O jornalismo com a mão na consciência

#OmbudsmanHumanista ressalta a cobertura especial sobre a Semana da Consciência Negra

*Clóvis Malta

Que grande momento esse do portal Humanista, da Fabico/UFRGS, ao aproveitar a data dedicada à consciência negra para escancarar, com material jornalístico de extrema qualidade e muito bem encadeado, o quanto os brasileiros demoraram a se livrar da escravidão, mas se mantêm aferrados ao preconceito. Os acertos começam pelo editorial, que se posiciona do começo ao fim com a firmeza esperada em textos opinativos: “Como veículo jornalístico especializado em Direitos Humanos, o Humanista defende radicalmente a diversidade cultural, de gênero e de raça e etnia, e repudia a desigualdade racial e social”. Palmas para todos, assobios e muito barulho, pois merecem.

Oliveira Silveira, citado na cobertura, denuncia em versos uma situação de “Negro no porão/ branco no convés”, presente até hoje nesse imenso navio negreiro que é o Brasil. No Rio Grande do Sul, particularmente,a sociedade é ainda mais demarcada pela divisão de classes baseada num parâmetro dissimulado, mas
evidente: a cor da pele. Quanto mais escura, menor é o acesso à educação de qualidade; maior é a desigualdade de renda; mais vezes o cidadão é empurrado de mãos para cima contra o muro, para a periferia, sem infraestrutura, sem segurança e sem facilidades para atendimento de emergência na área de saúde.   

Nessa condição de chaga estrutural, não surpreende que o racismo esteja impregnado também na linguagem, de forma tão natural, que já não nos damos conta – até mesmo no jornalismo. Não basta esperar que o setor público aja, no seu ritmo lento, contra essas deformações, a própria sociedade precisa sair à frente. 

O Humanista faz isso com uma abordagem muito adequada ao mostrar a luta dos negros por mais espaço na política e nas universidades, a maior incidência de feminicídio, a produção cultural, incluindo obras literárias sobre o tema e manifestações como o slam, as questões legais e religiosas. Os trabalhos valem-se tanto de textos quanto de fotos, podcast e programa de rádio. Tudo tão bom que chega a encobrir o restante da produção do mês, fato normal quando há grandes coberturas.

O oportuno alerta sobre negligência com a poluição do ar merece mais atenção dos organismos de fiscalização (dúvida: 496 ou 497 municípios gaúchos?). Muito bons o relato pessoal de Laura Hülsemann e a edição de Caroline Silveira sobre a questão da mulher na Argentina. Entre outros conteúdos importantes, destaco, finalmente, o #ConversaHumanista com Francisco Amorim, tratando de algo que nunca se mostrou tão relevante e, ao mesmo tempo, tão escasso no Brasil: jornalismo investigativo.

A próxima coluna será da colega jornalista Carla Dutra. Depois, eu volto. Até.


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*Clóvis Malta é jornalista formado pela Fabico/UFRGS e tem 45 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como Diário de Notícias, Folha da Manhã, Revista Amanhã e Zero Hora (onde atuava como editorialista). Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: clovismalta@gmail.com.

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