Uma conta que não fecha

Nesta edição da coluna, #OmbudsmanHumanista destaca a importância da informação no processo de adoção.

*Carla Dutra

Há muito tempo a conta da adoção não fecha. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há 5.880 pretendentes a adotar e apenas 634 crianças e adolescentes aptos, conforme mostra reportagem de Andielli Silveira. O problema é que 90% dos interessados querem crianças de até quatro anos e 11 meses, enquanto 88% dos meninos e meninas que podem ser adotados têm de 11 a 17. Mas, por que voltar a falar nisso, um assunto já tantas vezes abordado pela mídia? O próprio texto responde: “muitas vezes, o que falta é mesmo informação sobre esses processos”.

Matérias como “Adotar ou apadrinhar? Nunca é tarde para começar uma família” são importantes justamente por indicarem que há outros caminhos que não a adoção de bebês ou crianças pequenas. E, porque este é um trabalho de formiguinha, lentamente, com muita paciência, a situação pode
mudar. Infelizmente, tão lentamente que milhares de crianças passam a vida em abrigos.

Já na matéria “‘Sem vergonha’ e sem apoio público, comunidade LGBT+ celebra a diversidade em Porto Alegre”, senti falta de um contraponto da prefeitura. Talvez a repórter tenha tentado, sem sucesso,  mas aí faltou dizer isso na reportagem. O texto trata de uma taxa cobrada pelo Executivo para a realização da Parada Livre na Redenção, evento que já ocorre desde 1997. Talvez tenha deixado a desejar um pouco, também, ao não mostrar que o Executivo se envolveu em ao menos uma outra polêmica recente relativa à cobrança de taxas para utilização de espaços públicos. Em 2018, emitiu um boleto de R$ 180 mil para a realização da Feira do Livro na Praça da Alfândega. O resgate de outros casos ajuda a contextualizar e até a entender o problema. No caso da Feira do Livro, a cobrança repercutiu nacionalmente e a taxa acabou não sendo cobrada.

De Porto Alegre para Holanda e Bélgica. Que interessante, surpreendente e perturbante o texto da alemã Laura Hülsemann sobre a celebração do Pete Negro, naqueles dois países da Europa. Eu confesso que ainda não tinha lido nada a respeito nem ouvido falar sobre essa tradição de extremo mau gosto, para falar o mínimo. A coluna de Laura está rica em detalhes e muito bem contextualizada. Assim como também está muito bem contextualizada a #ExplicaçãoHumanista produzida por Júlia Flor a respeito do pacote anunciado pelo governador Eduardo Leite em novembro. A sociedade precisa entender o que está sendo proposto e, mesmo que com pouco tempo disponível (como acredito que tenha de ser para manter a atenção da audiência), a repórter conseguiu dar uma panorama geral de parte das mudanças. Missão nada fácil.

Também destaco entre as produções recentes a discussão do #ConversaHumanista sobre a cobertura das vitórias do Flamengo na Libertadores da América e no Campeonato Brasileiro. Especialmente, a colocação da repórter do portal, Gabriela Plentz, sobre o fato de programas como o Jornal Nacional exaltarem a saúde financeira do clube e ignorarem o fato de ele se recusar a fechar acordo com as famílias dos meninos mortos na tragédia no CT Ninho do Urubu em fevereiro. Gabriela, aliás, tem uma participação muito pertinente, questionando inclusive a questão da noticiabilidade que a própria imprensa impõe ao decidir as abordagens de suas pautas.


Mais #OmbudsmanHumanista

O jornalismo com a mão na consciência

Jornalismo também é feito de memórias

Os seres humanos por trás dos números

Ciência e (in)segurança

Quando o logotipo veste luto

Técnica, senso crítico e sensibilidade

Um exemplo louvável de educação midiática

A importância de surpreender o usuário

Inovação permanente e a busca do equilíbrio

Jornalismo hiperlocal, um serviço para a comunidade

O limite nem sempre preciso sobre notícia e opinião

Direitos Humanos da arte ao esporte

Da sílaba ao texto ou aos descaminhos

No caminho certo

Os direitos humanos e o caminho do meio


*Carla Dutra é jornalista formada pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e tem mais de 15 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como jornal A Razão, Jornal NH e Zero Hora; experiência também em assessoria de imprensa. Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: carladutrasilveira@gmail.com.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *