Como negros estão lutando por mais representatividade na política

Na semana da Consciência Negra, Humanista conversa com o estudante Pierre Tazzo sobre a participação de jovens negros na política estudantil.

Andrielle Prates / #EntrevistaHumanista

O Brasil elegeu milhares de políticos há pouco mais de um ano. Presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Precisamente, 1.790 homens e mulheres se elegeram. Sabe quantas pessoas negras ou pardas? Apenas 77, o que representa 4,3% do total. E esse número nem poderia ser muito maior porque negros e negras sequer têm o direito de concorrer em condições de igualdade: somente 10,7% das candidaturas em todo o país foram de autodeclarados pretos. Os números são de levantamento produzido pelo Congresso em Foco, ainda em 2018, e chamam a atenção para a longa jornada de combate ao racismo estrutural que os brasileiros ainda tem pela frente.

No contexto da semana da Consciência Negra, o Humanista conversou com Pierre Tazzo, 19 anos, que faz Ciências Sociais na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), membro do órgão que representa os interesses dos estudantes do curso. Ele é um dos oito negros entre os 23 membros do CECS (Centro de Estudantes de Ciências Sociais) e fala sobre o cotidiano da política estudantil e os desafios frente ao ainda triste cenário de desigualdade social que o cerca.

O Brasil é o país que concentra a maior população negra fora do continente africano. São pessoas que ganham menos que brancos, trabalham mais e morrem mais: segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais da metade dos brasileiros. E a representatividade, que poderia acelerar o combate a essa desigualdade por meio de políticas públicas, onde fica? Uma pergunta que começa a ser respondida no dia a dia da vida acadêmica. Confira!


Pierre Tazzo, 19

Qual é a tua relação com o CECS (Centro de Estudantes de Ciências Sociais)? 

Desde os 16 anos, quando eu me assumi LGBT, eu tenho uma relação pública, notória e que cada vez mais toma o sentido da minha vida, que é a busca pela transformação da sociedade. Essa relação, me colocou num movimento estudantil secundarista, em São Paulo, em 2015 e 2016, nos anos das ocupações. Essa minha relação com a transformação social, com os meus locais de vivência, que é o centro estudantil e a Universidade, faz também com que eu busque a necessidade de me organizar com pessoas como eu, pra que a gente consiga estudar como se dá a estrutura da escola e da sociedade, já que a escola é consequência de como a sociedade se organiza. Então, a minha relação com o CECS parte muito de eu ter vindo do movimento estudantil e seguir acreditando na transformação social.


Qual é a importância dos estudantes negros participarem das políticas estudantis? 

A importância de participar do CECS tem justamente a ver com a relação de aprender uma forma de vivência e de compreender a sociedade de uma forma mais coletiva. Pra mim é a parte mais importante da política estudantil e o CECS, pra mim e pra outras tantas pessoas, é uma forma alternativa de um espaço onde nós, como estudantes, vemos que temos potencial para produzir nossas vivências a partir da nossa auto organização. Isso pra mim é extremamente importante: a auto organização dos estudantes, tanto para relação e produção de identidade coletiva das Ciências Sociais, quanto para a compreensão do mundo em que a gente vive e também para transformação desse mundo que estamos compreendendo um pouco melhor nessa trajetória.


Sabendo que em uma sociedade de raízes negras, a política brasileira é representada, em sua maioria, por pessoas brancas. Como tu enxerga essa realidade dentro da política estudantil? 

De 23 integrantes do Centro, pelo menos 8 são negros. Dentro da política estudantil do CECS nós não queremos apenas representar os estudantes das Ciências Sociais, nós somos uma gestão aberta, pois não queremos que os estudantes do curso nos vejam como representantes, mas sim que a gente consiga com que essas pessoas conquistem sua auto representação, cada uma delas. Não acreditamos em uma política estudantil que seja representativa, acreditamos em uma política estudantil que seja auto representada, de modo a convencer cada vez mais pessoas a estarem no coletivo e no espaço do CECS, como uma forma de se auto representar para que façam aquilo que elas pensam e sonham, ao invés de esperar de outras pessoas. Então a gente luta por pela construção de uma subjetividade nova.


De que forma as políticas estudantis refletem na política brasileira? 

Cada espaço, cada cultura tem a sua especificidade e é claro que a política estudantil não está atomizada, ele tem relação com a sociedade em que a gente vive. Então, pra gente pautar transformação social, conjuntura nacional, governo Jair Bolsonaro e etc., tem a ver com o nosso cotidiano, porque afeta o nosso cotidiano.Tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima. A gente acredita que cada passagem em sala e diálogo que a gente faz e cada estudante que a gente conversa, que se aproxima do CECS, acreditamos que isso também é uma parte extremamente importante para que a gente consiga pautar uma nova cultura política no país. 


Partindo da ideia de que o CECS é composto majoritariamente por pessoas brancas, existe uma política interna voltada à iniciativas para aumentar a participação dos jovens negros? 

Pelo menos 8 pessoas da gestão são negras e isso é uma minoria, a qual reflete o estado em que estamos inseridos, a Universidade que a gente tem e, também, na nossa forma de organização de alguma forma. Mas a nossa busca por superar essa questão é extremamente importante e vai de encontro com a nossa sociedade racista. As pessoas negras do nosso centro acadêmico, tanto as da nossa organização que é meramente burocrática, quanto as das nossas práticas e atividades. Nós -pessoas negras- somos reconhecidos como pessoas do CECS também, nós estamos à frente do coletivo, pensamos, produzimos enquanto CECS, estamos em espaços representando o centro e a Ciências Sociais.

A nossa organização burocrática prioriza as pessoas negras. Quando o Centro precisa ir em algum lugar conversar, que sejam as pessoas negras que falem pelo CECS. Na programação do Novembro Negro nós fizemos atividades, claro, pautando as questões de classe, raça e, ainda, toda a nossa luta a favor da permanência e da ciência. Cada debate que a gente faz permeia as questões raciais, já que cada relação constituída no Brasil atravessa essas questões. Assim, nós compreendemos que não é pontual pra nós falar sobre raça, não é só sobre atuar no novembro, mas é sobre refletir em cada uma das nossas ações, sobre o racismo, sobre uma sociedade estruturalmente racista.


A falta de mais vozes negras na política do CECS pode refletir nas Ciências Sociais? 

Não acho que o CECS reflete nas Ciências Sociais, porque simplesmente, uma sociedade racista, onde pessoas foram escravizadas a partir do seu fenótipo negro, pra mim faz com que essa sociedade reflita racismo, em que cada relação institucional, simbólica, pessoal e subjetiva, qualquer uma dessas relações vai permear racismo, em todas as estruturas da sociedade, inclusive dentro da universidade, onde infelizmente a população negra precisa de cotas para ingressar, felizmente ela existe, mas a gente compreende que isso não é o suficiente, então essa política é muito importante para que pessoas como eu ingressam em universidades. Porém, precisamos de políticas que impactem todo o processo civilizatório de sociedade. Então pra nós a sociedade, a partir da sua história, a partir da sua cultura, reflete racismo e ele vai se reproduzir em cada uma das suas instituições e organizações, seja da instituição UFRGS ou seja do coletivo de Estudantes de Ciências Sociais. 


FOTO DE CAPA: Arquivo Pessoal

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