – especializou-se em transplante cardíaco, dando um novo significado à sua escolha por ser médico. Hoje, ele trabalha ajudando a dar a outras pessoas o presente que ele mesmo já recebeu 15 anos atrás. Antes paciente, agora médico, Pablo conhece tanto a experiência de esperar na fila por uma nova chance de vida quanto os meandros dos processos de doação e transplante de órgãos.

Em alusão ao Setembro Verde e ao Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos, celebrado nesta sexta-feira, dia 27, Pablo Py fala ao #EntrevistaHumanista sobre essa história inusitada e inspiradora.

Segundo o médico, um dos maiores desafios do transplante de órgãos no Brasil é a organização dos Centros de Saúde para atender ao complexo processo de doação, que começa no trato adequado do possível doador e termina na implantação bem-sucedida do órgão no receptor. A cada ano, são em torno de 3 mil a 3500 notificações de transplante de coração que ocorrem quando um paciente tem morte encefálica e a família autoriza a doação de órgãos. Apesar disso, o número de transplantes de coração realizados no país não costuma passar da faixa dos 300, por falta de preparo e estrutura nos hospitais. No ano passado, foram 358 transplantes desse tipo; até junho deste ano, 203.

O transplante de coração é especialmente complexo porque, além de todo o cuidado que deve ser dispensado ao doador antes da retirada do órgão, o procedimento que deve ser feito após esta etapa exige muita agilidade. Assim que o coração é retirado do corpo, os médicos têm apenas 4 horas para transportar o órgão e implantá-lo no receptor. Esta particularidade impede que haja uma lista nacional para o transplante de coração, visto que não há tempo hábil para transportar o órgão por grandes distâncias. A fila é, portanto, regionalizada. Até São Paulo, onde Pablo atua, os lugares mais distantes de onde já vieram doações do órgão foram Uruguaiana (RS) e Goiânia (GO).



Se o processo de transplante exige rapidez, o paciente que está na fila, por outro lado, pode ficar no aguardo por anos. Porém, a lista de espera acaba não se alongando tanto porque, para alguns pacientes, um ano já é tempo demais.



Pacientes que esperam por um coração que não chega a tempo: este é o caso de Tatiane Penhalosa, que morreu na fila por um transplante em maio deste ano, aos 32 anos. Sua história, que é como a de tantos outros, inspirou a criação da Lei Tatiane (PL2839/2019), que aguarda aprovação e institui o Programa de Ensino e Conscientização sobre Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos no currículo escolar e acadêmico brasileiro.

A Lei Tatiane é justificada por um desafio ao transplante de órgãos no Brasil que se apresenta em uma etapa anterior a do procedimento médico: a conscientização sobre a importância da doação. Na visão de Pablo, o que às vezes impede as famílias de autorizarem a doação são os mitos que ainda permeiam o imaginário das pessoas, como o de que exista comércio de órgãos e que algumas pessoas tenham preferência no atendimento por critérios arbitrários. O médico esclarece que, com o processo de transplantes gerido totalmente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), nada disso é verdade atualmente.



O número de famílias que recusam doar órgãos de parentes ainda é alto. Em 2017, de 5.939 famílias consultadas, 2.571 – equivalente a 43% – não deram autorização. O número mostra a urgência da conscientização, mas fazer esse movimento no momento de maior fragilidade das famílias não costuma ser uma alternativa exitosa. Para tratar do assunto com maior sensibilidade e com mais chances de sucesso, Pablo defende que o contato com o tema da doação de órgãos deve começar nas escolas.



De 1997 a 2001, vigorou no país a lei da doação presumida, em que todos eram potenciais doadores a menos que expressassem vontade contrária. Hoje, no Brasil, somente os familiares de primeiro grau – pais, filhos acima dos 18 anos e cônjuge – podem decidir sobre o destino dos órgãos de alguém com morte encefálica. Desde a implantação da Lei 10.211/2001, que concedeu todo o poder de decisão à família, a volta do sistema de doação presumida não parou de ser discutida, e hoje tramita no Senado o PL 405/2012, que propõe o retorno do modelo. 



No Dia Nacional de Doação de Órgãos, o Ministério da Saúde lançou uma nova campanha para a conscientização do público sobre o ato. A vida continua. Doe órgãos. Converse com sua família é um incentivo a quem deseja doar seus órgãos. Conversar e sensibilizar sua família sobre a importância de respeitar seu desejo é de fundamental importância.



Enquanto a anuência das famílias é a única maneira de possibilitar a doação de órgãos, Pablo tenta tocar a consciência das pessoas de outras formas. Uma das mais poderosas é justamente a sua história. Hoje, a espera que o médico vive é diferente, e um símbolo muito mais feliz da esperança: 15 anos após a nova chance de vida, ele aguarda, junto com a esposa, a chegada do primeiro filho, Felipe.



Que cada vez mais as chances de sonhar dos que necessitam de um novo órgão sejam renovadas e que cada vez mais sonhos possam ser realizados.


FOTO: Freepik

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *