SEXTANTE 54 | Diferentes pratos, novas descobertas

Restaurantes familiares trazem para a capital gaúcha o sabor asiático e expandem a diversidade para satisfazer o paladar dos porto-alegrenses

Por Nathália Cassola

Maior entre todos os seis continentes que formam o mapa-múndi, a Ásia abriga atualmente quase três quintos da população mundial. Sua civilização teve início há mais de quatro mil anos, antes mesmo do começo do mundo ocidental que conhecemos. As populações que ali se encontram são diversificadas, com diferenças que vêm desde os seus idiomas, crenças e religião, até os seus modos de comportamento ou governo. Dentro desse continente heterogêneo, existem diversas regiões distintas, como a Ásia Meridional e o Oriente Médio. O Leste Asiático, também chamado de Ásia Oriental, é uma dessas regiões, sendo formado por alguns dos países que mais imediatamente lembramos ao mencionar os povos asiáticos, como a China, o Japão e as duas Coreias. Apesar dos oceanos de distância, essas diferentes culturas asiáticas também chegam ao Brasil por meio dos imigrantes, alguns deles abrindo seus próprios restaurantes com o gostinho de casa.

A história de imigração do Japão para o Brasil já é antiga, tendo o seu marco inicial com a chegada do navio Kasato Maru em 1908. Essa embarcação, de acordo com dados da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, trouxe os 781 imigrantes que foram os primeiros japoneses a se estabelecer em terras brasileiras. Apesar de São Paulo ser conhecida como a maior comunidade de japoneses fora do seu país de origem, uma parcela desses imigrantes e de seus descendentes veio parar também no Rio Grande do Sul. 

 

 

Dessas famílias que se instalaram no Sul, surgiram restaurantes como o Yuu Pub Bar, aberto em 2016 e já popular entre os apreciadores da culinária japonesa. Diferentemente dos pratos frios, como o sushi, que estamos acostumados a ver espalhados pela cidade, o carro chefe do restaurante e bar é o chamado Takoyaki, bolinho recheado com polvo que é extremamente popular no seu país de origem. O prato é considerado comida de rua e tem presença forte nas cidades japonesas. “Desde 1989, quando fui para o Japão, eu me encantei pelo sabor e pelo produto. Sempre imaginava que, quando voltasse para o Brasil, teria que mexer com isso, porque é muito bom”, conta Edison Nishiyami, idealizador do Yuu. Como muitos outros filhos e filhas da primeira geração nascida brasileira, Edison passou por diversas cidades no Japão, como Nagoya e imediações de Yokohama, quando ainda era jovem. Essa emigração teve amplitude nacional e foi denominada como movimento dekassegui. Muitos desses descendentes nascidos aqui fizeram o caminho inverso dos seus pais e retornaram ao Japão para trabalhar e juntar dinheiro antes de voltar ao Brasil. 

 

 

Apesar da ideia inicial de voltar após alguns anos trabalhando por lá, Edison acabou morando no país até 2013, onde aprendeu a cozinhar o prato que agora é principalmente associado a seu restaurante na capital gaúcha. Foi durante a sua participação no festival do Japão, com a ajuda da esposa e companheira Vera Lúcia Bonim, que Edison percebeu a grande demanda pelo prato, o que incentivou a abertura do bar. O foco e diferencial do Yuu Pub é a culinária quente, que é bastante consumida por japoneses, mas pouco conhecida por aqui. “Na verdade, japonês não come só sushi, então nós optamos por ir pela contramão”, explica ele. O restaurante, com clima de bar, também têm karaokê disponível para o entretenimento dos seus clientes e atrai tanto japoneses que estão visitando o estado como os apreciadores gaúchos da sua cultura e culinária.

 

 

O restaurante Daimu, localizado no bairro Moinhos de Vento, também é um negócio familiar com mais de duas décadas de história. Os pais, imigrantes japoneses, e seus dois filhos são os responsáveis pela cozinha e administração do estabelecimento. Ali encontram-se os pratos japoneses mais populares, como o sushi, mas também a sua própria linha de pratos quentes, que representa apenas uma parcela da diversidade da culinária japonesa. “Todas as partes do Brasil têm uma colônia japonesa. A gente tem ideia de transmitir a nossa cultura através da comida”, explica Flávia Lumi Miyamoto Aso, nascida no Brasil. 

