SEXTANTE 54 | O peso da discriminação

As faces e consequências do estigma social da obesidade

Por Vitória Pinzon

A gordofobia talvez seja um dos preconceitos mais desafiadores da atualidade, no sentido de que está muito longe de ser superado. Em primeiro lugar, porque é uma discriminação baseada em uma característica puramente física, e a sociedade tende a menosprezar problemas sociais relacionados à aparência. Em vista de tantos problemas enfrentados pela população brasileira todos os dias, não seria futilidade se preocupar com a pouquíssima oferta das grandes marcas de roupas com manequim maior que 44 ou com a minúscula representatividade de pessoas gordas no cinema e na televisão? Em segundo lugar, porque é um preconceito amparado muitas vezes pela área da saúde. Afinal, todo mundo sabe – e prega a plenos pulmões – que saúde física e obesidade são condições opostas.

Tudo isso transforma a missão de expor e condenar o comportamento gordofóbico em um trabalho árduo e vagaroso. Não é por acaso que ainda não existe no Brasil nenhuma legislação específica que classifique como criminosa a discriminação contra pessoas obesas. A gordofobia, apesar do recente aumento de visibilidade na mídia em função de casos envolvendo artistas e celebridades, ainda é vista como uma questão de menor importância.


Mas gordura é mesmo doença?

De acordo com a nutricionista Débora Corrêa, uma pessoa que tem um aumento da gordura corporal está em um processo pró-inflamatório. “E isso favorece o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão, artrite, gota e esteatose hepática.” Contudo, o peso, de forma isolada, não define o estado de saúde geral de uma pessoa. Ele é uma consequência multifatorial, ou seja, que normalmente provém de mais de uma causa, incluindo fatores genéticos e emocionais. O estigma social da gordofobia se faz presente na esfera médica quando alguns profissionais da área já classificam de imediato esse paciente como “relaxado”, “preguiçoso”, ”desleixado” com a própria saúde, porque, afinal, como ele estaria nessa condição de outra forma?

“A gente deve questionar a maneira que nós estamos tratando esses pacientes. Porque, afinal, nunca se falou tanto em nutrição e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tanto aumento nos níveis de obesidade. Ou seja, a nossa conduta como profissionais de saúde não está sendo eficiente”, afirma Débora. Especializada em comportamento alimentar, prática que visa compreender como se dá o relacionamento das pessoas com a comida, Débora ressalta que essas abordagens nutricionais voltadas exclusivamente à perda de peso, e não à compreensão e adaptação de hábitos de vida, são responsáveis por grande parte dos transtornos alimentares hoje presentes na sociedade. “Eu acho um absurdo um paciente chegar no consultório e o profissional já ir logo mandando ele subir na balança. Eu sempre começo as minhas consultas perguntando: você quer trabalhar com peso? Prefere trabalhar com medidas? Não quer nenhum dos dois? É você quem decide.”


Saúde física X Saúde mental

É difícil encontrar uma pessoa gorda que não tenha ouvido a seguinte frase: “Não é preconceito, é uma questão de saúde”. Mas de que saúde estamos falando? Se os aspectos físicos são vistos com preocupação alarmante, a saúde mental geralmente fica em segundo plano.

Segundo a psicóloga Carine Tavares, do Instituto Fernando Pessoa, pessoas que sofrem com a gordofobia têm maior probabilidade de desenvolver uma série de transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade, dependência química, transtornos alimentares e o transtorno dismórfico corporal – doença em que o indivíduo mantém um foco obcecado em corrigir um defeito que ele considera ter na sua aparência.

“A curto prazo, esses distúrbios já são bastante danosos, pois afetam praticamente todas as esferas da vida de uma pessoa, o trabalho, as relações sociais e afetivas, a autoestima e o senso de valor próprio. Mas, a longo prazo, se não procurado auxílio profissional, esses transtornos podem levar até mesmo a atos suicidas em casos mais extremos”, diz a psicóloga. Ela também afirma que, via de regra, o quadro dos pacientes cuja discriminação começa na infância e na adolescência é mais grave, já que, de acordo com Carine, a gordofobia é uma das principais razões de bullying nas escolas.


A importância da representatividade

“Eu aprendi o transtorno alimentar no ballet, aos 14 anos. As meninas costumavam dizer para tomar água e laxante e só comer alface, que aí você vomita água. Foi assim que eu desenvolvi a bulimia e passei os 10 anos seguintes da minha vida escondendo essa doença”, lembra Maria Laura Liboni, dentista e modelo plus size paulista. Maju, como é conhecida, conta que sempre quis trabalhar com moda, mas que não via como fazer isso com o peso que tinha. “Na época da minha adolescência, não existiam perfis de mulheres gordas, nem marcas de roupas plus size fazendo sucesso na área da moda, ou seja, eu achava que, se eu quisesse ser modelo, teria obrigatoriamente que perder peso.”


Depois de muitos anos de acompanhamento psicológico, Maju hoje celebra sua beleza em campanhas no mundo da moda

Hoje, já bem resolvida com o seu corpo, a modelo fala sobre a importância da representatividade e sobre como a falta dela está moldando o modo como as pessoas veem o corpo gordo, principalmente através das redes sociais. “Uma pessoa magra pode se expor da maneira que ela quiser, pode mostrar o quanto de pele quiser, que dificilmente ela vai sofrer alguma repercussão negativa por causa disso. Uma pessoa gorda é censurada no Instagram. Existem perfis de pessoas cujas fotos, quando você vai abrir, aparecem embaçadas e mostrando a seguinte mensagem: você deseja continuar? É considerado um conteúdo sensível, colocado na mesma categoria de cenas de violência ou nudez.”

Maju também vê a publicidade infantil como uma ferramenta que poderia ser melhor utilizada para combater esse preconceito na raíz. Ela compara com os recentes avanços relacionados à publicidade infantil negra, com a produção e difusão de bonecas com cabelo crespo, por exemplo. “Isso é dar oportunidade para que outras pessoas sejam vistas. É uma coisa maravilhosa olhar e sentir que você pertence a alguma coisa. Foi o que eu senti quando entrei pela primeira vez em uma loja de roupas plus size. Não era uma arara escondida num canto, junto com as roupas para gestantes, era uma loja inteira. Isso significou muito para mim, como eu tenho certeza que para muitas outras pessoas gordas também. É saber que alguém pensou em pessoas como você em algum momento.”


Muito mais do que o assento do ônibus

Quando se fala em problemas de acessibilidade de pessoas gordas, o que vem à mente são os espaços de mobilidade no ambiente público, como assentos de ônibus e as poltronas de aviões. Mas o problema inclui também a falta de oferta de itens básicos para as pessoas gordas. “Eu cresci vendo as mulheres da minha família usando fraldas durante a menstruação, porque não existe absorvente para mulheres gordas. Minhas tias não conseguiam comprar sutiã, calcinha ou meias”, relata Maju. A discriminação gordofóbica está presente nos menores atos, invisibilizando toda uma parcela da sociedade que não tem acesso a coisas triviais do dia a dia, mas que fazem toda a diferença na vida de uma pessoa já marginalizada pela sua aparência.

Em Porto Alegre, os transportes públicos já mostram avanços na questão da acessibilidade de pessoas com sobrepeso

Fotos: Isaias Mattos

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