O silenciamento de jornalistas ao redor do mundo

Em 2018, pelo menos 251 jornalistas foram presos e 65 desapareceram, segundo dados do Comitê para a Proteção dos Jornalistas. A liberdade de imprensa está em declínio, e o maior perigo é o modelo autoritário de governo.

*Laura Hülsemann

A liberdade de imprensa está sob ameaça em vários países. Ingredientes como regimes autoritários, proliferação de notícias falsas e morte de jornalistas são problemas atuais. O Repórteres sem Fronteiras (RSF) é uma ONG que defende, internacionalmente, a liberdade de informação. Eles afirmam que o México é o país com o maior número de mortes de jornalistas em 2019 – no total, 10 profissionais. A seguir, aparecem na lista países como Afeganistão, Paquistão e Somália, nos quais três jornalistas foram mortos. A organização explica que, embora o México não esteja em guerra, é, atualmente, o país mais mortal do mundo para a mídia e o mais perigoso para os repórteres. 

Durante os governos de Felipe Calderón (2006-2012) e Enrique Peña Nieto (2012-2018), foram registrados 112 casos de jornalistas assassinados ou desaparecidos. Os jornais do México precisam tomar muito cuidado com sua cobertura da mídia, pois existe uma forte censura e restrição de informações impostas por diferentes atores, como cartéis de drogas e governos. Por isso, temas como violência e tráfico de drogas local geralmente não são discutidos ou relatados, porque estão ligados a riscos elevados, explica Mauricio Flores, diretor adjunto do jornal El Mañana. Hoje, a insegurança digital é outro problema que assola sites de imprensa independentes, caso da Revista Búsqueda, que foi hackeada quatro vezes nos últimos 18 meses. Além disso, o poder da mídia concentra-se principalmente em dois canais de TV – Televisa e TV Azteca – limitando, assim, reportagens diversificadas e cobertura da imprensa.

Segundo Nick Casey, repórter do New York Times, é a mídia independente rural e local quem sofre mais censura nos países que monitoram a mídia. O jornalista trabalhou na Venezuela, em que foi repetidamente ameaçado. Ele explica que relatórios detalhados sobre o regime podem ter consequências mais severas para jornalistas locais. “Se é isso que os países são capazes de fazer comigo, como repórter do Times, o que eles são capazes de fazer com seus próprios cidadãos?”, questionou. “Muito pior. E eu já vi isso”, afirma.


56 jornalistas foram mortos em 2018. Imagem: CPJ.

Por outro lado, há países que se envolvem em silenciar a mídia encarcerando-a. Em 2019, a China registrou o maior número de jornalistas presos (67), seguida por Egito (28), Turquia (27) e Arábia Saudita (20). Todos esses países são classificados como nações não livres no relatório anual da Freedom House. Embora o Brasil seja classificado como um país “livre”, ele aprisionou um jornalista em 2018 – Paulo Cezar de Andrade Prado, do Blog do Paulinho, condenado por difamação. 

O Brasil caiu três posições na classificação do RSF entre 2018 e 2019, ocupando, agora, a posição 105 na lista de 180 nações. A organização afirma que o Brasil “continua sendo um dos países mais violentos da América Latina, pois a mídia e os jornalistas são frequentemente mortos em conexão com o trabalho”. Reportagens que tratem sobre corrupção, crime organizado e políticas públicas estão ligadas a ameaças e são frequentemente submetidas a processos judiciais abusivos. Além disso, ataques físicos durante manifestações diminuem ainda mais a liberdade de informação no Brasil. O processo eleitoral que culminou na eleição do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, foi marcado por discursos de ódio, violência contra jornalistas e direitos humanos e foi caracterizado pelo uso de  informações falsas.

No início deste ano, quando os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Bolsonaro estavam realizando uma entrevista coletiva, o líder norte-americano elogiou o colega  brasileiro: “Estou muito orgulhoso de ouvir o presidente usar o termo “notícias falsas””. No twitter, Trump chegou a chamar a mídia de notícias falsas (the fake news media) o “inimigo do povo americano”. Enquanto o republicano twittou sobre informações mentirosas quase 600 vezes, a crescente importância de “notícias falsas” é claramente visível na liberdade de mídia. O CPJ (Comitê para Proteger Jornalistas) explica que “dos 262 jornalistas presos em todo o mundo em 2017, 21 jornalistas foram detidos por acusações de notícias falsas”.