 

 

Para eles, preservar a forma como o prato foi criado e respeitar a estética da culinária é um dos fatores mais importantes para se manter fiel às origens e também para se destacar no mercado. A família passou um período de oito anos no Japão, o que foi essencial para que o empreendimento desse certo. Com o tempo, os brasileiros começaram a conhecer mais sobre a cultura e a culinária deles. “Na época que a gente abriu, muitas pessoas não comiam sushi e tiveram que aprender a comer”, explica Flávia. Aumentar a aceitação da população para comidas diferentes da que estão acostumados é uma das missões do Daimu.


De Xangai para o Rio Grande do Sul

Contudo, os japoneses não foram o único povo a imigrar para o Brasil: a comunidade chinesa também se encontra presente em Porto Alegre. Li Mei Yun, co-fundadora do restaurante You Yi, foi uma dessas pessoas que procuraram melhores oportunidades de vida por aqui. Já há 30 anos no Brasil, ela saiu de Xangai, a maior cidade chinesa, durante o período em que o país estava reabrindo a sua economia. De acordo com ela, muitos outros jovens fizeram o mesmo, buscando trabalho e a chance de uma vida melhor. Ela veio para conhecer o país junto com o seu marido, pouco depois do casamento, e nunca mais voltou. “A cultura era totalmente diferente de como a gente vivia lá. Éramos comunistas, bem fechados. Quando chega aqui, dá um choque”, conta. A língua foi uma das maiores dificuldades de adaptação para o casal, que passou os primeiros meses ilegalmente no país até que a sua primeira filha nasceu no Brasil. Para Li, manter contato com a cultura estando em um país tão diferente foi complicado. “Aqui não tem comunidade chinesa forte, tem poucas famílias”, explica. 

 

 

Os dois tiveram que trabalhar muito até alcançar a estabilidade e popularidade que hoje possuem, e todo o tempo que passavam no restaurante tornou difícil a transmissão da sua cultura para os filhos. Ela diz ter se arrependido de não ter dado mais atenção a isso. Para Li, é importante manter as tradições. Por isso, sempre conta curiosidades da história da China ou da sua cultura para os clientes que visitam o restaurante.

 

 

 A decoração do local também foi pensada para trazer a estética chinesa para a capital, como se fosse um pequeno pedacinho da China no meio de Porto Alegre. Apesar da saudade do país onde nasceu, Li diz que a vida deles agora é aqui.

 


A expansão sul-coreana

Diferentemente das culturas e cozinhas japonesas e chinesas, a comida da Coreia do Sul ainda é pouco representada na capital gaúcha. Uma alternativa disponível para quem quer experimentá-la é o BoM Korean Food Cafe, criado pela família Kim. Buscando trazer mais variedade para a cidade, o restaurante tem como proprietários um casal de imigrantes sul-coreanos. Responsáveis pela cozinha, eles também contam com a ajuda dos dois filhos no estabelecimento, ambos nascidos no Brasil. Gabriela Kim, a filha mais velha, diz que o maior contato que possui com a cultura coreana é através da internet e das novelas e programas do país que os seus pais ainda assistem em casa. A ideia de abrir o BoM, cujo nome significa ‘primavera’ em coreano, veio da falta de variedade de culinárias em Porto Alegre. “Sempre é churrascaria, pizzaria, restaurante japonês. E também porque a comunidade coreana aqui é bem pequena, a gente achou que seria legal trazer mais variedade para a cidade”, explica ela.

 

 

O espaço é pequeno e aconchegante, trazendo pratos tradicionais da culinária coreana e tem até mesmo bebidas e lanches que são consumidos no país a venda. Além disso, em uma televisão, passam videoclipes de K-pop, o fenômeno musical que trouxe mais atenção para a Coreia do Sul nos últimos anos e aumentou o interesse pelo país. Na foto apresentada acima, toca o hit “I’m so hot” do grupo feminino Momoland, um dos muitos que se encontram em atividade no país. É uma mega indústria que conta com ajuda do investimento público e incentivo do governo, sendo uma estratégia para impulsionar a sua economia e turismo após a crise que enfrentaram em 1998. Com a criação do ‘departamento de k-pop’ no Ministério da Cultura da Coreia do Sul, o gênero musical chega a trazer 4,7 bilhões de dólares ao ano para o país. Essa febre certamente já chegou até o Brasil, com diversos grupos populares como BTS e Monsta X fazendo apresentações no país. 

 

 

Gabriela acredita na importância de manter esses laços com a Coreia e também de oferecer a oportunidade para que os gaúchos conheçam um pouco mais sobre a culinária coreana. “A variedade de cultura enriquece uma cidade.” Falando sobre a questão de estereotipação das culturas leste asiáticas, ela acredita que o Rio Grande do Sul, por ser um estado muito fechado, dificulta o aprofundamento do conhecimento sobre as mesmas. Nem mesmo a sua recente popularização foi o suficiente para quebrar os estereótipos e o preconceito contra as populações leste asiáticas é ainda pouco falado por aqui. São “piadas” de mau gosto sobre os olhos puxados que lhes são característicos, sobre como são todos iguais e até mesmo sobre a sonoridade das suas línguas maternas. Caminhando pela Liberdade, bairro paulistano onde se concentra a população e comércio leste asiático, ainda é possível ouvir um brasileiro falar “xing ling” debochadamente para uma das idosas chinesa que passava pelo local em pleno 2019.

 

 

Entretanto, não são somente esses comentários (muitas vezes erroneamente considerados inofensivos por quem fala) que são prejudiciais às populações asiáticas. Há também o conceito de minoria modelo: a crença de que asiáticos são extremamente inteligentes que coloca pressão nos jovens e adolescentes para atingir essas expectativas. É o estereótipo do ‘nerd’, um retrato comum para pessoas de descendência asiática na mídia e na mente dos ocidentais. Não só eles devem ser inteligentes, mas são também doces, frágeis e cidadãos exemplares. A pressão da família e sociedade colocada nesses jovens e adolescentes é tão grande que, em 2017, o Japão atingiu o maior número de suicídios em três décadas, de acordo com o ministro da educação japonês. A maioria das vítimas são adolescentes do Ensino Médio. 

 

 

Um estereótipo, mesmo aparentemente positivo, gera um clichê e um padrão comportamental dentro daquela população. Apesar de não ser amplamente discutido ainda, o racismo antiamarelo e as suas micro agressões estão presentes nas vidas dos imigrantes e descendentes que vivem aqui, muitas vezes sendo naturalizado. A discussão sobre o assunto é importante, mas a melhor maneira de se mudar isso é dar voz aos que sofrem por isso e escutá-los, para que a sociedade possa se tornar mais igual e para que raça ou cor de pele não seja mais motivo para piadas ou discriminação.


Elementos das culinárias do leste asiático

Apesar de terem alguns pontos em comum, as culinárias japonesas, chinesas e coreanas têm cada uma os seus pratos e gostos próprios. O gengibre e sabores agridoces são muito comuns no Japão e China, assim como o shoyu. Já na Coreia, a comida é mais apimentada e os sabores são mais fortes do que dos países vizinhos. Existem diferentes pratos populares na culinária sul-coreana e um deles é o bulgogi, como apresentado em uma das fotos anteriormente. Feito com carne marinada grelhada em molho de soja, alho picado e semente de gergelim, ele é servido com verduras e arroz. Um dos acompanhamentos tradicionais para os coreanos é o kimchi, uma acelga fermentada na pimenta de aparência laranja forte que é consumida em quase todas as refeições. Outro ponto em comum a todas essas culinárias e o uso dos palitinhos, o hashi, como talheres. Apesar de parecer difícil para quem está acostumado com garfos, facas e colheres, é só preciso um pouco de prática para pegar o jeito.

Em Porto Alegre, tem opções para todos os gostos: para quem quer se sentir mais perto de casa ou para quem quiser expandir o seu paladar e horizontes. É por meio do conhecimento e do contato com diferentes culturas que também podemos quebrar com os estereótipos que ainda estão presentes na sociedade. As culturas asiáticas, em toda as suas plenitudes e séculos de existência, são extremamente ricas. A oportunidade de se conhecer mais sobre elas existe, e esses restaurantes e famílias trazem um pouco do seu país para o Brasil. Podem ser apenas uma pequena fração dessas culturas, mas ainda assim são um começo. Conviver com pessoas de diferentes origens das nossas nos ensina a respeitar as diferenças, a abraçar e valorizar o que torna cada um de nós únicos. 

Como é afirmado na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO, é preciso garantir a interação harmoniosa entre pessoas ou grupos com identidades culturais diferenciadas em uma sociedade globalizada como a nossa. O direito a manter e expressar a sua própria cultura, independentemente de onde se encontra, é uma liberdade fundamental do ser humano. Essa mesma diversidade também propicia a troca entre diferentes culturas, que apenas enriquece e agrega valor às nossas experiências.

 

 

É importante, acima de tudo, respeitar essas diferenças e permitir que os imigrantes mantenham os seus costumes e práticas culturais sem se sentirem perseguidos ou alvo de preconceito. 

Confira no mapa abaixo a localização dos restaurantes apresentados nesta reportagem e aproveite a oportunidade para conhecer um pouco mais sobre novas culturas e culinárias!


FOTOS: Nathália Cassola

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