Os seres humanos por trás dos números

#OmbudsmanHumanista atenta às dificuldades enfrentadas pelo jornalismo e pelos direitos humanos causadas por um poder público falho

*Clóvis Malta

Muitos dos melhores trabalhos colocados à disposição do público no portal Humanista/Fabico em outubro no meu período de análise – o posterior à publicação do texto da colega jornalista Carla Dutra – tratam basicamente das consequências enfrentadas pelos brasileiros devido à falência do poder público. Direitos humanos saem feridos quando parte da costa em Estados do Nordeste fica tomada por óleo, quando o Estado ignora a importância da ressocialização de presos para atenuar a superlotação em presídios, quando agressões por parte da mídia à infância ficam impunes e quando jornalistas são silenciados ou o trabalho realizado por um veículo como The Intercept Brasil não ecoa o suficiente nas instituições.

Como essas falhas viraram paisagem, pois algumas só estão mais evidentes, é sempre importante uma reflexão, pelos Humanistas, sobre novas formas de expressarem seus conteúdos. O pertinente editorial sobre a tragédia ecológica no litoral nordestino, por exemplo, não ganharia mais contundência ainda se começasse pelos dois últimos parágrafos, muito bem posicionados? O restante é predominantemente fato, e poderia ser encadeado no texto mais como forma de situar o leitor, não como informação.

(Dos temas importantes do período, aliás, faltou algo sobre a efervescência latino-americana.)

A excelente reportagem de Karolaine Leão e Tamires Rodrigues sobre o sistema prisional, com base numa cadeia que teve o nome alterado, mas não sua situação de calamidade, também suscita um formato desafiador. Os dados de superlotação são importantes, por permitirem comparações estatísticas, mas uma descrição do que o total significa de gente convivendo no mesmo exíguo espaço físico de uma cela, por exemplo, não teria o efeito de facho de luz sobre o horror? Quem, entre os defensores do encarceramento sem limites, se sente à vontade imaginando alguém de suas relações numa situação assim?

Estatísticas são relevantes no jornalismo, mas números nem sempre conseguem expressar bem o que temos de mais humano, ou direitos sonegados nessa área. No caso da reportagem, o emocionante relato do ex-prisioneiro ressocializado funciona como essa luz, apontando saídas. Uma descrição do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, por exemplo, citado na corretíssima reportagem de Laura Hülsemann, talvez sensibilize ainda mais do que gráficos e quadros sobre o total de colegas presos e desaparecidos. Os números são chocantes, mas o caso é brutal.

Na entrevista ao Humanista, Alexandre de Santi, editor de The Intercept Brasil, mostra-se um tanto pessimista com o futuro da profissão. Sobram razões para isso, mas o jornalismo sobreviverá, principalmente se não desistir de recorrer continuamente à criatividade, que os bravos Humanistas fabicanos têm de sobra.  


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*Clóvis Malta é jornalista formado pela Fabico/UFRGS e tem 45 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como Diário de Notícias, Folha da Manhã, Revista Amanhã e Zero Hora (onde atuava como editorialista). Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: clovismalta@gmail.com.

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