A história do ex-detento que se transformou em guia de turismo e viaja o mundo

Karolaine Leão e Tamires Rodrigues

Márcio Viana, 40 anos, é um exemplo de que a ressocialização dá certo. De família humilde, ele perdeu os pais quando tinha nove anos. Foi criado pela avó e pela tia. Nunca lhe faltou nada. Entretanto, na adolescência, sentia carência de estar inserido em algum grupo e ser aceito. Foi quando ele se envolveu com o tráfico de drogas. Com o tempo, ao perceber como o dinheiro era fácil, pediu aos traficantes que lhe fornecerem drogas para vender. Por esse motivo, ganhou visibilidade, inclusive da polícia, e foi preso. 

Viana conta que, quando ingressou no sistema prisional, o apresentador Alexandre Mota, do programa Balanço Geral, da Record, fez diversos comentários sobre ele. O que lhe fez sentir com vergonha da sociedade. Mas, por causa da opinião negativa, quando chegou ao então Presídio Central foi bem recebido pelos presos, que consideraram as críticas exageradas. Márcio foi levado para uma cela onde tinha uma facção. “É um mundo à parte e fui entender o porquê chamam de crime organizado”, diz, ao perceber que não era o seu lugar.  “Lá é muito difícil buscar uma melhora, mas alguma aconteceu que me fez querer mudança desde lá dentro”, complementa. Mas a alteração efetiva só aconteceu na quarta vez em que foi detido.

Certo dia de visitas – Viana optou por não receber visitas, com o intuito de não compartilhar o local, precário, com os familiares -, estava escorado no muro observando a todos a sua volta, quando no final de um culto no pátio uma senhora veio na sua direção e entregou uma bíblia. Ele lembra que ela disse que o achou triste e sozinho e que aquele livro poderia ser sua companhia. “Quando abri, nem sei as palavras que estavam ali, mas me passou uma mensagem: seguir o caminho reto, o que limpará as manchas da tua mão. Essa frase ficou muito forte na minha cabeça”.

Depois do acontecido, soube da existência de um projeto de desintoxicação de detentos que surgiria em breve na Galeria E1, onde não haveria superlotação e seria tratado como humano. Inscreveu-se no projeto. Em 1º de maio de 2011, foi chamado para participar. A data é marcante na vida do ex-detento, por ser o aniversário da sua mãe. Foi um sinal, segundo ele. Alocou-se na Galeria E1 e fez parte da primeira turma de 21 ingressantes do projeto Luz no Cárcere. Passou três meses no projeto e ganhou liberdade em 28 de julho do mesmo ano. Ao sair da prisão, procurou a família e pediu ajuda, desligou-se da facção e não deixou dívidas. Ele recorda que quando foi falar sobre sua decisão, os próprios faccionados comentaram que ele não devia estar ali, já que não era do crime e tinha um bom coração. Na época, Viana trabalhava e estudava.

O ex-detento acreditava que por ter feito os três meses de desintoxicação e ter se desligado do grupo estava curado. A tia dele, que já havia procurado ajuda no projeto Amor Exigente – que auxilia familiares de dependentes químicos-, insistiu para que ele seguisse um tratamento. No começo, ele foi resistente com as exigências da sua tia em buscar tratamento, mas acabou cedendo. A única contraproposta dele era ir para um lugar que não tivesse cunho religioso.

Em 15 de agosto de 2011 se internou. Foram 12 meses no tratamento. Durante o período,  percebeu os seus defeitos e suas qualidades. Passado o tempo, foi direto para um programa de reinserção social, em que ficou por um ano. No local, trabalhava durante o dia e ganhava ajuda de custo e alimentação. Neste programa, voltou a lidar com dinheiro, ter rotina e atividades para cumprir. O programa também despertou o interesse de Viana pelo conhecimento. 

Em 2013, cursou técnico em Informática no Senac-RS. Por conta do curso, cumpre o quadro de empregados em uma empresa de soluções de informática. Certo dia, viajou para fazer rapel no Viaduto 13 – entre os municípios de Vespasiano Corrêa e Muçum -, no Vale do Taquari, o que despertou o seu interesse também em turismo e isso o levou a entrar na graduação. Hoje, é licenciado para guiar grupos em toda a América Latina, trabalha em mais de uma agência e já viajou para vários lugares fora do Brasil. O sucesso como guia de turismo levou Viana a abrir, há menos de um ano, sua própria agência. Mesmo com pouco tempo, já tem retorno do seu investimento em estudos. “Egresso bom, é egresso socializado e gerando economia para o país”, comemora. 

Márcio é a prova de que projetos de ressocialização mudam as vidas de ex detentos.

O ex-presidiário também conheceu o projeto Direito no Cárcere e teve interesse em ingressar como voluntário. Ele contou sua história para a coordenadora e começou a ajudar de forma ativa. Faz cinco anos que atua no grupo. Por conta disso, voltou a frequentar a Cadeia Pública. Ele enfatiza a importância da participação no projeto:  “Sou um exemplo próximo que passou pelo que eles estão passando. Muitas vezes, é mais fácil o ingressante se abrirem comigo do que com uma psicóloga.” Toda vez que visita o local, sente-se útil. O trabalho é uma forma de cumprir com o compromisso que ele fez consigo e de ajudar os outros. “De uma coisa, sei: não quero voltar para cá. Viagens, natureza, animais, esporte radical e liberdade. Essas são minhas paixões.”


FOTOS: Arquivo Pessoal

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *