SEXTANTE 54 | Nos bastidores do prazer

Conheça a opinião de duas atrizes e um ator acerca da desigualdade de gênero na indústria pornográfica

Por Luísa Santini Januário

“Eu sou apaixonada pelo meu trabalho”, diz Júlia* após explicar o seu dia a dia como atriz pornô e cam girl. Estudante de Turismo em Santa Catarina, ela ingressou na indústria pornográfica há dois anos, aos 20: “Sempre gostei do lúdico, do erótico; acho interessantes as plataformas de strip-tease online e penso que é importante termos novos atores e empresas no mercado, então quis fazer parte de tudo isso”. Não é de hoje que a pornografia existe toda sociedade, em determinada época, descobriu uma maneira de manifestar seus desejos, seja através de esculturas, pinturas, revistas, livros, vídeos etc. Hoje, é na internet que se se encontram as principais mídias para a propagação deste tipo de conteúdo, como sites de streaming, que disponibilizam filmes caseiros, amadores e profissionais com caráter comercial.

Júlia faz parte de uma gama de atores que aproveita a facilidade proporcionada pelo meio digital. Todos os dias, às 7h, ela acorda, toma um banho, coloca uma roupa adequada e organiza seu local de trabalho. Em horário comercial, das 8h às 18h, no conforto da própria casa, ela presta um serviço de sexo virtual que acontece por meio de conversas instigantes, fetiches, jogos de sedução, performances de masturbação e tudo mais que pode estimular quem está assistindo ao vivo. Em 2019, Júlia começou a atuar também em produções profissionais que, para ela, comparam-se ao cenário de um filme de Hollywood: “Existem atrizes, atores, câmera, sonoplastia, diretor, take, ação. Eu poderia falar que sou atriz, sem especificar o entretenimento adulto, porque tudo o que tem na direção de um filme de cinema, tem na pornografia”.

Assim como ela, muitas outras pessoas veem no ramo um propósito. Pedro*, 26 anos, é professor de biologia. Nas horas vagas, há dois anos e meio, ele faz performances ao vivo com uma frequência semanal, e hoje atua em alguns filmes aqui e ali: “Comecei por entretenimento próprio, por puro prazer, e percebi que poderia ganhar uma grana com isso”. Nick Fox, 23 anos, trabalha à noite como bartender, e fez seu primeiro filme pornô este ano. Ela atua como cam girl quando não está filmando em produtoras. Os três têm opiniões diversas a respeito da pornografia, tema que vem sendo discutido e estudado ao longo dos últimos anos, sobretudo por feministas. 



O debate sobre gênero no pornô

Em meados das décadas de 1970 e 1980, opiniões divergentes a respeito da sexualidade polarizaram o movimento feminista, que se dividiu, principalmente, entre grupos pró-sexo e anti-pornografia. Vistas como liberais, algumas feministas enxergavam na pornografia uma forma de empoderamento e emancipação da sexualidade feminina. As consideradas radicais, no entanto, debatiam sobre como a pornografia pode traduzir uma relação desigual entre os gêneros, na qual a mulher acaba cumprindo um papel de objeto sexual para essas feministas, esse modelo seria uma das manifestações do patriarcado (um dos cernes do machismo estrutural), da própria naturalização da violência e, por consequência, da desigualdade de gênero.

Antropóloga e pesquisadora formada pela UFRGS, Mariana Rost discorda das feministas radicais, porque acredita que a pornografia está no campo da fantasia e, portanto, não cabe a ela reproduzir a realidade: “A pornografia é um registro sobre a sexualidade, e a sexualidade pode ser o que as pessoas quiserem”. 

Jane Felipe, professora da UFRGS e psicóloga com ênfase em gênero, apesar de reconhecer que a pornografia também disponibilizou para as mulheres a possibilidade de conhecer a sua própria sexualidade, entende que a indústria pornográfica tradicional, mainstream, está muito centrada na figura e no prazer masculino, colocando as mulheres em lugares subservientes de satisfação e submissão a determinadas práticas sexuais muitas vezes violentas. Entretanto, alerta que os filmes pornográficos não são os únicos elementos a se pensar entre as situações que inferiorizam as mulheres. Para ela, há um conjunto de discursos e práticas em diversos artefatos culturais que alimentam os micromachismos do dia a dia.

Mas Júlia não enxerga essas desigualdades de gênero em conteúdos pornográficos. Para ela, todo desejo e todo fetiche são aceitáveis, desde que haja consentimento entre as partes: “A pornografia envolve todos os participantes da cena, que estão tendo prazer, e por isso não é machista; é igualitária”. Nick Fox, no entanto, chama a atenção para a criação de estereótipos femininos e masculinos no pornô, seja em relação ao padrão de corpo, às vestimentas utilizadas, aos papéis interpretados ou ao modo de se comportar durante o sexo: “No pornô tradicional, o homem sempre vai ser o macho alfa, e a mulher sempre vai acabar sendo mais submissa”. 

Para Nick, a desigualdade de gênero aparece também fora do set de filmagem: ela sente que atores e atrizes são tratados de formas diferentes pelas pessoas. Uma vez, quando contou em uma roda de amigos que era atriz pornô, as mulheres a encararam com desconfiança e desprezo: “Enquanto isso, os homens olhavam com uma cara de fome, como se eu fosse um pedaço de carne”. O abuso do dia a dia também já a colocou em situações degradantes, quando homens tentavam encostar em seu corpo após saberem da sua profissão. “Não teve uma vez que eu falei que trabalhava como atriz e que não tive que passar ou por julgamentos ou por olhares de tesão”, revela.

De fato, atrizes são as que mais sofrem com o machismo e preconceito social. É por isso que, embora ganhem menos do que os homens em todas as ocupações hoje, conforme estudo de 2019 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres, no geral, superam os cachês deles na indústria pornô. Júlia recebe três reais por minuto como cam girl, quando Pedro não leva para casa nem 20% do valor total por filme estrelado. A diferença salarial, entretanto, não quer dizer que as atrizes sejam mais valorizadas; muito pelo contrário, demonstra facetas da desigualdade de gênero. Como narra esta reportagem do G1, as mulheres conquistam salários mais altos porque são mais propensas à exposição, seja ela dentro ou fora dos sets de filmagem; estão mais sujeitas ao constrangimento e têm um desgaste físico maior que o dos atores na hora da gravação, entre outros motivos.

Pedro, por sua vez, distingue a desigualdade de gênero a partir da sua perspectiva de masculinidade. Enquanto ele é cobrado para ser viril, ter uma boa performance e estar no controle do sexo heterossexual, suas parceiras de cena já passaram por danos tanto físicos quanto psicológicos. Quando gravou seu primeiro filme, focado em práticas de BDSM (expressão sexual para práticas como bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo), notou que a menina estava com dor: “No primeiro momento eu continuei, porque é tão mecânico…, mas então parei. Ela chorou muito. Todo mundo na volta disse que era normal doer. Nós continuamos quando ela parou de chorar, e fiquei pensando, em casa, que a expressão de dor deve ser atrativa para os filmes. Ela era a grande estrela da cena, mas precisou sofrer para isso”. 

Nick pensa que a inferiorização da mulher no pornô também mostra uma certa infantilização: “Eu tenho um corpo teen, então cuido para não fazer uma voz infantil, para não usar roupas que podem me confundir com uma adolescente”. Assim como a psicóloga Jane Felipe, ela acredita que essa fetichização seja um retrato da desigualdade de gênero e da pedofilização: “É como se, desde cedo, houvesse uma naturalização daquilo que a gente chama de cultura do estupro. Esse corpo infantilizado precisa ser admirado, desejado dentro de determinados padrões de beleza e de comportamento”, explica Jane. Em relação à cultura de estupro, Pedro atenta para o fato de que os homens, hoje, são ensinados que “não” significa “sim”, e que isso aparece em conteúdos pornográficos: “somos educados de que o não é um bom sinal para o homem, e isso vai ficando cada vez mais enraizado a ponto de nem questionarmos mais”. “Além das cenas mais pesadas, que chegam a levar à exaustão, há também simulações de estupro: não só no pornô, mas em várias mídias a mulher demonstra que não está a fim e depois cede”, complementa Nick.


Por trás dos vídeos

Não há segredos: a pornografia está entre as principais procuras dos internautas atualmente. Segundo ranking de 2019 da revista Forbes, por exemplo, o Pornhub é o oitavo site mais acessado do mundo, ao lado de potências como o Google, Facebook e Youtube. Em pesquisa elaborada pela Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado para o canal a cabo Sexy Hot, em 2017, que você pode ler na íntegra aqui, estudiosos indagaram 1.130 brasileiros para entender por quê, afinal, o público consome tanto pornô. Concluiu-se que, no geral, a pornografia é uma “pílula de estímulo” e “dá vazão a fantasias, desejos, frustrações e permite viver o prazer livre que hoje se concretiza em imagens”. Em primeiro lugar, o motivador dos entrevistados para assistir conteúdos pornográficos é ver e aprender situações/posições sexuais



Na retrospectiva de 2018 publicada pelo Pornhub, constata-se que a plataforma teve 33,5 bilhões de visitas durante o ano, com mais de 30,3 bilhões de buscas, que incluem termos como lésbicas, hentai, madrastas, mães, teen e asiáticas. Ao todo, o público masculino representou 71% das visualizações do site.



Se, como informa a pesquisa do Sexy Hot, os homens assistem pornografia para conhecer práticas e se inspirar na hora do sexo, é válida a reflexão a respeito de qual é o aprendizado que esse público, majoritariamente masculino, obtém por meio deste tipo de conteúdo. Conforme dados da Pink Cross Foundation, fundação de caridade sem fins lucrativos que presta serviços a pessoas com traumas associados a relações sexuais, criada pela ex-atriz pornô Shelley Lubben, 94% das cenas de agressão sexual representadas em frente às câmeras são cometidas contra atrizes. A violência, porém, não se resume às gravações entre quatro paredes. Considerando as 2.000 estrelas que atuavam no Vale de San Fernando, nos Estados Unidos, região popularmente apelidada de “capital da pornografia”, 206 morreram em decorrência de AIDS, suicídio, homicídio e abuso de drogas entre 2003 e 2014 — não à toa, a expectativa de vida de uma atriz pornô, conforme a instituição, é de apenas 36 anos.

Linda Lovelace (1949-2002) talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos a respeito da exploração sofrida por mulheres na indústria pornográfica. Estrela pornô norte-americana, ela conta em sua autobiografia, Ordeal (1980), que foi agredida por anos pelo marido e agente, Chuck Traynor (1937-2002): ele a obrigava a participar das gravações e a forçava à prostituição. Garganta profunda (1972), filme que alavancou a carreira da atriz aos 23 anos, faturou mais de 600 milhões de dólares na época de lançamento, mas Linda alega ter recebido apenas U$1.250 do total. Interpretado por Amanda Seyfried (Mamma Mia!), Lovelace (2013) narra a história dessa figura histórica para além de símbolo e porta-voz da revolução sexual dos anos 1970. Assista ao trailer do longa:



Outro caso mais recente é o da libanesa Mia Khalifa, que recebeu ameaças do Estado Islâmico após atuar, aos 21 anos, em um filme pornô usando um hijab, véu utilizado comumente por mulheres muçulmanas. Em entrevista, a ex-atriz pornô revela que foi intimidada pelos produtores, motivo pelo qual não recusou a gravar a cena: “Você já se sentiu sem graça de reclamar quando o prato vem errado no restaurante, e o garçom te pergunta ‘está tudo bem’? Fiquei intimidada, estava nervosa”, conta. Até hoje, Mia ainda é alvo de comentários machistas em função da sua breve passagem pela indústria. Atualmente, ela atua como comentarista de esportes. 



A nova era dos filmes adultos

Em artigo publicado em 2016 no The Whashington Post, o ex-professor de Jornalismo da Universidade do Texas, Robert Jensen, discute sobre como a pornografia faz com que a desigualdade seja, literalmente, excitante. Ele explica que, embora a pornografia tenha diversas variáveis tanto no formato quanto no material gráfico sexualmente explícito, a representação cinematográfica mais habitual se estabelece a partir do domínio masculino, promovendo narrativas cruéis e de degradação contra as mulheres. Conforme o pesquisador, acoplados a esse gênero, que é um dos mais produzidos e assistidos ao redor do globo, a pornografia visual ainda vai além e oferece outras diversas desigualdades sociais, como o racismo, a infantilização, a gordofobia, a exploração e a agressão. 

Nick, por exemplo, comenta que gosta de ser submissa nas relações sexuais durante as gravações, mas tudo com limites: “Tu precisa conversar com o parceiro, um código, um tapinha, dizendo até onde vai. Qualquer movimento após a pessoa dizer não, aquilo é uma agressão”. Para ela, as cenas que ultrapassam esse limite do fetiche podem contribuir para a violência contra a mulher: “Sou totalmente contra esse tipo de produção”. Pedro relaciona isso ao papel da pornografia na educação sexual do público, reforçando certos tipos de relacionamentos e construindo referências de prazer que, em algumas vezes, não são benéficos. Ele entende que a função da indústria, em conjunto com os atores, é de justamente reverter essa ideia: “Acho que o livestreaming te dá a oportunidade de construir uma imagem, uma narrativa, uma estética autêntica e real que seja a tua”. Júlia, por outro lado, acredita que a riqueza do pornô está na subjetividade humana; para ela, tanto homens quanto mulheres podem interpretar papeis de submissão, sem necessariamente a criação de estereótipos ou violências de gênero: “Você vai encontrar todo tipo de pornografia, basta procurar”.

Mas essa pornografia tradicional, mainstream, parece estar concedendo espaço para conteúdos alternativos e experimentais. A antropóloga Mariana Rost chama a atenção para a diversificação pornográfica, principalmente no que se refere ao chamado pornô feminista. Produzido majoritariamente por mulheres e feito para mulheres, essa vertente pretende mostrar relações menos estereotipadas e mais próximas do real: “É positivo que elas se apropriem da pornografia para produzir conteúdos com os quais se identifiquem, e não só vídeos destinados a um público masculino e heterossexual”. No episódio de podcast do Mamilos, A pornografia é vilã?, jornalistas conversaram com diretoras e outras atrizes da área sobre esse estilo de pornô alternativo, que, para Júlia, significa uma busca do mercado pela repaginação e releitura: “Os gestos das cenas são mais neutros, e o cuidado com as atrizes no set de filmagem é mais atencioso”. “É do ponto de vista feminino que tudo acontece; são as mulheres que mandam na cena. Quando uma mulher produz, ela reproduz nossa realidade”, concorda Nick. 

Júlia ressalta, além disso, que a pornografia feminista é uma tentativa de revolucionar a indústria: “Eu acho artístico; é o tipo de pornô que eu gosto de assistir”.


*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Fotos: Fernanda Polo e Júlia Ozorio

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