O autor, a obra: é possível separar?

Na “Semana dos Direitos Humanos”, Humanista reflete sobre escolha de Elizabeth Bishop como homenageada na Flip 2020 e Prêmio Nobel de Literatura 2019 para Peter Handke.

Vitória Pacheco / #CríticaHumanista

Duas escolhas no âmbito cultural literário marcaram de forma polêmica o final de 2019: a escolha de Peter Handke como ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e a poeta Elizabeth Bishop (foto) como homenageada da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, em 2020. Ambos os autores estão cercados de controvérsias em seus posicionamentos – principalmente políticos – o que gerou repercussões negativas e a discussão sobre se é possível separar o contexto histórico e o pensamento político, social e econômico dos artistas de suas obras.

Em outubro, o romancista e ensaísta austríaco Peter Handke foi anunciado pela Academia Sueca como o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2019 com a  justificativa de que Handke teve “um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana”. 

Entretanto, sua escolha foi marcada por diversas manifestações contrárias. Isso porque, o escritor apoiou abertamente a Sérvia durante os diversos conflitos na antiga Iugoslávia e também discursou no velório de Slobodan Milosevic, ex-presidente da Iugoslávia, acusado por crimes de guerra e genocídio. Milosevic era controlador das Forças Armadas do país quando ocorreu a sangrenta dissolução da Iugoslávia na década de 1990.

Nesse contexto, é importante lembrar que a premiação do Nobel de Literatura de 2018 foi cancelada após escândalo sexual envolvendo o fotógrafo Jean-Claude Arnault, que dirigia um projeto financiado pela Academia Sueca. Por isso, este ano, duas pessoas foram anunciadas: Handke como ganhador de 2019 e Olga Tokarczuk, como ganhadora de 2018. Mas a escolha, que deveria ser apaziguadora, acabou gerando ainda mais problemas.

Peter Handke recebeu o prêmio em uma cerimônia realizada em Estocolmo na última terça-feira. Na ocasião haviam alguns manifestantes e houve boicote dos embaixadores da Albânia, Bósnia, Croácia, Kosovo e Turquia à premiação. Mesmo com as inúmeras críticas, a Academia Sueca reafirmou que ele é um dos escritores mais influentes da Europa após a Segunda Guerra Mundial.

Protesto contra Prêmio Nobel de literatura para Peter Handke, em Estocolmo. Foto: TT News Agency/Stina Stjernkvist/REUTERS

A mais recente polêmica do meio literário trata-se da escolha da escritora estadunidense Elizabeth Bishop como homenageada da 18ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Além de ser a primeira pessoa estrangeira a ser homenageada pelo evento, Bishop apoiou o golpe civil militar instaurado no Brasil em 1964. Em uma carta ao amigo Robert Lowell, a escritora descreveu o golpe como “uma revolução rápida e bonita”.

E não podemos negar que Elizabeth Bishop foi uma importante poeta do século XX. A autora ganhou o Pulitzer de poesia em 1956, traduziu obras de escritores brasileiros, como Clarice Lispector, para o inglês e organizou diversas antologias. Além disso, a autora possuiu uma estreita relação com o Brasil. Morou aqui por quase 20 anos e teve um relacionamento longo com a arquiteta e urbanista brasileira Lota de Macedo Soares. A relação das duas foi retratada no filme “Flores raras”, de 2013.

Mas, a escolha da Flip não pode ser focada em quem foi Elizabeth Bishop, e sim no que representa homenageá-la no atual contexto brasileiro. Hoje, nosso presidente glorifica o golpe realizado em 1964 e o regime militar implantado logo em seguida, marcado pela censura, por perseguições, por exílios e pelas torturas. Neste ano, diversas ameaças de uma reedição do Ato institucional nº 5 foram feitas, como o Humanista apresentou em seu editorial – Ditadura nunca mais.

A Flip, assim como o Prêmio Nobel de Literatura, homenageiam autores em sua totalidade e não uma ou mais obras ou até mesmo características literárias particulares. Os artistas estão imersos em seu lugar e tempo e, por isso, seus discursos também deverão ser pesados no momento de tais escolha. Bishop e Handke produziram obras marcantes, mas embebidas com as vivências, contextos sociais e momentos históricos.


FOTO DE CAPA: Wikimedia Commons

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *