Editor do The Intercept Brasil fala sobre os desafios do jornalismo atual

Alexandre de Santi destaca a importância da #VazaJato e fala sobre o relacionamento jornalista e fonte, bem como os recentes ataques aos profissionais da área

Vitória Pinzon / #EntrevistaHumanista

Na última quinta-feira (17), a Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS) foi palco da palestra “A fonte não fala por acaso: jornalismo independente e Vaza Jato”, ministrada pelo editor do The Intercept Brasil (TIB) Alexandre de Santi. Formado pela UFRGS em 1999, o jornalista tem passagem por diversos veículos de comunicação, como Zero Hora, Rádio Bandeirantes, Rádio Gaúcha, ClicRBS e Terra. 

Além de cobrir a palestra, o Humanista também aproveitou a oportunidade para conversar com o jornalista sobre os temas discutidos no evento, como o relacionamento jornalista-fonte, os recentes ataques aos profissionais da área e o modelo de negócios do TIB. Confira! 


Alexandre de Santi

1) Qual o balanço do processo da #VazaJato até aqui? Vocês ainda têm conteúdo guardado? Se sim, quando e como vocês pretendem trabalhar isso?
O balanço é ótimo para o Intercept, nos deu uma exposição gigantesca. Quando recebemos o material, a gente tinha tanta coisa para fazer, que nem paramos para projetar a repercussão que isso podia dar. A gente sabia que era algo que ia chamar a atenção, mas não tínhamos ideia que ia ser algo que teria uma repercussão internacional. Então, obviamente, foi uma cobertura muito bem sucedida. 

E sobre se ainda temos conteúdo guardado, não é que tenhamos ou não. O que acontece é que o arquivo é gigantesco. Leva tempo para ler tudo, entender o que está ali e analisar se aquilo – sejam diálogos ou arquivos -, possui interesse público. Na verdade, a maior parte do nosso tempo a gente passa avaliando esse material, e muita coisa acaba não justificando uma publicação. Então, sim, é possível que nos próximos meses, ou até anos, ainda existam matérias da #VazaJato, mas não é como se a gente estivesse guardando esse material, como muitos fazem parecer, e publicando baseados numa estratégia. 

2) Qual você diria que está sendo/foi a importância desse trabalho do Intercept no cenário político e jornalístico do país?
Acredito que eu não seja a pessoa certa para fazer essa avaliação, acho que alguém externo ao portal é que deveria dizer. Nós ali no Intercept estamos simplesmente fazendo o nosso trabalho. Mas uma coisa que se pode dizer sobre o cenário político é que, desde que essas mensagens começaram a sair, houve um aumento do percentual de brasileiros que acham que a Operação Lava-Jato cometeu abusos, acho que esse número já chega a 60%. Nesse sentido, acredito que foi um tremendo feito sim, ter conseguido realizar uma cobertura que teve tamanho impacto, que fez as pessoas discutirem sobre o assunto – ainda mais em uma era em que a comunicação está tão fragmentada, em que as pessoas se informam através de um número incontável de fontes, legítimas e ilegítimas.

No que se refere ao cenário jornalístico, sabemos que o jornalismo vive uma crise econômica e de credibilidade institucional no mundo inteiro. Mas a parte econômica, em especial, faz com que existam menos profissionais experientes dentro das redações e que os recursos para fazer viagens e grandes investigações sejam cada vez menores. Isso acaba por dificultar bastante o trabalho dos jornalistas investigativos. O período da Operação Lava-Jato facilitou, de certa forma, o trabalho de produzir conteúdo de impacto sem precisar fazer uma grande investigação. O Ministério Público, por muitas vezes, acabava por entregar pronta a matéria, de uma forma que – pela falta de tempo e recursos – tornava impossível questionar muito o que era dito. As investigações acabavam por ser as responsáveis por pautar a narrativa da imprensa. Nesse sentido, acredito que o impacto da #VazaJato no cenário jornalístico foi justamente o fato dela ter feito muita gente colocar a mão na consciência e refletir se a adesão à narrativa imposta pelo Ministério Público não foi excessiva. Para mim, pelo menos, o grande problema foi esse –  o espaço que foi dado a delações premiadas que ainda não haviam sido aceitas pela justiça, que não tinham provas suficientes para uma acusação.

3) Relacionando com o tema da sua palestra “A fonte não fala por acaso”, como você explicaria para o público a importância da confidencialidade da fonte?
Bom, não é à toa que esse princípio faz parte da Constituição, está no Artigo 5. Isso é justificado porque, às vezes, uma pessoa presencia alguma irregularidade, mas isso coloca ela em uma posição perigosa, em que ela pode ser processada ou perseguida por ser testemunha. A Constituição, na verdade, fala que a confidencialidade é para a profissão, não especificamente para o jornalismo. E isso é importante para que possamos garantir que, em uma reportagem, o jornalista não precise revelar esse nome. Se não fosse assim, as pessoas nunca se sentiriam à vontade para falar.

