EDITORIAL | Hoje, é em Paraisópolis. Amanhã, onde será?

 Tragédia que vitimou nove jovens em São Paulo atualiza a necessidade de um debate urgente sobre política de segurança pública e acesso à cultura.

Favela de Paraisópolis (São Paulo, SP), madrugada do dia 1° de dezembro de 2019. Mais um baile funk conhecido como DZ7 ocupava ruas e vielas da comunidade. Por volta das 4 horas da manhã, eram cerca de 5 mil pessoas, quando o episódio que tirou a vida de nove jovens aconteceu. 

Sobre o acontecido, há o que diz a PM (Polícia Militar) e há o que dizem e mostram – por meio de vídeos compartilhados em redes sociais – os que estavam presente no evento. De acordo com as autoridades, em comunicado oficial, estava acontecendo uma busca por dois rapazes que teriam atirado contra a Polícia em uma motocicleta e que fugiram em direção ao baile ainda realizando disparos. Isso teria causado o alvoroço em que nove morreram, aparentemente, pisoteados. 

Já os frequentadores dizem não terem ouvido os disparos, somente viram que a PM havia cercado todas as saídas, obrigando as pessoas a correrem em direção a uma viela onde ocorreram as mortes. Isso em meio a bombas que a Polícia jogava para dispersar o público e acabar a festa por conta do barulho. De acordo com o líder comunitário de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, ações como essa da polícia, inclusive com o uso de bombas para dispersar os jovens, são comuns durante os finais de semana

Vídeos divulgados na internet mostram policiais fardados agredindo jovens já rendidos durante a confusão. Há chutes, pisoteamentos, tapas no rosto e uso indiscriminado de cassetetes entre as violências. 

A comunidade de Paraisópolis, com seus 100 mil habitantes, faz divisa com o bairro Morumbi, zona nobre da capital paulista. É uma zona de contrastes. Quantas festas não devem acontecer nos condomínios imponentes? Em quantas delas a Polícia entra como entrou no baile? Quantas delas acabam com nove mortos por uma ação mal coordenada? 

Em outubro do ano passado, o governador de São Paulo, João Dória, deu uma declaração dizendo que neste ano a Polícia iria atirar para matarEssa fala somente reflete a cultura que tem sido difundida no Brasil. Qualquer coisa que destoe do que é considerado “de bem” é invalidado e combatido; o corpo negro e o funk, por exemplo.  

O Baile da DZ7 é um dos poucos acessos a entretenimento e lazer para milhares de pessoas. É ele quem movimenta a comunidade durante os finais de semana. Carros ao som do funk, bebidas e drogas são presentes na festa que reúne até 30 mil pessoas em determinados momentos. Muitos dos que tentam argumentar e combater esse tipo de festas seguem a linha do funk como cultura inferior e defendem que drogas são um problema somente das favelas. 

O funk é criminalizado por ser parte da cultura periférica, jovem e negra, que querem que se confunda com a guerra às drogas. O que essa elitização do debate negligencia, no entanto, é que a parte mais lucrativa das drogas não está nas favelas, mas é ali que as pessoas têm suas casas invadidas, suas festas acabadas e muitas vidas são ceifadas, em nome de acabar com uma guerra que está, na verdade, em toda parte. 

Toda a solidariedade às famílias dos jovens – Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos; Eduardo Silva, 21 anos; Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos; Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos; Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos; Gustavo Cruz Xavier, 14 anos; Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos; Mateus dos Santos Costa, 23 anos e Luara Victoria de Oliveira, 18 anos – e um basta: que situações como essa não se repitam e que a juventude tenha chance de viver!

O acontecimento recente atualiza um debate que o Brasil dos prédios luxuosos do Morumbi insiste em negar, ao mesmo tempo em que se deleita com o que é produzido no interior de comunidades como Paraisópolis: acesso à cultura; violência e abuso policial; política de drogas. O Humanista, especializado em direitos humanos, segue vigilante, produzindo conhecimento sobre esses temas por meio do jornalismo. É hora da sociedade brasileira entender que as mortes causadas pelos índices alarmantes de criminalidade, que se abatem também sobre jovens brancos e de classe média – ainda que em menor número -, não são dissociadas desse debate. Amanhã pode ser tarde demais.                              


FOTO DE CAPA: C_Fernandes/iStock

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