Como enfrentar o adoecimento mental na universidade: conheça iniciativas de professores e alunos

Pelo menos 83% dos estudantes de universidades federais brasileiras já enfrentaram alguma questão de ordem emocional, revela pesquisa da Andifes publicada esse ano.

Júlia Costa dos Santos

Entender a multiplicidade de fatores ligados a questões estigmatizadas é sempre uma tarefa difícil. Do ponto de vista do conhecimento formal, envolve referências em áreas como Sociologia, Economia, Psicologia e Comunicação – além de outras, cujos estudos da questão é mais pontual. Quando o assunto é saúde mental, então, a tarefa fica ainda mais complicada. Sobretudo se o interesse for por entender o adoecimento de jovens universitários.

Segundo pesquisa da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil), publicada em 2019,  pelo menos 83% dos estudantes de universidades federais brasileiras já enfrentaram alguma questão de ordem emocional – aumento de 3% em relação ao mesmo estudo realizado em 2016. 

Fonte: Andifes, 2019.

Ansiedade, depressão e sensação de desamparo são situações recorrentes nos relatos de alunos. A ideação suicida passou de 4% em 2016 para 11% na pesquisa mais recente. Adversidades que envolvem todo o histórico de vivências dos alunos, acrescidas de um sobrepeso devido ao modelo acadêmico competitivo e que suscita a busca pela excelência em detrimento de um aprendizado saudável.

Fonte: Andifes, 2019.

No contexto do Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), o Humanista foi atrás de explicações para os números alarmantes envolvendo a saúde mental de universitários. E não é a primeira vez que o portal se dedica a essa tarefa. Em 2018, por exemplo, em meio a denúncias de alunos da Famed (Faculdade de Medicina) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a repórter Maira Miguel também tentou entender as causas do adoecimento mental de quem frequenta um curso superior no Brasil.

Fonte: Andifes, 2019.

“Se nos apoiarmos, tudo fica mais fácil”

O estudante de Engenharia Ambiental da UFRGS, Marcelo*, 22 anos, se viu a andar de um lado para outro do pequeno quarto do apartamento que divide com outros quatro estudantes. Naquela semana, não conseguira ir a nenhuma aula; tinha a cabeça cheia e um medo que não ia embora. Sentimentos que rondavam sua mente há tempos, não sabe precisar desde quando, mas tem certeza de que se intensificaram mais ou menos coincidindo com a época em que ingressou na faculdade. O motivo? Mudanças pelas quais passou: de cidade, de adaptação a um novo ritmo de estudos e a um novo ambiente, o acadêmico.

“Sempre convivi com questões de transtornos mentais, minha família tem vários casos, inclusive de suicídios”, revela o estudante, que saiu de sua cidade no interior do Rio Grande do Sul para viver e estudar em Porto Alegre. “Mas nunca isso foi muito discutido em casa, sempre fui julgado como sendo preguiçoso e sem força de vontade devido a minha depressão e ansiedade.” 

Sem condições de acessar um serviço de saúde privada, Marcelo – com o incentivo de uma colega de aula – procurou auxílio dentro da própria UFRGS. Foi encaminhado, então, para o serviço público de saúde, onde encontrou diversas barreiras – como o tempo de espera para o atendimento – e, por isso, o jeito foi procurar um atendimento de baixo custo. “Depois que virei bolsista dentro da universidade tive condições de ir até à Clínica Psicológica da Universidade. Foi um período muito bom, consegui falar sobre as minhas angústias, me entender um pouco melhor para lidar com esse peso que eu sentia o tempo inteiro.”   

Além dos atendimentos psicológicos, o jovem conseguiu ir a um psiquiatra e, então, começou um tratamento com medicamentos para tratar a depressão e a ansiedade. Ele conta que o apoio dos amigos também foi fundamental para que aos poucos se sentisse mais confortável em falar sobre suas questões de sofrimento e, desse modo, até incentivou colegas a procurar ajuda.

“O período da universidade é muito puxado, é muito diferente da escola, tudo muda. É uma cobrança diferente, agora tu está se preparando para quem vai ser no futuro”, avalia o estudante de engenharia. “Essa angústia do futuro, se junta aos montes de conteúdos, trabalhos e provas, e a gente fica mal mesmo. Mas acho que se nos apoiarmos e oferecermos sempre nossa ajuda para os outros conseguiremos tornar tudo um pouco mais fácil.”  


O que te adoece?  

Casos como o de Marcelo são recorrentes no meio acadêmico por diversos fatores. Segundo Thaís Sarmento, psicóloga da PRAE (Pró-reitoria de Assuntos Estudantis) da UFRGS, “tanto a saúde quanto a doença mental em suas especificidades são multifatoriais, pois falam de acontecimentos de vida, da carga familiar que se transmite através de padrões de comportamento que aprendemos com a família e das condições de vida de um modo geral”.

Para a psicóloga, o que acontece é que o estresse acadêmico acaba sendo difícil de manejar para muitos estudantes, mas isso não significa que a universidade sozinha esteja causando o adoecimento. São esses conjuntos de vivências anteriores e presentes que, acrescidos à tensão das demandas acadêmicas – tanto pelas características delas quanto pela dificuldade em administrá-las – contribuem para um maior sofrimento do jovem. 

Contudo, não só as demandas são estressores ligados ao meio de ensino superior, como também a competitividade e a individualidade, que são fatores de adoecimento muito presentes nas lógicas acadêmicas. “A fragilidade acaba sendo mal vista, não dar conta dos afazeres acadêmicos é mal visto. Então, até que eles admitam e peçam ajuda tudo pode se agravar”, explica Thaís.

Falar sobre o que sente nem sempre é fácil. Por isso, existem sintomas que podem indicar que um estudante está passando por problemas de desordem emocional e que podem ser percebidos pelas pessoas que estão ao seu entorno – sejam colegas, professores ou servidores.

“Chama a atenção principalmente quando as ações destoam de um padrão anterior”, alerta Rogério Miranda Barros, também psicólogo da PRAE. “Por exemplo, uma pessoa que era sociável e conversava com colegas, começa a ficar mais retraída, mais afastada, não participa mais das atividades, começa a faltar com frequência. Esses são sinais fortes de que talvez algo esteja acontecendo.” 

Para ambos os psicólogos, depois de percebidos alguns desses sintomas, o ideal seria oferecer a escuta atenta e, em seguida, ajudar o estudante no sentido de encaminhar um atendimento especializado em saúde mental. “Sempre devemos nos apresentar como alguém que estende a mão, porque isso acaba se tornando também um fator de proteção, porque é um jeito de romper com essa lógica de que a pessoa vai ter que resolver isso por conta, achando que é bobagem, que é frescura, como é o discurso que muitas vezes aparece”, argumenta Thaís Sarmento. 


Enfrentamentos 

Com a crescente discussão de assuntos ligados à saúde e ao adoecimento mental, tanto a universidade quanto as pessoas que fazem parte dela têm mantido movimentos que visam destacar ações de promoção de saúde para a prevenção do sofrimento psíquico e trabalhos a respeito das doenças.

Em agosto de 2018, por exemplo, surgiu na UFRGS o Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Estudante, a partir de uma demanda das COMGRADs (Comissões de Graduação, equivalentes à coordenações de curso) a fim de elaborar estratégias para ajudar professores e técnicos administrativos a lidarem com alunos que apresentam problemas de ordem emocional. De acordo com a professora Cristina Neumann, coordenadora da COMGRAD/Medicina e integrante do GT, “para professores que não são das disciplinas da saúde, existem problemas que são difíceis de compreender: eles costumam ser menos gregários [pessoas que tem mais afeição à coletividade] que os professores das humanas e da saúde”. 

O GT tem atuado em subgrupos, trabalhando com ações de promoção de saúde – especialmente durante o Setembro Amarelo –  e com reuniões com grupos de alunos e professores, para falar sobre  a identificação de sintomas e sobre como buscar apoio. Além de desenvolver estratégias para ajudar alunos com sofrimento agudo, como agir nesses casos e quem chamar, também estão ensinando aos alunos como acessar o sistema de saúde, como se cadastrar no SUS (Sistema Único de Saúde), e aonde procurar emergências ou postos de saúde.

UFRGS criou site reunindo informações e orientações sobre saúde mental.

Um material específico sobre o tema foi disponibilizado no TUAUFRGS, site criado para facilitar a vivência na universidade. Já o site Saúde Mental, também vinculado ao domínio da UFRGS e mantido pelo CIPAS (Centro Interdisciplinar de Pesquisa e Atenção à Saúde), reúne várias instruções de apoio, sinais para indicação de sofrimento psíquico, além de aonde e quem procurar para pedir ajuda emocional.

“O estudante é uma amostra da sociedade. O aumento do sofrimento do universitário tem a ver com a sociedade também, há uma crise absurda no país”, avalia a professora Cristina. “Não acho que seja só na universidade. De um modo geral as pessoas estão sofrendo. A gente está trabalhando bastante para melhorar o ambiente da UFRGS, mas é um processo que não acontece de um dia para o outro.” 


Solidariedade estudantil

Outro projeto – este por iniciativa de estudantes do curso de Medicina da UFRGS – que tem se destacado é o Pega Leve. “A nossa ideia principal é o treinamento de gatekeepers [porteiros da informação], ou seja, monitores, pessoas que sabem quais são os caminhos, sabem abrir as portas para quem precisa”, explica Franco Zortéa, médico e extensionista do projeto. “A gente capacita voluntários, que são universitários, graduandos de qualquer área, para que eles voltem para a vida regular acadêmica, e sejam espécies de agentes de saúde mental, que tem conhecimento desmistificado, com um conhecimento mais científico e que sabem como agir com alguma situação e onde procurar ajuda caso seja necessário.” 

A capacitação que o Pega Leve realiza tem a duração de oito horas e aborda questões sobre cultura e universidade, também discute qual é o ambiente que os alunos gostariam de frequentar; como identificar – de uma forma mais superficial, não realizando diagnósticos – síndromes psiquiátricas e transtornos mentais; questões de comunicação abrangendo comunicação não violenta e treinamentos para o exercício da empatia; estratégias para a promoção de saúde, do autocuidado, como sugerindo a prática de exercícios físicos e de técnicas de meditação.

“O objetivo da formação do monitor não é que ele substitua nenhum profissional, é que ele seja uma ponte através da psicoeducação”, pondera Franco Zortéa.  


Onde buscar ajuda

A Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS presta atendimento a toda a comunidade de Porto Alegre e região. As entrevistas iniciais ocorrem às quartas-feiras, e o pagamento é negociado diretamente com o paciente. A clínica fica na Avenida Protásio Alves, 297, no bairro Rio Branco em Porto Alegre, e o telefone para informações e agendamentos é o (51) 3308-2024.

Qualquer pessoa pode buscar tratamento para questões de saúde mental na rede pública de saúde através da UBS (Unidade Básica de Saúde) de referência, próxima a localidade onde reside. Para quem mora em Porto Alegre, é possível obter informações sobre o serviço pelo telefone 156 (ligação gratuita) ou pelo site da Prefeitura.

Além disso, a maioria das universidades ou faculdades com cursos de psicologia possuem clínicas-escola, em que é possível obter atendimento. O Saúde Mental, da UFRGS, disponibiliza uma lista completa desses locais em Porto Alegre.

Outra possibilidade mais imediata de receber apoio emocional é através do CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188, pelo chat ou pessoalmente nas unidades representativas; todas as opções são gratuitas. Em Porto Alegre, o CVV fica localizado na Avenida José de Alencar, 414, sala 205, no bairro Menino Deus, e funciona 24 horas. 

Os movimentos na universidade no que se refere a saúde mental ainda estão em consolidação. Todas as fontes consultadas pelo Humanista ao longo da reportagem concordam que ainda levará tempo para que sejam perceptíveis mudanças mais significativas, dado ao fato de que a saúde mental de universitários não é só um assunto que diz à própria universidade, mas, sim, ao sistema de saúde pública, às políticas públicas e aos fatores culturais que dizem muito sobre como vemos e tratamos questões psíquicas.


*Nome fictício atribuído ao estudante para preservar sua identidade

FOTO DE CAPA: ilustração/Debbie Tung

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