4) A recente divulgação da densidade do Concurso Vestibular UFRGS 2020 chamou a atenção do Humanista para o número relativamente baixo, se considerados os anos anteriores, de candidatos por vaga no curso de Jornalismo. Tu relaciona isso com a atual falta de credibilidade da profissão?
Acho que esse problema é muito mais econômico do que algo relacionado à credibilidade da profissão. O que está acontecendo é que o jornalismo paga mal. É difícil, para um jovem que está prestando vestibular, imaginar um futuro, uma carreira em uma profissão que enfrenta uma crise econômica como a atual.

5) Em vista dos recentes ataques a jornalistas, existe alguma medida sendo tomada pelos veículos para se proteger contra isso?
Acho que os veículos estão tomando diversas medidas. O tipo vai depender da qualidade dos ataques. Há lugares muitos piores do que o Brasil quanto a isso, onde o problema é muito mais judicializado, os jornalistas são muito mais processados. Ou lugares onde o número de mortes de jornalistas é muito mais elevado, como no caso do México, há alguns anos. No Brasil, temos mais casos de assassinatos de jornalistas em cidades do Interior. Enfim, cada lugar tem o seu modo de pressionar a imprensa livre e, consequentemente, as medidas que os profissionais irão tomar para se defender vai depender muito disso. 

O que me parece é que as entidades da classe jornalística se fortaleceram bastante nos últimos anos. Por exemplo, a ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) tomou uma importância imensa, em defesa dos direitos dos jornalistas, que antes ela não possuía. Há décadas que não se via a classe tão organizada.

6) A respeito de parcerias com veículos mais tradicionais, qual a postura do Intercept em relação a isso? Como se dá essa relação?
As nossas parcerias com outros veículos foram feitas por alguns motivos. Primeiro, no projeto da #VazaJato, como o arquivo era muito grande, achávamos que iria demorar muito tempo se dependesse apenas da nossa equipe, para que conseguíssemos dar vazão a esse conteúdo. Pensávamos que iríamos perder uma janela de oportunidade, das pessoas que estavam muito interessadas naquilo. Não teríamos “braço” para publicar na velocidade do interesse das pessoas. Foi dessa necessidade que surgiu a parceria, em um primeiro momento, com a Folha de S.Paulo e, depois, com outros veículos que foram surgindo.

Além disso, também levamos em consideração que muitos outros veículos fizeram coberturas mais intensas sobre a Operação Lava-Jato do que o Intercept. Existem muitos detalhes nas conversas dos procuradores que não saberíamos dizer o significado, precisávamos de especialistas. Foi em busca desses “outros olhares” que decidimos nos abrir para as parcerias. Outro motivo importante foi a necessidade de uma maior proteção institucional. Se tivéssemos publicado todo o conteúdo sozinhos, também enfrentaríamos sozinhos as críticas. 

7) Iniciativas de jornalismo independente como o Intercept podem ser um caminho para reagir à “crise” do jornalismo?
Sem dúvida. Por um lado, acho que não dá para pensar no Intercept como “o modelo” para o futuro do jornalismo, acho que existem inúmero modelos que podem ser tentados. O que a gente se acostumou a pensar é que existe apenas um jeito de fazer e/ou financiar o jornalismo, e acho que não, que vários modelos diferentes podem vir a dar certo. Nesse sentido, acho que a experiência do Intercept pode servir de inspiração para outras iniciativas semelhantes, pode ajudá-las a se fortalecer.  

8) Como alguém que já passou por diversos veículos, em quais aspectos você diria que o Intercept se diferencia de uma redação mais tradicional?
A redação do Intercept se diferencia, acima de tudo, pela liberdade editorial que a gente tem. Sempre digo que é uma liberdade quase desconcertante. Não temos uma estrutura corporativa muito grande, ou seja, temos pouquíssimo chefes, poucas pessoas acima de nós na hierarquia. Não temos preocupações como conflitos de interesses, em sua maior parte, econômicos com empresas que nos sustentam. Não temos nada disso. 

Outro ponto é a nossa redação jovem – eu sou a segunda pessoa mais velha da redação. A maior parte do nosso time é composto por gente com menos de 30 anos. É uma juventude muito mais combativa e muito mais adaptada ao digital. Nosso grupo também é bastante diverso, temos pessoas de várias partes do país trabalhando conosco, pessoas de múltiplas etnias e pessoas da comunidade LGBT. Isso é muito importante, porque nos dá uma pluralidade de pontos de vista que talvez não exista em outros lugares na mesma proporção.

9) Como ex-aluno da fabico, você teria alguma mensagem de incentivo paras os futuros estudantes de jornalismo?
A mensagem que tenho passado adiante para os estudantes talvez não seja a mais otimista. A verdade é que muitos dos alunos que se formam na profissão atualmente vão acabar trabalhando com outras coisas, e não com jornalismo. Foi assim com a minha geração também. Os motivos para isso são todos aqueles que a gente já abordou antes: os baixos salários, a falta de recursos das redações, os ataques, e por aí vai. Mas a mensagem que deixo de incentivo para esses alunos que escolherem seguir no jornalismo é que, muito provavelmente, nunca ele se fez tão necessário quanto agora. Ao mesmo tempo que enfrentamos uma crise como não se via igual em décadas, acredito que o momento é uma oportunidade de ouro, tanto para inovar na profissão, quanto para revelar aquilo que aqueles que detêm o poder – político ou econômico – não gostariam de ver relevadas.


FOTO DE CAPA: Vitória Pinzon/Humanista

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