Sem mulheres concorrendo a melhor direção, Oscar 2020 mantém tendência conservadora

Em mais de 90 anos de premiação, até 2019 apenas 3,31% dos cineastas indicados eram mulheres, negros e amarelos; edição deste ano mantém a tendência.

*Júlia Ozorio / Fabico + Humanista

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou no início dessa semana a lista de indicados ao Oscar 2020 com Democracia em Vertigem, produção brasileira dirigida pela cineasta Petra Costa, entre os concorrentes a melhor documentário. A indicação pautou os debates no país entre os amantes de cinema e também no conturbado cenário político atual – o filme de Petra retrata o golpe parlamentar sofrido pela ex-presidente Dilma Rousseff e a ascensão da extrema-direita até a eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018.

Outro debate suscitado pela lista de indicados chama a atenção para o tema da diversidade – ou da ausência dela: não há mulheres indicadas a melhor direção, por exemplo. A edição deste ano reitera uma triste tendência percebida pelo Humanista a partir da premiação de 2019, até quando apenas 3,31% dos cineastas indicados eram mulheres, negros e amarelos, segundo reportagem de dados produzida pela repórter Júlia Ozorio.

E não é por falta de opção. Não a partir da análise do jornalista Sérgio Rizzo, crítico de cinema e doutor pela USP (Universidade de São Paulo), para quem, em comentário durante o jornal Edição das 10h, da Globonews, na segunda-feira, dia 13, a cineasta Greta Gerwig mereceria um lugar entre os concorrentes a melhor direção. Ela dirigiu Adoráveis Mulheres, indicado a melhor filme em 2020.


Estereótipos marcam indicações

De acordo com o Award Databases, um repositório digital que registra os cineastas indicados de cada edição, apenas cinco são mulheres, dos 453 indicados à premiação até 2019, em mais de 90 anos de existência da cerimônia. Ou seja, uma mulher é indicada ao Oscar de melhor diretor a cada 90,6 participantes. Os números são parecidos quando se trata de negros e amarelos, que representam apenas 1,1% cada.

Fonte: Júlia Ozorio/Humanista.

Para Ana Heloiza Pessotto, idealizadora da plataforma A cineastA, projeto que reúne um catálogo de obras audiovisuais brasileiras dirigidas por mulheres cis e trans em formato de aplicativo, esses dados demonstram os padrões e estereótipos da cultura hegemônica . “Quando falamos de diversidade cultural, estamos falando da importância de uma representação de narrativas não hegemônicas, que são feitos por mulheres, negros, indígenas ou qualquer outra minoria social, pessoas que estão trazendo uma perspectiva nova, diferente daquela que esteve presente, por exemplo, naquilo que conhecemos como ‘TV de massa’ e cinema popular, que representa o outro a partir do seu olhar e do seu estereótipo”, argumenta.

Ana Pessotto é pesquisadora de Gestão da Criatividade para o setor audiovisual na Unesp. Foto: Arquivo Pessoal.

A respeito de onde nasceram, os dados mostram que os países mais expressivos são Estados Unidos, com 242 diretores; Reino Unido, com 76; e Alemanha, com 20. Os países com apenas um diretor indicado são: Brasil, Argentina, Chipre, Egito, Espanha, Irã, Noruega, Romênia e Uganda.

Fonte: Júlia Ozorio/Humanista.

Os números mostram que o perfil dos cineastas indicados ao Oscar de Melhor Diretor é: homem, branco, de 48 anos, estadunidense.


Os vencedores de Melhor Direção

O cenário pouco plural também se repete quando a análise é apenas sobre os vencedores. Em quase um século de cerimônia, nenhum negro ganhou o Oscar de Melhor Diretor. Porém, apesar de não ganhar a categoria, o drama policial Os Donos da Rua, de 1991, fez do diretor John Singleton (foto à esquerda) a pessoa mais jovem indicada para melhor diretor, aos 23 anos. 

John Singleton.

O cineasta Ang Lee foi vencedor da categoria duas vezes. A primeira pela direção do drama O Segredo de Brokeback Mountain, no Oscar de 2006; e com o filme A vida de Pi, em 2012. Ang Lee foi o único diretor amarelo a ganhar melhor direção, representando 2,12% dos vencedores.

Ang Lee

Em 2010, Kathryn Bigelow entrou para a história como a primeira —  e única —  mulher a receber o Oscar de Melhor Diretor, com Guerra ao Terror. Ou seja, em um total de 94 ganhadores, apenas uma mulher levou o troféu para casa. Dessa forma, a porcentagem de mulheres cai para 1,06%.

Kathryn Bigelow.

Ao todo, 94 pessoas ganharam essa categoria do Oscar. Na primeira edição, a premiação foi dividida em: Melhor Direção de Drama e Melhor Direção de Comédia. Além disso, em 1962 e 2008, a direção ganhadora era compartilhada, ou seja, dois diretores. Em 1930, duas pessoas também ganharam. No ano de 1933 não houve premiação, repetindo os ganhadores de 1930.

Fonte: Júlia Ozorio/Humanista.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi fundada em 1927, porém a primeira premiação aconteceu apenas em 1929. A entrega do Oscar deste ano ocorre no dia 9 de fevereiro, em Los Angeles (EUA).


*Trabalho originalmente produzido na disciplina de Ciberjornalismo II do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS em 2019/2, sob a orientação do professor Marcelo Träsel. Edição: redação Humanista, 2019/2.

IMAGENS: Flickr/Google – reutilização não comercial.

Um comentário em “Sem mulheres concorrendo a melhor direção, Oscar 2020 mantém tendência conservadora

  • 16 de janeiro de 2020 em 21:27
    Permalink

    Muito bom. Mas seria interessante se tivesse uma comaração do número de diretoras de cinema com o numero de diretoras indicadas ao Oscar. Sem essa comparação, acho que não fica claro se é a própria cerimônia do Oscar que exclui as mulheres ou são as mulheres, que por algum motivo, não são maioria nesse meio.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *