SEXTANTE 54 | Charmosos e acabadas

Aos 50 anos, um homem ainda pode ser considerado um sex symbol. Por que existe o conceito de que a idade é sempre mais cruel com as mulheres?

Por Júlia Canella Flor

Em uma sociedade de aparências, existem pequenas injustiças que muitas vezes passam despercebidas. Já parou para pensar, por exemplo, como o gênero pode ser um fator decisivo para determinar se você é atraente ou não dependendo da sua idade? A partir dos 40 anos, começa a ficar mais difícil para as mulheres chamarem a atenção do sexo oposto; entretanto, o mesmo não parece ser uma regra para os homens. 

A masculinidade madura traz consigo a ideia de prosperidade, charme e sucesso, e homens de cabelos grisalhos conseguem ostentar tudo isso e ainda parecerem atraentes para as mulheres (em alguns casos, até mais jovens). Não é uma regra, mas basta pensar em vários exemplos – seja no mundo da moda, das celebridades do cinema hollywoodiano, ou até mesmo em situações mundanas do cotidiano – para se perceber que a meia-idade cai bem nos homens, mas nem tanto nas mulheres.


Na cor dos teus cabelos

Aos 52 anos, Sandra Maria Barroso nunca pensou duas vezes antes de investir na aparência. A veterinária aposentada é uma frequentadora assídua do Luminosité, considerado um dos salões de beleza mais elegantes do bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Para ela, o investimento nunca foi menos que óbvio. “Imagina se eu fosse parar de pintar o cabelo, ia ficar parecendo 20 anos mais velha!”, brinca.

As companheiras de salão, em suas respectivas cadeiras altas de frente para o espelho, não demoram em concordar. Ali elas são todas parceiras em sua luta contra o envelhecimento. Luísa Lima da Costa, com seus 48 anos, vai ao Luminosité pelo menos uma vez por mês para pintar de castanho as raízes grisalhas do seu cabelo. De quebra, aproveita para fazer as unhas e jogar conversa fora. “A gente não pode ficar assim, desleixada. Se eu pinto o meu cabelo, é porque eu gosto e me sinto bonita, e ninguém tem nada a ver com isso.” 

Sandra e Luísa acreditam que se manter jovem e bem conservada não é uma escolha, mas sim uma necessidade. E, para elas, não existe prova maior da idade do que uma cabeça cheia de fios brancos. Leo Bueno, cabeleireiro do Luminosité, reflete sobre a clientela do salão e chega à conclusão de que a maior parte dos seus frequentadores é, de fato, de mulheres mais velhas. “Temos muitas gurias também, mas, se fosse para dizer quais são as mais frequentes, acho que mulheres acima dos 40 ganham em disparada. Já homem, a gente quase não vê”, admite Leo. 

No cinema e na moda

A vida útil de um galã de cinema vai muito além dos seus 20 ou 30 anos. Em Era uma vez em Hollywood, filme mais recente do diretor Quentin Tarantino, Brad Pitt, 55 anos, e Leonardo DiCaprio, 45 anos, vivem – como de costume – dois personagens bonitões e cheios de vitalidade, enquanto contracenam com atrizes como Margot Robbie, 29 anos, e Margaret Qualley, 25 anos. Essa, na realidade, não deixa de ser uma cena bastante comum no cinema internacional: um homem pode sustentar o seu posto de galã por décadas a fio, enquanto grandes atrizes vão perdendo seus papeis de protagonistas conforme os anos avançam.

Em uma entrevista icônica para o jornal britânico The Guardian, Meryl Streep, hoje com 70 anos, reconheceu esse feitiço estranho que transforma atrizes mais velhas, depois de uma certa idade, em mães e conselheiras das verdadeiras protagonistas de um filme. “Quando eu tinha 40, me ofereceram três papeis de ‘bruxa’ em um verão. E eu pensei, ‘Ok, é isso aí. Você faz 40 anos e, oh meu Deus’.” E se até uma grande atriz como ela, que foi nomeada mais de 20 vezes ao Oscar, já sentiu essa diferença, não é difícil concluir que é uma trajetória relativamente comum entre as mulheres na indústria hollywoodiana. 

Como no cinema, a aparência e a juventude são vitais para uma carreira no mundo da moda, onde “ser visto” é um princípio básico da profissão. E, novamente, a vida útil de um modelo masculino supera a de uma modelo feminina em vários anos. Quando mais velhos, os homens tornam-se imprescindíveis para propagandas de perfumes e relógios, anúncios de cerveja ou de carros esporte. Mais uma vez a meia-idade masculina evoca um ar de dignidade e sucesso indiscutível. 

Eduardo Fonseca é diretor-executivo da Lance Models, uma agência de modelos porto-alegrense. Ele acredita que a ausência de mulheres de meia-idade na profissão seja um sintoma claro dos resíduos machistas da sociedade em que vivemos, e conclui: “Apesar de termos sim mulheres mais velhas que são modelos, dificilmente elas vão ser chamadas por uma revista de moda ou cosméticos para representar os produtos. É mais comum aparecerem como donas de casa testando produtos de limpeza ou mães de família num comercial de supermercado”.

Na vida que a gente vê

“Tem gente que dá a explicação biológica. Mas é claro que, na natureza, as fêmeas mais jovens vão ser sempre as mais atraentes, por estarem em idade de reprodução. Mas eu te pergunto: quem é que na sociedade atual vive em condição de natureza? Ninguém.” Assim diz a socióloga Acácia Maduro Hagen, que tem 59 anos e não vê nenhum problema nisso. Ela acredita que o verdadeiro problema está na sociedade que fez do termo “velho” um xingamento.
Com longas mechas brancas se mesclando aos fios negros, Acácia tem orgulho do seu cabelo. Ela acredita que, quanto mais velhas, as mulheres têm sim que se cuidar mais, mas por uma questão de saúde e não de estética. O segredo para a felicidade e o bem-estar talvez esteja mais ligado à aceitação do envelhecimento do que à tentativa de retardá-lo. A socióloga ainda arremata: “Velho grisalho é distinto. Por que eu com o meu cabelo branco vou ser outra coisa que não distinta também?”

No Japão e em outras culturas orientais, a idade avançada demanda respeito. Quanto mais velha é uma pessoa, maior a dignidade e a reverência que ela inspira nos outros. No Brasil, a terceira idade é uma condição digna somente de pena e descaso. E quem se aproxima da velhice só pode ser, portanto, alguém que se encaminha para o próprio Juízo Final.

“É engraçado ver esses comerciais de cosméticos”, Acácia comenta. “A propaganda é para um creme antirrugas, mas a modelo é uma garota com seus 20 anos e pele lisíssima. Mas o irônico é que é isso que as ‘coroas’ querem ver. Quando assistem à propaganda, querem ser iguais à jovem linda de 20 anos. Por outro lado, se fosse uma senhora igual a elas, ficariam indignadas com a comparação, não gostariam de ver uma velha num comercial de beleza.” A socióloga é categórica quando afirma que ainda mais surpreendente é o fato de que o poder de consumo está todo nas mãos de mulheres mais velhas, e a faixa etária mais representada na mídia continua sendo a juventude.

O estigma da velhice exerce um peso imenso na sociedade ocidental e afeta tanto os homens quanto as mulheres, mas isso não significa que a meia – e a terceira – idades não possam ser vividas com dignidade. Mulheres mais velhas que estejam de bem com o tempo passando, como a Acácia, são difíceis de encontrar, mas isso não quer dizer que elas não existem. Fernanda Montenegro, quase uma Meryl Streep brasileira, é autora de uma frase simples e eficaz: “É uma realidade que vai piorar se você começar a achar que é uma desgraça. É da natureza e ponto, vamos tocar a vida”.

 

“Velho grisalho é distinto. Por que eu com o meu cabelo branco vou ser outra coisa que não distinta também?” – Acácia Maduro Hagen, socióloga


FOTOS: Edna Machado e Matheus Riskalla

2 comentários em “SEXTANTE 54 | Charmosos e acabadas

  • 1 de janeiro de 2020 em 00:46
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    Ótima matéria! Fico feliz em ver que o futuro do nosso jornalismo está em boas mãos.

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