Da Terra plana ao surto de sarampo: as consequências dos questionamentos à ciência

Ataques à ciência, aos professores e ao conhecimento formal em redes sociais reabrem debates superados ao longo da história; especialistas alertam para riscos do fenômeno.

Elias Santos

Em 29 de maio, o astrólogo e influenciador digital Olavo de Carvalho publicou em seu perfil no Twitter mensagem em que alegava ainda não ter encontrado evidências incontestáveis sobre o fato de que o Planeta Terra possa ser plano. Ele já havia criticado anteriormente o trabalho de Isaac Newton, Albert Einstein e outros cientistas que figuram entre os mais importantes na história da ciência por não atenderem às suas crenças de “seriedade e método”. 

Poderia ser apenas mais uma curiosidade envolvendo um influenciador digital – figura contemporânea no debate público, marcado pela “era das redes sociais”. O assunto chama a atenção, no entanto, por se tratar de uma afirmação vinda de um dos principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e que também é tido como um grande influenciador da chamada nova direita no Brasil. 

A complexidade da questão ganha ainda mais relevância quando se leva em conta que 98,21% dos eleitores de Bolsonaro em 2018 tiveram contato com “fake news”, e 89,77% destes acreditaram no conteúdo apresentado, de acordo com um estudo promovido pela IDEA Big Data, levando em conta Facebook e Twitter. Uma manifestação típica do contexto de “Pós-verdade” e desinformação que permeia o ambiente digital.

Os questionamentos de Olavo de Carvalho acerca de assuntos que há muito são considerados resolvidos pela ciência não é um caso isolado. Grupos que defendem o terraplanismo – a teoria de que a Terra é plana –; o combate à política pública de vacinação e a própria construção do conhecimento formal têm ganho cada vez mais espaço. O que é preocupante neste momento em que o financiamento à pesquisa enfrenta cortes de orçamento, é a produção de incertezas sobre o trabalho e a vida de pesquisadores, como retrata a reportagem de Vitória Pacheco.



Em meio aos ataques sofridos por professores (que celebram o seu dia nesta terça-feira, 15 de outubro), devido a acusações de doutrinação que começam no Ensino Básico, o Humanista foi atrás de explicações para o estranho fenômeno que tensiona consensos científicos que pareciam inquestionáveis na história da ciência e as suas consequências concretas.  


Radar, vacina… Pra quê? 

Os questionamentos ao conhecimento formal são incitados também pelo presidente Jair Bolsonaro. Em abril, o jornal Folha de S.Paulo publicou levantamento apontando que os trechos monitorados por radares móveis registraram 21,7% menos mortes causadas por acidentes de trânsito no Brasil. Em  agosto, contudo, ao justificar a sua decisão de extinguir os radares móveis em rodovias federais, Bolsonaro afirmou: “chega de estudiosos e especialistas”

Renato Levin-Borges, doutorando na Faculdade de Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e professor da rede pública de Porto Alegre,  relata que já experienciou uma série de momentos em que o conhecimento formal e dados respaldados eram postos em xeque. “Já ouvi questionamentos sobre dados de violência contra mulheres e LGBT’s e todos eles vieram como assertivas de que isso são mentiras”, lembra o professor, afirmando acreditar que esse é um problema advindo do fato de que os critérios de verificabilidade não são partilhados por todos, e que o próprio debate sobre teorias infundadas como o terraplanismo é problemático: “ao mesmo tempo que eu tenho o paradoxo de que se não debater isso ficará posto [como verdade], todas as vezes que tentei responder trazendo dados e fatos, até mesmo preparando aulas especiais, raríssimas vezes surtiram efeito”. 

A educação não é a única área atingida por problemas causados pela falta de conhecimento. Jeannifer Stephanie Jumier trabalha há quatro anos como agente de saúde na Unidade Básica da Ilha dos Marinheiros, em Porto Alegre. A zona da cidade em que trabalha é considerada de vulnerabilidade e abriga em sua maioria famílias de baixa-renda. Ela relata que há muita desinformação sobre a importância da amamentação como fonte única de alimento para bebês de até seis meses de idade, e também sobre DST’s, por exemplo.

“As pessoas ainda não conseguem diferenciar HIV de Aids, ainda é um tabu muito grande falar sobre a doença e seu tratamento, muitos têm o ‘pensamento Cazuza’: ‘tenho Aids, vou morrer’, muitas vezes o próprio paciente que tem não quer falar a respeito”, conta Jeannifer. Apesar dos problemas, ela relata que seus pacientes costumam ter consciência sobre a importância da vacinação e prevenção de outras doenças.

Agentes de saúde levam informação à domicílio. Foto: Gabriela Plentz.

Já a enfermeira Margery Zanetello, servidora da Unidade Básica de Saúde Santa Cecília, alerta que “à medida que vacinamos as pessoas estamos protegendo elas de doenças, aquelas que podem ser [previamente] resolvidas somente com a vacinação, não precisam de tratamento ou internação, então é muito menos gasto para o sistema público”. Um grupo do Facebook chamado O lado obscuro das vacinas reúne mais de 13 mil pessoas, expostas a postagens de todos os tons; apresenta muitos conteúdos que vinculam as vacinas à introdução de doenças no organismo, alteração do DNA humano e um plano de dominação. 

Margery explica que as vacinas são testadas diversas vezes antes de serem introduzidas no mercado. “A vacina provoca a fabricação de anticorpos, então, quando o paciente realmente entrar em contato com o germe causador, o organismo já terá uma memória da doença e da proteção contra ela e então acabará com o vírus.” 

A falta de conscientização sobre a importância da vacinação já tem apresentado resultados alarmantes. Atualmente, o Brasil vive um surto de sarampo, doença que já era considerada erradicada no país e que registra cinco mil casos em 2019. O Ministério da Saúde promove campanha de vacinação ente os dias 7 e 25 de outubro para tentar conter o avanço. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o movimento antivacinação é um dos 10 maiores riscos para a saúde humana neste ano. 

O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece mais de 15 vacinas totalmente gratuitas para a população. Para ter acesso, basta o paciente ir até qualquer posto de saúde com um documento de identidade e carteira de vacinação, se possuir – caso não possua, todas as doses serão fornecidas por precaução. 



Do consenso científico à “pós-verdade”

Em 2016, após o Oxford English Dictionary (Dicionário de Inglês Oxford) nomear a “pós-verdade” como a palavra do ano, o debate sobre seu significado se intensificou. Basicamente, trata-se de um fenômeno no qual os fatos em si já não importam tanto quanto as emoções que podem ser incitadas. 

A campanha presidencial brasileira de 2018, aos moldes da estadunidense de 2016 – quando Donald Trump fora eleito -, foi recheada de momentos nos quais a verdade, aquela prática, comprovada e sistematizada, não importava tanto. “Mamadeira de piroca”, “kit gay” e a camiseta da ex-deputada e candidata a vice Manuela D’ávila (PCdoB) com a estampa “Jesus é travesti” – todas invenções, identificadas pelo termo “fake news” (notícia falsa) —, foram fatores cruciais na construção do atual momento político que o país atravessa.  

Milton Zaro é pós-doutor pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina); ministra disciplina no Programa de Pós-graduação em Informática na Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), na qual trata sobre a história do conhecimento e do método científico. 

O professor conta que a teoria científica tal qual conhecida hoje começa a surgir na Grécia antiga com Tales de Mileto e a sua filosofia naturalista, que propôs uma explicação dos fenômenos do mundo desvinculada de mitos e religiosidades. Porém, ao longo da história aqueles que escolheram seguir esse caminho não tiveram vida fácil, “todo mundo conhece a história de Galileu, que teve que voltar atrás [após defender a teoria heliocentrista], mas antes dele houve Giordano Bruno que propôs que o universo era infinito, ele foi para a fogueira, esse é o tipo de pessoa que raramente se encontra hoje”. 

Zaro explica ainda que durante a Idade Média a busca por conhecimento não era bem vista quando contradizia os dogmas da Igreja. “Na idade média se você não fosse um católico praticante você ia para a fogueira, não existia a opção de não ser católico.” 

Segundo o professor, a produção de conhecimento científico no Brasil também nunca foi um mar de rosas, “nós sempre vivemos à margem, nunca foi prioridade para os governos. Isso se explica pelos nossos presidentes, o Jimmy Carter [ex-presidente estadunidense], por exemplo, era engenheiro nuclear, os nossos foram em sua maioria militares, e os que seguiram também não possuíam conhecimento tecnológico”. 

Apesar do ambiente de constante desvalorização do conhecimento formal, o Brasil foi capaz de gestionar grandes nomes, lembra Zaro: “temos cientistas de alto nível, mas nossa principal neurocientista, Suzana Herculano-Houzel, foi embora do país porque não tinha como sustentar seu laboratório, temos muitos professores que fazem concursos lá fora e passam. Eu acho isso [a perda de talentos] profundamente lamentável”.


Cortando o bem pela raiz
Roesler é pró-reitor de pesquisa da UFRGS.

O antídoto natural para os ataques ao conhecimento é justamente ele próprio. O problema é quando o MEC (Ministério da Educação) é submetido a gestões que o desqualificam, como tem ocorrido com os cortes no orçamento da pasta mesmo diante dos 11 milhões de analfabetos que governos teimam em negligenciar, começando pela incapacidade de combater o déficit de aprendizagem com o qual o repórter Rene Almeida se deparou ao investigar o tema para o Humanista no primeiro semestre.      

O pró-reitor de pesquisa da UFRGS, professor Rafael Roesler, avalia que os cortes na educação, principalmente nas bolsas Capes e CNPq de pós-graduação, acarretam consequências seríssimas para o futuro do país. Explicando a importância do investimento público em ciência, ele afirma que “especialmente nos países desenvolvidos a pesquisa básica é financiada pelo setor público”. 

Roesler desmistifica a ideia de que potências econômicas não investem dinheiro público em ciência. “Se nós pegarmos os Estados Unidos, por exemplo, nós temos 100% dos novos medicamentos ao menos financiados em parte pelos Institutos Nacionais de Saúde [National Intitutes of Health], que têm um orçamento público de 30 bilhões de dólares ao ano”, argumenta. “Se não houvesse esse braço do investimento público na ciência mais básica, não há onde a iniciativa privada investir porque não há a base para onde investir, existe uma cadeia onde o setor público é fundamental no sistema de pesquisa.” 

Para o pró-reitor, o futuro de um Brasil sem conhecimento científico é inseguro, “será um país totalmente dependente da importação de produtos que tenham um pouco mais de sofisticação e cada vez mais exportador de produtos simples e baratos que não requerem tecnologia, então não ter pesquisa é dependência econômica”.

Se ao longo da história o conhecimento foi capaz de paulatinamente ganhar as batalhas necessárias para contribuir com a vida humana, há esperança em um futuro melhor. Contudo, olhando para o presente, é preciso ter resiliência para acreditar em dias melhores.


FOTO DE CAPA: qimono/pixabay

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