Minhas experiências com o jornalismo: seus perigos e suas possibilidades

Na última edição, coluna sobre assuntos internacionais analisa papel do jornalista e desafios da profissão a partir da experiência da intercambista que contribuiu com o Humanista no semestre.

*Laura Hülsemann

Eu estava acostumada a ter debates calorosos com meus amigos e ir a fundo em argumentações diversas, de todos os tipos – da política do mundo ao desenvolvimento internacional à filosofia ou à economia. Mas sempre que eu tive que escrever algo na universidade, era primeiramente uma peça acadêmica. “Não se atreva a colocar a sua opinião em um trabalho de pesquisa, basear o seu trabalho em conclusões de sua análise, e não se deixe influenciar por suas expectativas e opiniões pessoais”, foi isto que me ensinaram nos últimos dois anos de universidade, na qualidade de bacharel em Ciências em Relações e Organizações Internacionais.

Lembro-me quando estava escrevendo o texto sobre feminismo para o Humanista, e perguntei a uma amiga que estuda jornalismo se ela podia me ajudar a escrever. “Devo optar por falar de forma neutra sobre a situação legal na Argentina ou devo falar sobre as minhas experiências pessoais no país?” Sua resposta foi “que história você quer contar?”.

Eu fiquei pensando: se, por exemplo, 100 pessoas vão para a Argentina, todos vão contar uma história diferente sobre os direitos das mulheres e a igualdade de gênero no território. Pessoas diferentes com origens diversas percebem a realidade de maneiras distintas. Quem sou eu para escrever a minha percepção da realidade e fingir que é a única?

Por exemplo, você quer ler sobre o envolvimento da Rússia nas eleições dos Estados Unidos, então você vai à fontes como Russia Today, Al Jazeera, The Washington Post, Le Monde e The Intercept Brasil. Você vai ler sobre o mesmo evento, mas provavelmente vai ver várias percepções ligeiramente diferentes da mesma realidade. A verdadeira história provavelmente está em algum lugar entre todas estas versões. Um jornalista trabalha como um tradutor e um filtro – depois de pesquisar profundamente um tema, ele decide o que é importante e interessante o suficiente para ser escrito. Ao colocar esta informação em um artigo ele está colocando uma lente sobre um tópico.

Quando eu precisei escrever sobre um tema tão amplo como a imigração, eu encontrei este desafio. Onde eu começo? O que eu escrevo sobre? A base jurídica? O debate filosófico? Os desafios sociais? As implicações para a sociedade? A percepção pública dos cidadãos em diferentes países? A posição da ONU? Em que me baseio? Em artigos acadêmicos? Sobre constituições nacionais? Em outros jornais? Se sim, quais?

E se os jornalistas reconhecerem que o preconceito existe, que ele está integrado nas escolhas que fazem ao decidir o que incluir e o que deixar de fora? O viés de seleção está bem aí: eu escolho cujas vozes eu quero que sejam ouvidas, eu escolho quem eu cito e como eu lanço luz sobre um tema. Mas eu não quero manipular, eu quero informar – como eu faço isso?

É impossível expressar um ponto de vista e ser objetivo ao mesmo tempo, as duas formas se contradizem. No momento em que você toma um lado, você também, pelo menos em parte, rejeita o outro lado e não presta tanta atenção nele. Afinal, somos todos humanos, por isso nada do que dizemos, produzimos, escrevemos ou pensamos será objetivo.

Ao escrever o meu primeiro artigo sobre as alterações climáticas, tentei ser o mais neutra possível. Então busquei entender a base legal do tópico. Por exemplo: A quem pertence legalmente a Amazônia? É legal desmatá-la e queimá-la? Mas se você olhar para a questão jurídica você está ignorando um outro aspecto – o ponto de vista moral. Pode ser legal, mas está tudo bem em fazê-lo? Queremos que a floresta arda em chamas?

E quem realmente quer ler páginas e páginas sobre leis? Se este fosse o caso, as pessoas iriam diretamente nos mecanismos de busca da internet. É aí que o jornalismo se encontra. Jornalistas “estão tentando trazer sentido para a grande quantidade de informação que constantemente ilude a todos nós”. Mas as histórias precisam ser interessantes – longas o suficiente para que sejam compreensíveis, mas curtas o suficiente para que as pessoas permaneçam interessadas. Isso é problemático, porque a maioria das explicações são complexas e podem, portanto, simplesmente não ser interessantes.

O jornalismo também está preso no dilema de escrever para o público, de forma compreensível, sobre temas que podem ser extremamente difíceis de entender até mesmo para estudiosos. Imagine por exemplo, que eu quero escrever um artigo sobre uma nova maneira de curar o câncer. Não importa o quanto eu pesquiso sobre o tema, quantas pessoas eu entreviste e quantos estudos eu leia. Minha educação anterior de biologia está no nível do ensino médio. Quem é capaz de explicar melhor o processo de cura da doença? Um estudante jornalista ou um cientista que trabalha na área?

Agora, quando eu leio uma nova reportagem, aparecem muito mais “por que’s” em minha cabeça. Eu acho que este é um ponto que eu realmente preciso trazer: jornalistas são apenas pessoas, eles também cometem erros, eles também têm opiniões. O “poder da caneta” é enorme. Entrando no jornalismo com experiência em ciência política, fiquei surpresa com os perigos da desinformação, unilateralidade e simplificação em reportagens.

Todos sabemos que o papel de jornalistas é informar, e que é uma função essencial para a democracia. Eles são a nossa fonte de informação, o cão de guarda da sociedade. Eles trabalham como a verificação de medidas tomadas pelo governo e pela comunidade internacional, investigam e descobrem fraudes e corrupção. Sem dúvida, o jornalista é uma parte essencial para dar voz ao povo, para acompanhar os líderes mundiais, para filtrar a maior parte da informação para o público. 

Eu mesma aprendi a possibilidade de o jornalismo se oferecer para chamar a atenção para problemas que há muito deviam ser tratados como, por exemplo, a tradição do Black Pete. Mas eu também percebi os desafios de um bom trabalho jornalístico fazendo uso desta ferramenta, e estando ciente de suas armadilhas.


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*Laura Hülsemann é alemã e estudante de graduação em Relações Internacionais na Leiden University (Holanda). Atualmente, realiza intercâmbio junto ao IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UFRGS e mantém uma coluna sobre assuntos internacionais no Humanista durante o segundo semestre de 2019. Contato: laurahuelsemann@gmail.com.


EDIÇÃO: Caroline Silveira


FOTO DE CAPA: 6689062/Pixabay

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