Os Estados Unidos têm uma Constituição eficiente, o Estado de Direito e um ato de mídia (liberdade de imprensa e de opinião) robusto que funciona como salvaguarda contra os ataques de Trump à mídia. No entanto, essa não é a realidade de muitos países. O constante uso de fake news por Trump não está apenas deslegitimando a imprensa nos Estados Unidos, mas também fornecendo aos líderes autoritários de todo o mundo um exemplo de como suprimir a mídia.

A organização Amnesty International explica que a liberdade de expressão “é o direito de buscar, receber e transmitir informações e ideias de todos os tipos, por qualquer
meio”. Assim, a liberdade de expressão também inclui a liberdade de expressar todos os tipos de ideias, inclusive pensamentos ofensivos. Os governos só têm o poder de restringir a liberdade de imprensa em circunstâncias específicas, e deve fazê-lo quando a medida for legalmente necessária.

O fato é que governos estão restringindo a liberdade de imprensa em vários graus. No Índice Mundial da Liberdade de Imprensa 2019, a Noruega obteve a maior pontuação, alcançando as melhores condições para a Liberdade de Imprensa. O pior território foi o Turquemenistão, seguido da Coreia da Norte. Entre os países do índice, existe uma grande variedade de liberdade de imprensa, que varia de liberdade quase perfeita a assassinatos ordenados, sequestros, torturas e intimidações. A China, por exemplo, está catalogando seus cidadãos por meio da internet, seguindo um modelo opressivo de uma “nova ordem mundial da mídia”, colocando as mídias sociais e as fontes de informação sob controle total do Estado.

O problema de deslegitimar notícias reais e descartar fatos é que as reportagens neutras são abandonadas, e níveis variados de atividade anti-imprensa são justificados. O ex-senador norte-americano John McCain já advertiu que “quando você olha para a história, a primeira coisa que os ditadores fazem é desligar a imprensa”. O uso do termo “notícias falsas” deu a políticos como Nicolás Maduro na Venezuela, Víctor Orbán na Hungria e Rodrigo Duterte nas Filipinas uma ferramenta para censurar a mídia e a população em seus respectivos países.


Dados e imagem: RSF

O assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em outubro de 2018 na Turquia, e a misteriosa queda da sacada que matou o repórter  russo Maksim Borodin em abril do mesmo ano são exemplos recentes de restrição à liberdade de imprensa. Enquanto isso, o presidente turco Recep Erdoğan compromete ainda mais a liberdade dos profissionais da informação ao publicar uma declaração que proíbe “reportagens e comentários críticos sobre o ataque militar da Turquia ao norte da Síria”. Essas restrições, de acordo com o site jornalístico Bianet,  visam intimidar e silenciar a mídia, uma vez que cerca de 78 profissionais estão sofrendo processos no país. 

Diferentemente dos jornalistas norte-americanos no Exterior, repórteres locais que atuam em regimes autoritários sofrem por não receber apoio de um Estado liberal.O dilema é: os locais onde o jornalismo é mais perigoso são também aqueles em que ele é mais necessário. Minar a liberdade de imprensa não é apenas um perigo para os jornalistas, mas também para a população, uma vez que a ausência da primeira gera  omissão de informações com olhar crítico, a corrupção é ocultada e, em casos como a crise de Rohingya, justifica o genocídio.


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*Laura Hülsemann é alemã e estudante de graduação em Relações Internacionais na Leiden University (Holanda). Atualmente, realiza intercâmbio junto ao IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UFRGS e mantém uma coluna sobre assuntos internacionais no Humanista durante o segundo semestre de 2019. Contato: laurahuelsemann@gmail.com

 


EDIÇÃO: Caroline Silveira

FOTO DE CAPA: Jansen Romero/Manila Bulletin


 

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