EDITORIAL I Até quando?

Caso de trabalhadores flagrados dormindo embaixo de um palco no Rock in Rio 2019 chama a atenção para a precarização do trabalho e a falta de oportunidades.    

Na mesma semana em que trabalhadores que carregavam equipamentos e instrumentos no Rock in Rio foram flagrados dormindo embaixo das estruturas de um dos palcos do festival, em meio a quadros e cabos elétricos – muitos deles ainda cumprindo jornadas duplas de trabalho -, outras 3000 pessoas disputavam 180 vagas de emprego em um supermercado da Zona Norte de São Paulo.

Apenas dois retratos pontuais da precarização do trabalho e da falta de oportunidades que tomam conta do Brasil nos últimos anos, inspiradas numa onda mundial de individualização da vida. Emblemáticos, no entanto, embora com pouca visibilidade em meio aos atropelos diários da agenda política. Desemprego, longas jornadas, informalidade e baixos salários são manifestações reais desse fenômeno.

São crescentes as taxas de desemprego no país. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estima que atualmente 12,6 milhões de pessoas estejam sem ocupação e outros 24,2 milhões estejam trabalhando informalmente ou por conta própria. Muitas são as propostas de reformas, anunciadas com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do trabalhador brasileiro, mas quantas atendem, de fato, a esse propósito?

A reforma trabalhista, aprovada em julho de 2017, no Governo Temer, garante mais vantagens ao empregador enquanto afirma beneficiar ambas as partes. A Reforma da Previdência, que atualmente está em votação no Congresso Nacional, também prevê mudanças que virão a prejudicar o trabalhador. Flexibilização do horário de trabalho, anos a mais de contribuição para ter direito à aposentadoria e outros ajustes que são prometidos para o bem do povo brasileiro.

Acontece que quem pensa e vota nessas reformas não passa a noite em fila tentando um emprego; não precisa se sujeitar a uma dupla jornada de trabalho para sustentar a família, e muito menos dependerá do governo quando se aposentar. São pessoas que não compreendem a situação do trabalhador, mas que continuam afirmando – por meio de dados duvidosos e imprecisos – que o país caminha para superar a sua crise, com redução do investimento público e a privatização da economia como um todo – fórmula que vem sendo cada vez mais criticada por economistas preocupados com os seus efeitos colaterais.

É inaceitável que, somente em 2019, o tema seja pautado pela segunda vez em editorial, sem que nenhum avanço – seja de melhoria das condições de trabalho, seja de aumento real de
empregos – tenha sido registrado. Enquanto o quadro for esse, não nos furtaremos da tarefa de lançar luz sobre um dos principais problemas do país na atualidade.              

E diante da iminência de uma nova reforma trabalhista, o Humanista reitera sua posição em defesa dos direitos e garantias mínimas nas relações de trabalho, tão importantes para o projeto de uma sociedade mais justa e fraterna. A proposta do Governo Bolsonaro, prestes a ser encaminhada ao Congresso Nacional, prevê, por exemplo, a criação da “carteira de trabalho verde e amarela”, com a qual o empregado terá ainda menos direitos trabalhistas.


FOTO DE CAPA: Reprodução/G1

Um comentário em “EDITORIAL I Até quando?

  • 10 de outubro de 2019 em 15:55
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    Achei muito bom este editorial! Super interessante, não sou muito de ler esses tipos de matérias, mas está esta mostrando o quão os trabalhadores são explorados por seus patrões, trabalho super abusivo! Se aproveitam das condições financeiras para poder adquirir e usufruir do trabalho dessas pessoas!

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