Adotar ou apadrinhar? Nunca é tarde para começar uma família

Processo de apadrinhamento permite aos interessados na adoção conhecer crianças que não atendem ao perfil mais procurado; poder público incentiva adoção tardia.

Andielli Silveira

A gestação de Adriana Oléa durou quatro anos e começou quando ela percebeu que não conseguia engravidar, em 2014. Ela e seu marido, Fabiano Coimbra, começaram a frequentar um grupo de apoio espírita para quem estava tentando ter um filho. “Foi lá que eu entendi que podia ser mãe de várias formas”, lembra Adriana, que admite um pouco de preconceito com a adoção antes do contato com o grupo.

O casal se tornou um dos 5.880 pretendentes a adotar no Rio Grande do Sul e escolheu o mesmo perfil que mais de 90% escolhe: crianças de 1 dia até 4 anos e 11 meses. No entanto, das 634 crianças aptas a serem adotadas, 88% têm entre 11 e 17 anos. Essa é a faixa etária de Lucas, que foi apadrinhado por César Terres e Carlos Hoerlle quando tinha 16 anos, até pedir para ser adotado.

“Foi aí que caiu a ficha. Eu pensei, poxa, por quê não?”, conta César. O casal revela que nunca teria adotado se não tivesse apadrinhado primeiro, por falta de conhecimento e pela demora do processo de adoção. Casos como esse justificam a visibilidade que o Humanista tem conferido ao tema do apadrinhamento e da adoção: muitas vezes, o que falta é mesmo informação sobre esses processos.    

O apadrinhamento foi essencial para que César Terres e Carlos Hoerlle adotassem Lucas. Foto: Arquivo pessoal.

O apadrinhamento afetivo existe para que as crianças maiores de 8 anos que ainda não foram adotadas tenham convívio social fora da instituição de acolhimento, explica Maria Rosi Prigol, presidente do Instituto Amigos de Lucas, organização responsável pelo apadrinhamento no Rio Grande do Sul. “A adoção é consequência de uma paixão que acaba acontecendo entre afilhado e padrinho”, afirma. Desde 2002, 4.000 crianças já foram apadrinhadas – dessas, 52 foram adotadas. 

Mas, as duas propostas são bem diferentes. Os padrinhos recebem apenas um termo de responsabilidade especial, que permite levar o afilhado para casa nos finais de semanas e nas férias escolares. Adriana e Fabiano, na espera pela adoção, resolveram apadrinhar meninas gêmeas de 11 anos de idade. No início, conta ela, ficou “enlouquecida” pelas duas e queria adotá-las. “Tu cria um vínculo muito forte, tu vê a situação que elas tão e quer ajudar. Eu queria fazer tudo por elas e acabei dando expectativas”, admite. No entanto, no fundo, o sentimento ainda não era de mãe e filhas.

Esse apadrinhamento fez com que o casal mudasse o perfil, aumentando a idade para até 10 anos. “Tu vê que não precisa ser necessariamente um bebê ou um pequenininho, que tu pode nutrir esse amor, esse carinho e afeto por uma criança maior também, porque é algo que só vem”, explica Adriana. 

O processo não foi simples. Desde o dia em se que habilitaram para a adoção, Adriana e Fabiano esperaram nove meses apenas para ter o registro. Passaram por entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. Para mudar o perfil, foi mais um ano de espera. “Eu já achava que eles não queriam que a gente adotasse um maior. Eu fiquei furiosa porque ficavam questionando a nossa mudança. Vocês têm certeza? Por que uma criança mais velha de repente?”, desabafa.

Mas Adriana conta que depois entendeu a cautela dos profissionais, porque a adoção tardia é considerada ainda mais delicada. Os dois também passaram a aceitar crianças de todo o Brasil e com doenças tratáveis e então as ligações começaram. Do Sergipe, do Rio, de São Paulo, mas o casal ia gastar muito dinheiro viajando para fazer a aproximação e, então, resolveu esperar. 

César e Carlos não veem tanta diferença na adoção tardia: “É a mesma vontade, a mesma curiosidade, só que ele é um adolescente. E como todo adolescente, tem manias, tristezas, alegrias”. Os dois receberam muita força dos funcionários do abrigo na hora de adotar e tomaram essa decisão em conjunto, entre os três. Para o casal, o que mais mudou com a chegada de Lucas foi a rotina, que compartilhavam há 20 anos: “Éramos só nós dois e, de repente, tinha mais cueca pra lavar, mais prato pra secar. Teve uma mudança financeira também, porque adolescente come muito”, brinca César. “Nós nunca fomos pais e estamos aprendendo juntos a conviver em harmonia”, relata. 

A espera de Adriana e Fabiano resultou em uma ligação aqui de Porto Alegre: eles haviam sido sinalizados para uma criança do Lar Esperança. Os dois não perguntaram nada, nem idade, se era menina ou menino, só foram até o abrigo. Lá, receberam um álbum com algumas fotos de Denilson, que na época tinha 4 anos e 11 meses. O próximo passo era o casal fazer um álbum da família para mostrar ao menino. Da ligação ao primeiro encontro, no dia 3 de abril de 2018, passou uma semana. “Ele nos viu e já chamou de pai e mãe, foi muito emocionante”, relembram. 

O primeiro encontro de Adriana e Fabiano com Denilson aconteceu no dia 3 de abril de 2018. Foto: Arquivo pessoal.

“Lá no abrigo era bem legal, mas começou a ficar mais legal quando eu conheci eles”, conta Denilson. No começo, o menino sentiu falta da sua antiga casa e seus pais o levaram algumas vezes para visitar os “irmãos”, como ele chama as outras crianças do Lar. Adriana e Fabiano, que trabalham como técnicos de enfermagem no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, sentiram no dia-a-dia a responsabilidade de ter um filho.

“A gente trabalhava de noite e dormia o dia inteiro. No início, 7h da manhã o Denilson tava de pé do lado da minha cama esperando eu acordar. Agora nossos horários são regrados”, explica Adriana. Denilson seguiu com o mesmo acompanhamento psicológico que tinha no abrigo, o que, segundo eles, também ajudou na adaptação. O casal segue apadrinhando as meninas que, pelo menos uma vez por mês, passam um final de semana com eles. “Quando a casa tá cheia é uma folia só. O Denilson adora elas, chama de primas”, diz Fabiano. 

Quando estou indo embora, Denilson, agora com 6 anos, me chama e diz que eu esqueci de fazer a última pergunta. “E qual seria a resposta para essa última pergunta, afinal?”, indago, curiosa. “Que eu amo muuuuito eles dois”, declara, abraçando-os. Realmente foi a última, porque, depois desse momento, não havia mais nenhuma dúvida. 

Foto: Andielli Silveira.

Para incentivar a adoção tardia

O Tribunal de Justiça do Estado  em parceria com o Ministério Público e a PUC-RS  lançou, em agosto de 2018, um aplicativo de celular para os pretendentes já registrados no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). A plataforma Adoção, cuja criação foi pauta do Humanista, permite que os usuários acessem fotos, vídeos e cartinhas das crianças aptas a serem adotadas.

“As pessoas conhecem uma criança que se apresenta, que conta a sua história e eventualmente se apaixonam e flexibilizam o perfil desejado”, explica a juíza Nara Saraiva, da Coordenadoria da Infância e da Juventude do TJ/RS. Até agora, em decorrência do projeto, sete adoções foram finalizadas e nove sentenças estão em andamento. Diversas outras campanhas são realizadas, como o Dia do Encontro, o Adote um Torcedor, Tchê, o Busca Ser – todas as iniciativas resultaram, no período de um ano, em 21 adoções e 27 guardas em andamento. Para conhecer os projetos, clique aqui.

Desde 2009, o Instituto Amigos de Lucas realiza a busca ativa a partir da solicitação de juízes que não encontraram pretendentes para algumas crianças mais difíceis de serem adotadas, como as integrantes de grupos de irmãos ou com alguma deficiência.

A organização procura por interessados em grupos presenciais e de whatsapp, além de fazer um acompanhamento mensal pós-adoção. A busca ativa já uniu 440 crianças a famílias adotivas, sem nenhuma devolução. Rosi acredita que todos os interessados em adotar devem participar de grupos pré e pós-adoção.

“Eles precisam se preparar para as crianças reais que estão nos abrigos. Não importa a idade, todas vêm com marcas de um abandono. Na adoção tardia, principalmente, as crianças já têm demandas escolares e algumas deficiências de afetividade que precisam ser tratadas mais do que com as menores”, explica. Para ela, quem devolve uma criança deve ressarci-la através de pagamento de pensão e tratamento psicológico, além de ser expulso do Sistema: “quem faz test drive com criança não merece adotar”, enfatiza. 




FOTO DE CAPA: StockSnap/Pixabay

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