Os direitos humanos como religião

Em semana dedicada a celebração dos direitos humanos, Humanista relembra a história de Henry Sobel, o rabino que enfrentou a ditadura brasileira.

Andielli Silveira

Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e assassinado pela ditadura militar instaurada no Brasil. No entanto, os responsáveis por sua morte tentaram forjar um suicídio, colocando o corpo em uma suposta cena de enforcamento. Herzog foi levado para o Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo (SP), para ser enterrado na ala dos suicidas. 

Enfrentando os militares e rejeitando a versão oficial, o rabino Henry Sobel recusou-se a enterrá-lo no local determinado, pois, segundo ele, as marcas das torturas eram evidentes. Ali começou sua jornada em defesa dos direitos humanos, em meio a uma política autoritária, à censura e à repressão policial. 

E na semana que dedica à celebração dos direitos humanos, em alusão ao 71º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 10 de dezembro de 1948, o Humanista relembra um pouco da história do religioso falecido recentemente, em 22 de novembro, aos 75 anos, em decorrência de um câncer de pulmão.


Por uma democracia fraterna 

No dia 31 de outubro de 1975, uma semana após o homicídio de Herzog, Sobel, junto ao arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, e ao pastor protestante Jaime Wright, realizou uma cerimônia em homenagem ao jornalista na Catedral da Sé. O evento reuniu em torno de 8 mil pessoas que prestavam solidariedade e lutavam por justiça, tornando-se um marco no processo de redemocratização do Brasil. 

Os religiosos também se juntaram para reunir documentos e provas acerca da ditadura, denunciando repressões e torturas. O material foi publicado em 1985, no livro “Brasil: Nunca Mais”, símbolo da história dos direitos humanos no país.

Sobel nasceu em 9 de janeiro de 1944, em Lisboa, Portugal. Seu nascimento ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), época em que sua mãe e seu pai foram perseguidos por grupos nazistas. Desde pequeno, aprendeu a lidar com dificuldades, além de se solidarizar com os sofrimentos alheios. 

Quando criança, sua família se mudou para os Estados Unidos e, em 1970, ele se tornou rabino. Foi líder da Congregação Israelita Paulista e porta-voz da comunidade judaica no Brasil. Defendeu o pluralismo de religiões e de ideias, aproximando o Judaísmo de outras crenças. 

Caridade, diálogo, empatia: o rabino fazia uso das tradições e dos pilares da fé judaica como fundamentos da democracia e de sua própria vida. No entanto, apesar de toda a sua trajetória e dedicação, houveram tentativas de invisibilizar sua luta a partir de questionamentos sobre sua índole moral. Mas, nada apagará da História a sua busca pela consolidação dos direitos fundamentais de todos os humanos.


FOTO DE CAPA: Nilton Fukuda/Agência Estado

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