“Escrevo notícias e vendo doces”: da faculdade ao semáforo, a história do jornalista que enfrenta a falta de emprego

Com formação pela PUCRS, Anselmo Loureiro enfrenta o desemprego vendendo doces no semáforo; pelo menos 4 milhões de brasileiros têm mais qualificação do que trabalho exige.

Jadde Molossi

“É difícil trabalhar na sinaleira. A gente está sujeito a muitos riscos, tem exposição à fumaça dos carros, motoqueiros que não nos respeitam… Tem que ter paciência, jogo de cintura. As pessoas não têm empatia.” Uma reclamação recorrente entre milhões de brasileiros que, sem qualificação, recorrem ao trabalho informal nos semáforos. Nenhuma novidade. A curiosidade, no entanto, é que desta vez quem reclama é um jornalista egresso da 7ª melhor faculdade de Comunicação do país, a PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Rodolfo Anselmo Loureiro da Rosa, 33 anos, concluiu o curso em dezembro de 2017 e ainda não conseguiu atuar na área.

Em meio aos 12 milhões de desempregados no país, Anselmo, como prefere ser chamado, enfrenta ainda mais uma dificuldade para se colocar no mercado: a peculiaridade da profissão que escolheu, em crise desde a consolidação das redes sociais digitais e da ascensão das chamadas “fake news” (notícias falsas); alvo constante até do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), que nesta segunda-feira, dia 6, afirmou que jornalistas são “uma espécie em extinção”, reiterando seu desprezo pela imprensa em detrimento do que entende ser uma perseguição que sofre em razão de suas convicções ideológicas.

De segunda a sexta, Anselmo dirige-se a uma loja de doces para comprar as mercadorias que pretende vender no dia – torrone, que é o seu “carro-chefe”, e rapadura. Perto das 16 horas, sai de casa, na Vila São Judas Tadeu, bairro Partenon, em Porto Alegre, e ruma a pé até uma esquina das avenidas Salvador França e Ipiranga, onde fica até por volta das 20 horas oferecendo seus doces aos motoristas que encaminham-se ao descanso após um dia de trabalho.

Torrone a R$ 1,00, rapadura a R$ 2,00: assim o jornalista Anselmo Loureiro ganha a vida atualmente.

Ao se deparar com a história de Anselmo, o Humanista foi atrás de dados e explicações para entender as razões pelas quais a qualificação do jornalista não basta para garantir-lhe um emprego na área.


A conta que não fecha

“O emprego está muito difícil, não só na nossa área. Olha quantas pessoas formadas em arquitetura, publicidade, estão trabalhando no Uber”, avalia Anselmo, que só não segue o mesmo caminho por não ter carteira de habilitação para dirigir – tampouco um carro. A observação que ele faz é certeira. Aplicativos de serviços como Uber e 99 Pop, além de iFood e Rappi, no ramo de delivery, empregam mais de 4 milhões de brasileiros, configurando-se, juntos, como o “maior empregador” do país. Desses 4 milhões, 5% têm ensino superior completo, e outros 12%, superior incompleto, como mostra reportagem publicada em agosto de 2019 pelo UOL.

O alto desemprego no país leva profissionais capacitados a exercerem trabalhos que estão aquém da sua qualificação. Anselmo, após concluir a faculdade, trabalhou por quatro meses em uma imobiliária, mas saiu de lá porque o emprego acabava lhe rendendo mais gastos com o transporte, em especial, que ficava por sua conta do que ganhos. Também chegou a trabalhar em uma empresa de ônibus como cobrador, em uma vaga temporária que durou apenas três meses, até o final do verão. Agora, está há quase meio ano ganhando a vida no semáforo.

Trata-se de um ciclo vicioso: a informalidade no mercado de trabalho limita a produtividade no país, o que não ajuda no crescimento da economia e, consequentemente, na geração de novos empregos. Nesse contexto, estão brasileiros como Anselmo, que “sobram” da seguinte conta: para 18,3 milhões de pessoas que terminaram a faculdade no Brasil, existem somente 14,5 milhões de ocupações com exigência de curso de Ensino Superior. O jornalista é, portanto, um dos 4 milhões de brasileiros que estão subempregados, ou seja, têm mais qualificação do que a necessária para o trabalho que exercem ou estão formalmente desempregados.

Era terça-feira e durante a uma hora que o Humanista passou observando a rotina de Anselmo, das 19h10min às 20h10min, oito pessoas compraram seus produtos. Foram 14 mandolates e uma rapadura, que lhe renderam R$16; quase R$10 de lucro. Naquela noite, Anselmo vendeu R$ 84,00 brutos. É um número “razoável”, segundo a sua experiência. “Abaixo de R$ 70,00 eu classifico como um dia de vendas péssimo; de R$ 120,00 em diante, é bom. O que está entre esses números é razoável”, revela. “Teve um dia em que eu vendi R$ 191,00. Aí, foi excelente!” Por mês, o lucro fica em torno de R$1.800,00; são R$ 700,00 a menos do que poderia estar recebendo como jornalista, cujo piso salarial em Porto Alegre, desde 1º de dezembro de 2019, é de R$2.512,03.


A luta por um diploma…

Egresso de escolas públicas, Anselmo não entrou de primeira na faculdade. Após concluir o Ensino Médio, serviu ao Exército por um ano; depois, começou a fazer cursinho pré-vestibular com o objetivo de estudar na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), mas não obteve sucesso. Passando ainda por um curso técnico em informática, que não concluiu por não ter se adaptado à área, voltou a estudar, decidido a tentar mais uma vez a graduação. Depois de prestar o Enem em 2011, finalmente conseguiu o que almejava: entrou na faculdade com uma bolsa integral pelo Prouni (Programa Universidade para Todos). 

Em março de 2012, Anselmo Loureiro trocou o estacionamento da PUCRS, onde trabalhava há mais de um ano, pelo prédio da Famecos (Escola de Comunicação Social, Artes e Design) da mesma instituição, iniciando a graduação em Jornalismo. Já nos primeiros semestres, fez Iniciação Científica e participou do laboratório de jornalismo convergente do curso, que produz o Editorial J. Depois, extrapolou os muros da faculdade e fez estágios no Jardim Botânico de Porto Alegre, na AGU (Advocacia-Geral da União) e no TCE (Tribunal de Contas do Estado). As experiências adquiridas durante a faculdade foram diversas, contudo, ainda não foram suficientes para o seu avanço profissional.


…pendurado na parede

Dois anos depois da formatura, o bacharel em jornalismo ainda não achou uma utilidade para o canudo que recebeu em janeiro de 2018. O questionamento ao valor do diploma de graduação na área, aliás, é muito anterior a Anselmo senti-lo na própria pele. Em 2019, completaram-se 10 anos desde o fim da obrigatoriedade da formação para o exercício da profissão. 

O presidente do STF (Superior Tribunal Federal) à época, ministro Gilmar Mendes, chegou a comparar jornalistas e cozinheiros ao justificar seu voto pela não obrigatoriedade do diploma. “Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão”, argumentava. “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária.” Para Gilmar Mendes, ambas as profissões não oferecem perigo de dano à coletividade e, nesse sentido, equiparam-se quanto à necessidade de formação.

O diploma de bacharel em jornalismo virou uniforme de trabalho na rua.

Em novembro de 2019, mais um passo rumo à desprofissionalização do jornalismo: o Governo Federal publicou uma Medida Provisória que, entre outras providências, revoga a obrigatoriedade (prevista no Decreto-lei nº 972/1969) do registro profissional para o exercício do jornalismo. Em nota oficial, a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) considera que com a medida, na prática, “o Estado brasileiro passa a permitir, de maneira irresponsável, o exercício da profissão por pessoas não-habilitadas, prejudicando toda a sociedade”.

Para Fábian Chelkanoff Thier, coordenador do curso de Jornalismo na PUCRS, onde Anselmo estudou, junto com a revogação do registro para jornalistas vem o desmantelamento das relações de trabalho e de salário. “Acho que isso vai causar um furor no mercado, inicialmente com uma redução de salário”, avalia o professor. “Muitos profissionais não vão se sujeitar a essa situação, o que vai causar também problemas na qualidade, com a entrada de mais pessoas desqualificadas para exercer o ofício.”



O que restou

Dos alunos formados em jornalismo na Famecos, conta Fábian, 65% estão empregados na área. O número é aproximado, já que vem de um levantamento feito de  forma “caseira”, como denomina o professor, pela coordenação da faculdade. Na PUCRS, o acompanhamento de egressos no que diz respeito à sua inserção no mercado de trabalho é realizado pelas relações que se mantêm entre corpo docente e discente após a formatura, já que não há um acompanhamento oficial.

Para Anselmo, essa assistência, mesmo que de maneira informal, é essencial. Formou-se, para ele, uma rede de apoio na faculdade foi um de seus professores quem, com a intenção de  chamar a atenção para a história de Anselmo e ajudar na divulgação da sua busca por trabalho, produziu as fotos que ilustram essa reportagem. 

Com histórico de distúrbios mentais na família — a mãe, de quem Anselmo tem a curatela, está aposentada por invalidez e internada em uma clínica por transtorno bipolar —, Anselmo faz tratamento psicológico para conter o surgimento de um quadro depressivo como o que viveram seu avô e seus tios. A insegurança que surge da procura infrutífera por emprego torna tudo mais difícil. O jornalista diz que chega a caminhar por seis horas no dia, em uma peregrinação para entregar currículos para vagas dentro e fora da sua área, mas recebe uma quantidade ínfima de respostas das empresas. “Me sinto como se estivesse numa prisão com as paredes de isolamento acústico. Grito, grito, grito e ninguém me ouve”, desabafa.


Esperança no futuro

“Tenho diploma pra quê?”, pergunta Anselmo. As respostas passam pela importância da formação para o exercício qualificado da profissão de jornalista, fundamental em democracias liberais, como destacam especialistas: seja na história, como faz o jornal O Estado de S.Paulo ao celebrar seus 145 anos de existência; seja no futuro, como projeta a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), ao publicar, em parceria com o Farol Jornalismo, o dossiê O jornalismo no Brasil em 2020.  

Em novembro do ano passado, o jornalista criou uma vaquinha online para ter mais segurança financeira no verão, período em que o trânsito e as vendas no semáforo devem diminuir na cidade. Mesmo com as dificuldades- ou justamente por conta delas – ele tem grandes sonhos. Seu maior desejo é trabalhar no exterior; quiçá em Portugal ou no Canadá, onde acredita haver mais oportunidades dignas de trabalho que lhe permitiriam dar uma boa assistência à mãe, mesmo que de longe. Reconhece, porém, que se dá um passo de cada vez – e o primeiro objetivo é simples: “Eu quero trabalhar!” 

Enquanto o almejado emprego em um portal de notícias não se concretiza, Anselmo entoa, diariamente, a mesma manchete: “Olha o mandolate, olha a rapadura, pessoal!”.

Resignado, Anselmo segue vendendo doces e sonhando com emprego no exterior.

FOTOS: Elson Sempé Pedroso/Especial

5 comentários em ““Escrevo notícias e vendo doces”: da faculdade ao semáforo, a história do jornalista que enfrenta a falta de emprego

  • 7 de janeiro de 2020 em 15:04
    Permalink

    Sou jornalista formada pela Famecos em 1975. Trabalhei até março de 2019. Agora, não consigo nem trabalho freelance. Estou aposentada – INSS – valores defasados e sem outra renda. É inacreditável que tenha dois cursos superiores e uma experiência de mais de 40 anos e passe necessidade no final da vida. Continue lutando, Anselmo.

    Resposta
  • 7 de janeiro de 2020 em 23:14
    Permalink

    Sou jornalista, formada há 16 anos pela Ulbra e nunca consegui emprego na área. Muito solado de sapato gastei nas entregas de currículos, muitas desculpas como ” vc é muito qualificada pra vaga” ou ” vc não tem o tempo de experiência que precisamos”, ouvi e muitas lágrimas derramei. Também senti a mesma sensação de estar em uma caixa pedindo pra ser ouvida. Enfim, é uma tecla que sempre bato: sem oportunidade, não se tem experiência.
    Mas por circunstâncias da vida e desilusão pela profissão, acabei abandonando a área e ingressando em outras… Mas vc tem força e garra Anselmo, não desista.

    Resposta
  • 8 de janeiro de 2020 em 01:24
    Permalink

    Tive a sorte de me formar pela FAMECOS em 1973, no auge da profissão formal. Fiz o primeiro concurso público para o estado do RS, quando o cargo foi criado, e estou aposentada. Então, sempre trabalhei no serviço público e tenho boas lembranças e um salário muito acima do piso oficial. Lamento não ser mais exigida a diplomação. Enquanto os cozinheiros fazem cursos no Senac, para serem chefs, o MT dispensa a graduação de quem vai formar a opinião pública. É o Brasil entregue aos picaretas!

    Resposta
  • Pingback:“Escrevo notícias e vendo doces”: da faculdade ao semáforo, a história do jornalista que enfrenta a falta de emprego | Felipe Vieira

  • 29 de janeiro de 2020 em 18:56
    Permalink

    R$ 90 reais por dia não é tão ruim, mesmo os R$1.800, já que ele nem trabalha todos os dias. O que complica é a falta de segurança, mas de resto… Uma merendeira que queima a teta no fogão, lava aquele mundo de panela e ainda tem a comida criticada ganha só R$ 1 mil por mês e isto é no mercado formal, até com concurso público, e eu nem falei que esse valor tem os descontos trabalhistas.

    É claro que chama atenção por ser um formado e só vim aqui porque isto me feriu, sou da classe também. Sou paulista e vim para o Tocantins tentar a sorte e acabei me fixando pela falta de profissionais formados. Tirando as afiliadas da Globo e uma assessoria ou outra, ninguém paga mais do que R$ 1.5 pra ralar o dia todo, ser pauteiro, repórter e apresentador. E tem aqueles que preferem pagar um não jornalista por menos de R$ 1 mil.

    O que o presidente fala só reflete a desvalorização da profissão e desentendimento do que é a imprensa. Ninguém entende que a notícia é um produto. A gente vive a crítica da imparcialidade e da perseguição, que é um mito criado pela própria imprensa, isto me irrita profundamente.

    Enfim, é verdade: cada povo tem a imprensa que merece.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *