EDITORIAL | Balbúrdia humanizada

No último editorial de 2019, avaliamos nossos aprendizados e conquistas, e deixamos o desejo por um jornalismo mais humano. 

Foi um semestre de muito aprendizado. E não nos referimos apenas ao exercício do jornalismo, mas também o quanto crescemos como seres humanos. Aprender que os Direitos Humanos vão muito além de “defender bandido”, como muitos afirmam, foi essencial para a nossa formação como profissionais e pessoas. Eles são saúde, educação, alimentação e segurança. 

Ao longo do período em que trabalhamos no Humanista, foram cerca de 90 produções publicadas no portal. Neste semestre, não apenas repórteres Humanistas do segundo semestre de 2019 colaboraram com o conteúdo. O espaço Fabico + Humanista foi aberto para sistematizar a contribuição de outros estudantes de Jornalismo da UFRGS. 

Por parte da redação, trouxemos informações desesperadoras de um Brasil que anda perdendo sua humanidade. Pessoas perderam suas vidas em tentativas supostamente heróicas de acabar com o tráfico de drogas. Dez meninos morreram por irresponsabilidade de um clube de futebol que venceu dois campeonatos em um fim de semana e se nega a pagar as indenizações para as famílias. Somos governados por pessoas que acreditam que a população não sofre com pobreza ou falta de assistência. 

Escrevemos reportagens que nos levaram à indignação de diversas maneiras. Os dados de pedofilia e feminicídio, a falta de medicamentos e tantas outras notícias nos fizeram desacreditar no futuro do Brasil. Explicamos assuntos que acreditávamos já não serem necessários. A volta do sarampo, a importância do SUS e o que é racismo são alguns dos exemplos. São questões que afetam as vidas de milhares de pessoas diariamente. 

Produzimos entrevistas, podcasts e outros conteúdos que buscam esclarecer a importância do respeito aos Direitos Humanos, principalmente na área jornalística. Recebemos denúncias. Cobrimos greves e manifestações. Passamos por diversas áreas, da saúde às questões internacionais – com a colaboração de nossa colega intercambista. Ampliamos vozes que precisam de mais espaço para serem ouvidas com a devida atenção. 

Também fomos atacados. De muitas formas. Como estudantes, como jornalistas, como seres humanos. Foi um semestre de provas. Provamos para nós mesmos e para todos os que duvidam da capacidade da universidade pública a importância do trabalho realizado dentro da academia. Fomos acusados de ‘balburdeiros’. A única balbúrdia feita pelas universidades públicas é a da excelência! Foram tantos trabalhos e pesquisas finalizados com sucesso que fica até difícil organizar e contar. Não por acaso, três de nossas produções foram finalistas do prêmio promovido pela ARI (Associação Riograndense de Imprensa) em 2019, na categoria universitária. 

A resistência não partiu apenas da UFRGS, escolhida pelo 8º ano consecutivo como a melhor universidade federal do Brasil. A UFBA (Universidade Federal da Bahia) transformou em carvão o óleo encontrado nas praias do Nordeste. Uma pesquisa da USP-Fapesp (Universidade de São Paulo em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) descobriu uma forma de curar pacientes em estágio terminal de câncer. Estudantes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) descobriram os estágios iniciais da doença de Parkinson, facilitando o diagnóstico e a busca pela cura da doença. Nutricionistas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) criaram um sorvete que funciona não apenas como suplemento alimentar, mas também alivia sintomas causados pela quimioterapia. 

Entre tantos problemas, não pudemos dar o espaço devido para as boas ações que tanto precisamos usar como forma de representatividade. Em um país onde os ideais fascistas fazem parte do discurso do presidente e a censura é exercida inclusive em estádios de futebol, é preciso exibir bons exemplos para influenciar sua reprodução. O lado do bem se sobrepõe ao posicionamento meramente político; vai ao encontro da humanidade e da compaixão e do bom senso.

A partir do dia 23 de dezembro, o portal diminuirá o ritmo de publicações. Nossas últimas produções serão postadas ao longo de janeiro e fevereiro. E assim será até a chegada dos novos repórteres Humanistas, no primeiro semestre de 2020. Deixamos para os que chegam o desejo de que existam mais notícias boas e menos violações dos Direitos Humanos para suas coberturas jornalísticas.

Por enquanto, deixamos o agradecimento à turma com a qual dividimos cada aprendizado da disciplina Laboratório de Jornalismo Convergente. Para muitos de nós a vida acadêmica se encerra por aqui. Que consigamos levar esse conhecimento e essa sensibilidade para construirmos, juntos, um jornalismo mais humano. Ainda temos muito a aprender e um longo caminho a seguir.


FOTO DE CAPA: Repórteres Humanistas do segundo semestre de 2019.

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