SEXTANTE 54 | Identidade Drag

Drag deixou de ter apenas uma definição e se tornou pluralidade. Hoje, é uma forma de resistência, representação, manifestação artística e glamour.

Por Andrielle Prates 

Na definição do dicionário, drag queen é o homem que se veste de mulher, imita voz e trejeitos considerados femininos, usando roupas exóticas e maquiagem, seja por diversão ou trabalho. Porém, a palavra carrega um significado muito maior e foi adotada para representar uma forma de arte, na qual a figura drag é uma persona que está sempre em processo de transformação, descobertas e mudanças.

Desde que o mundo é mundo, homens se vestem de mulher como uma forma de arte. Na Grécia Antiga, onde nasceu o teatro, os papéis femininos eram feitos por homens, uma vez que mulheres eram proibidas de se apresentar no palco. O tempo passou, mudou, e com ele a arte drag ascendeu e veio conquistando seu espaço pelo Brasil. Em Porto Alegre, essa arte vem se tornando cada vez mais acessível e respeitada. A cena, antes era pouco explorada pelos porto-alegrenses, mas começou a crescer a partir de espaços abertos na cidade que deram lugar à diversidade artística e ampliaram vozes que não eram devidamente ouvidas. 

Com a ascensão, em abril de 2017, o primeiro bar drag da capital gaúcha foi aberto: a Workroom. O espaço, cujos donos preferem chamá-lo no feminino, foi inspirado no reality show norte-americano RuPaul’s Drag Race, que acompanha as participantes em desafios de canto, dança, costura, talento, humor e personalidade para escolher a nova estrela drag dos Estados Unidos. Idealizado pelo administrador e proprietário Rodrigo Krás Borges e pelo seu sócio Gabriel Dreher Bittencourt, o bar está sempre de portas abertas para receber todos aqueles que reconhecem e apoiam a arte das transformistas. Frequentado majoritariamente pelo público LGBTQ+ e por mulheres, o espaço atualmente conta com um casting de 28 drags locais, que se apresentam uma vez por mês conforme a escala organizada pelo bar. 

Dar visibilidade a performistas independentes de Porto Alegre e proporcionar diversão segura à comunidade LGBTQ+ são algumas das funções da Workroom, que, com o seu cenário colorido e um ambiente aconchegante, conseguiu visibilizar a cena drag na capital e ampliar as opções de diversão do público da região. “A ideia surgiu numa mesa de bar no final do ano de 2016. Eu sempre quis abrir um negócio voltado à responsabilidade social e ao entretenimento”, ressalta Rodrigo.

Muito mais do que um empreendimento, a Work contribui para a socialização dos artistas e para a quebra de barreiras que ainda permeiam a questão, uma vez que acolhe a arte de um público que sempre foi colocado às margens da sociedade e possibilita ampliar essas vozes capazes de romper com as construções sociais que desmerecem os movimentos artísticos. 

A identidade drag queen não é uma representação fidedigna da imagem da mulher, não é um modelo de corpo representativo da mulher, tampouco representativo do homem. As drags não se encontram ou se encaixam em nenhum modelo estereotipado de gênero, sexo ou sexualidade. Apesar de às vezes suas identidades queens adotarem nomes femininos, elas são avessas à sociedade heteronormativa. O mesmo vale para os kings (geralmente artistas do sexo feminino que se vestem e personificam os estereótipos do gênero masculino), por isso, deve-se pensar nesse movimento como uma liberdade de expressão, pois arte é isso.

Atualmente, a expressão drag não possui apenas as funções de entretenimento, como em lipsyncs (sincronia labial, ou seja, dublar uma música de modo verossimilhante ou caricatural), voguing (dança que se caracteriza por posições típicas de modelo), ou esquetes cômicas, abordando principalmente a cultura e o universo gay através de zombarias e roupas esbeltas e conceituais. Em decorrência das várias transformações, com o intuito de perpetuar sua existência, a arte drag é capaz de modificar estilos, linguagens e conteúdos, como uma forma de manifestação política, na luta para despertar uma sociedade adormecida. O profissional tem responsabilidades com sua arte e, sobretudo, com a sociedade para a qual se torna a voz e referência.

A drag possui uma função social cênica de entretenimento e de política que não se basta no autoprazer e no divertimento do cotidiano. Corroborando com isso, Porto Alegre tem o privilégio de contar com artistas que são resistência em meio ao conservadorismo da capital.


Lo Litta é liberdade

Foi em 2015 que tudo aconteceu. Quando, no final da sua graduação, o artista Lorenzo Lopes Soares, de 25 anos, passou a se interessar por figuras performáticas e pela possibilidade de atuar de uma forma diferente do que é apresentado nos palcos tradicionais. Encontrou na arte drag o espaço para se expressar como queria e ainda falar sobre gênero e sexualidade. “Foi pela drag que eu entendi a importância de ser LGBT e de me posicionar como tal. Acabei conhecendo pessoas de toda a sigla, que antes eu não tinha a possibilidade de conhecer. Fui acolhido pelas pessoas que passam pelas mesmas questões que eu e consegui exercitar empatia e acolher questões que não me atravessam, mas que passam pela vida de outras pessoas”, comenta Lorenzo.

Trabalhando profissionalmente há quase quatro anos como Lo Litta, o performista considera importante realizar as apresentações misturando características que quebram a expectativa do público, de forma a surpreender as pessoas com as diversas faces do fazer drag. Com um extenso histórico de shows por Porto Alegre, Lorenzo acredita que a cena drag é artisticamente rica, pois, mesmo que a cidade ainda não seja o maior polo da arte drag, é possível encontrar uma pluralidade de manifestações artísticas com diferentes formatos, pensamentos e propostas. 

A capital gaúcha ainda não coloca em primeiro plano as atividades artísticas em geral, o que torna difícil manter a arte de pé, mas os artistas locais fazem de tudo para sustentar a profissão, com base na sua liberdade, no reconhecimento, respeito e apoio do público. “Drag significa a liberdade de poder fazer tudo aquilo que eu passei a vida inteira ouvindo que eu não poderia fazer”, destaca.

Para a cena drag se manter na região, é necessário que outros lugares abram suas portas para prestigiar essa arte performática. Arte essa que só existe quando as personas expressam exatamente o que estão sentindo naquele instante, de forma que a atenção e interação do público estejam voltadas a elas.

 Para a mensagem ser compreendida de forma correta, o público fica em silêncio, com olhos e ouvidos atentos aos gestos explorados nos palcos. Mais do que encarnar uma personagem, fazer drag é uma forma de externar sentimentos resguardados, de fazer denúncias políticas e dividir com o público o peso de viver com a incompreensão. 

Lo Litta pronta para expressar sua arte no palco da Workroom.
Lo Litta pronta para expressar sua arte no palco da Workroom.
Mulher drag existe sim! 

Não é novidade que mulheres sofrem preconceito de gênero, principalmente em espaços majoritariamente masculinos como o da cena drag, mesmo que essa identidade se proponha a uma desconstrução de gênero. Mas as mulheres existem e têm o direito de ocupar os lugares que quiserem, e Julha Franz ocupou. 

Em 2015, com a ascensão da cena drag em Porto Alegre, a artista visual e ex- diretora artística da Workroom Julha Franz começou a se montar como drag queen, porém o que ela queria mesmo era fazer a mesma subversão que os homens performistas faziam. Foi quando ela percebeu que fazer drag king era a sua verdade. Assim nasceu o Leon Lojas, seu personagem. O processo de personificação da artista começou, e com ele a conquista de muitos espaços. Apresentações fora do estado, participação em grandes festivais, status e um reconhecimento que nenhuma outra mulher havia tido. 

O fazer drag é muito maior do que a definição do feminino e do masculino. Fazer drag é sobre expressão, sobre singularidade, sobre explorar o interior de cada um e, principalmente, sobre identidade. Resumir essa arte a gênero é infiel à proposta da arte no seu contexto geral, em que ampliar a visão das pessoas sobre o mundo é um dos propósitos. Pensando nisso, Julha passou a não considerar mais apenas uma linguagem de gênero para personificar nos palcos, e hoje tem um novo personagem: Chameleón, um drag queer, ou seja, um drag não binário (identidade de gênero que não é exclusivamente homem ou mulher). O nome foi escolhido a partir da ideia do camaleão, o qual reflete a habilidade de representar o estado da artista no dia ou semana da performance. “Drag pra mim não é simplesmente um personagem, é parte da minha vida e da minha construção como ser humano. É uma maneira de comunicar e provocar questionamentos. A minha identidade é fluida, e esse personagem me permite fazer, de vez em quando, personagens mais femininos e, de vez em quando, mais masculinos”, ressalta. Poder surpreender a si mesma a cada apresentação é uma das habilidade de Julha, que preza por sua espontaneidade e acaba escolhendo a sua persona “de espírito” horas antes do show. “Tudo o que eu faço é espontâneo, justamente pra tentar ser o mais verdadeira possível com o que está dentro de mim”, comenta.

Apesar da sigla LGBTQ+ ter como principal objetivo promover a diversidade, a manifestação artística drag não surgiu vinculada ao movimento, mas acabou sendo incorporada à sua cultura a partir do processo social que rompe com a perspectiva binária heteronormativa. Ainda assim, no início da sua trajetória como drag king, Julha – mulher lésbica – sofreu muito preconceito dentro da comunidade LGBTQ+, com o não reconhecimento da sua arte e a invisibilização da sua participação no movimento. 

Drag não se define com frases feitas ou com conceitos padronizados, pois drag é verbo, é sujeito e é protagonista de diversas histórias, com os mais variados enredos. Pluralidade, resistência, representação e manifestação artística são palavras que podem resumir parte do que é a identidade drag. 

Chameleón, no palco da Workroom, durante performance.
Chameleón, no palco da Workroom, durante performance.
A diversidade na sociedade

Segundo pesquisas realizadas pelo Google BrandLab, as buscas pelo termo diversidade no Brasil cresceram 30% no último ano. Esse número mostra que o assunto se tornou uma pauta política e local e globalmente. Hoje, assuntos ligados ao tema são 2x mais procurados, tendo como plataforma principal o Youtube, onde os brasileiros usam regularmente a ferramenta para discutir questões ligadas à diversidade. Há quem alimente e há quem consome. Ainda, baseado em dados do Google, apenas nos últimos seis meses foram publicados quase 600 mil vídeos sobre o tema na plataforma, sendo que 260% deles têm a temática LGBTQI+, dentro deste espectro, estão os conteúdos ligados à cultura drag.  

Em uma sociedade marcada pela diversidade, pelo pluralismo e por intercâmbios culturais, as plataformas digitais dão voz a pessoas que não tinham encontrado um espaço para se expressar, como os artistas drags. O movimento como expressão cultural,  interage com comportamentos, abre possibilidade de reflexão e aborda discussões, principalmente as de gêneros, buscando a compreensão e a desmistificação de estereótipos. 

A diversidade é uma constatação da humanidade, onde o seu único problema gira em torno da forma pelo qual se lida com ela, pela qual as pessoas se relacionam e tratam o diferente, aquele que não lhe serve de espelho, pois a cultura brasileira, apesar de ter uma construção histórica baseada na diversidade, se manifesta por um sentimento de intolerância em relação ao outro. A sociedade heteronormativa, não compreende essa diversidade de forma natural, na medida em que os indivíduos alimentam seus preconceitos baseados unicamente nas aparências. Para o pesquisador do movimento drag brasileiro e suas apropriações no Youtube, Douglas dos Santos, a dificuldade do outro na compreensão da diversidade acontece porque os indivíduos não se abrem para aquilo que é distinto. “A falta de abertura para se deslocar, para compreender e se colocar no lugar do outro, a inflexibilidade e incapacidade de ouvir as diferenças, dificulta as relações humanas e a abertura à diversidade”, ressalta.

Segundo o pesquisador, “Restringir aquilo que entendemos como drag à um tipo de imagem é um desserviço, justamente porque drag é uma prática artística, uma forma de expressão da subjetividade, que não deve ser limitada à padrões”. A cultura drag une as mais diversas pessoas a uma manifestação artística, ao mesmo tempo que aborda questão político-social, da qual a sociedade necessita. São pessoas com amplas visões de mundo, que fazem seu trabalho embasado em suas paixões e vontades. Nas diversas formas de expressar sua liberdade, esses artistas provocam um conceito a ser debatido e, antes de tudo, compreendido. 

Drags são sujeitos pós-modernos que buscam na sua criatividade uma maneira de vivenciar e de se manifestar no mundo, são artistas que com suas características se expressam e acabam nos permitindo transitar por toda uma multiplicidade de gêneros e possibilidades, as quais rompem barreiras, confrontam a sociedade e quebram os limites impostos na construção de suas identidades. 


FOTOS: Geovana Benites e Mariana Alves 

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