Humanista

Cultura do estupro: 85% das vítimas no Brasil são mulheres e 70% dos casos envolvem crianças ou vulneráveis

Relatos de vítimas de abuso sexual revelam um perfil comum: mulheres exploradas, objetificadas e violentadas desde o nascimento; a cada 8 minutos um estupro é cometido no país.

Stéffany Cuacoski

No Brasil, um estupro é registrado a cada 8 minutos; 85% das vítimas são mulheres; em 70% dos casos, a vítima é criança ou vulnerável; quase 84% dos estupradores são conhecidos das vítimas. Números tristes que sustentam uma “cultura do estupro” no país. E em cada número, uma história. A vítima pode ser famosa ou anônima, mas os enredos repetem marcas que perpassam os perfis de mulheres exploradas, objetificadas e violentadas desde o nascimento.



O caso da jovem Mariana Ferrer mobilizou as redes sociais e a mídia, após a sentença que absolveu seu estuprador, André de Camargo Aranha, que alegou não saber se havia ou não consentimento no ato sexual, caracterizando o crime como “estupro culposo”

Isso poucas semanas depois da visibilidade do caso Robinho. O jogador foi condenado em primeira instância a nove anos de prisão pela justiça italiana, acusado por um estupro coletivo contra uma mulher embriagada durante uma festa, em 2013. A sua contratação pelo Santos Futebol Clube, mesmo diante da condenação, foi suficiente para reacender o debate sobre a cultura do estupro, já que o jogador, que  ainda não foi punido pelo crime, seguiria na posição de ídolo do futebol, contratado por um dos maiores clubes brasileiros. 

Mais recentemente, um jogador da equipe sub-20 do Sport Club Internacional, Matheus Monteiro, foi flagrado em um vídeo publicado nas redes sociais contando que dopou uma mulher em uma festa, colocando droga em sua bebida.

Há, em todos esses episódios, algo em comum, além da visibilidade percebida pela mídia: a culpabilização da vítima.  Seja por estar bêbada ou por qualquer outra conduta tida como moralmente condenável, a mulher deixa de ser vista como vítima e passa a ser ré pela violência que sofreu, antes mesmo que quaisquer explicações sejam solicitadas aos seus estupradores. Mas, o que mais há em comum entre as vítimas de estupro? O que carregam as histórias não contadas de mulheres invisíveis e silenciadas? O Humanista foi atrás de repostas.



“Ele ameaçava matar minha mãe se eu contasse qualquer coisa, e dizia que eu seria a culpada por isso”

Desde pequena acompanhava a violência de perto, na casa onde vivia com os pais e onde supostamente deveria se sentir mais segura e protegida. Isabel* (nome fictício) é filha de um pai alcoólatra e cresceu em meio às agressões físicas e psicológicas sofridas pela mãe. Com ela, não foi muito diferente, por volta dos 6 anos de idade, ainda sem compreender do que se tratava, os abusos sexuais começaram a acontecer. O pai, que frequentemente perdia o emprego por brigas e desentendimentos desencadeados pelo vício, passava as tardes “cuidando” da filha, e aproveitava a saída da esposa ao trabalho para ir até seu quarto. Isabel relembra que se escondia debaixo da cama quando ouvia a porta da frente bater e o silêncio que se fazia depois. De acordo com o Anuário de Segurança Pública de 2019, 64% dos casos de estupro de vulneráveis acontecem no momento em que os pais ou responsáveis estão no trabalho, durante o período da manhã ou tarde.



A menina tentou contar à mãe, que na época não acreditou e a mandou “parar de inventar histórias”. Sem ter a quem recorrer e acreditando ser culpada por todos os abusos que sofria, aos 10 anos passou a se vestir e andar como os meninos da escola, na tentativa de se parecer com um. Suas roupas eram largas e o cabelo curto. Afinal, quanto menos mostrasse seu corpo, mais despercebida e invisível passaria por homens como o pai. Além dos abusos sexuais, apanhava diariamente, e foi torturada, ameaçada e queimada por cigarros durante toda a infância, “ele ameaçava matar minha mãe se eu contasse qualquer coisa, e dizia que eu seria a culpada por isso”, conta.

Com 14 anos, Isabel lembra que os abusos foram se tornando mais raros, mas ainda temia pela irmã caçula. Quando percebeu que a mãe era conivente com tudo o que acontecia ali, decidiu sair de casa, com a mochila nas costas e um emprego de doméstica em uma casa de família, que daria a ela a chance de recomeçar e de ter um lar longe de toda a violência onde cresceu.

Aos 16 anos engravidou do primeiro namorado, com quem vive até então. Hoje, aos 39 anos, ainda se sente incomodada com o próprio corpo e evita ter relações sexuais com o marido. “Nunca contei ao meu marido tudo o que passei lá em casa. Ele sabe que tive uma infância difícil, mas não faz ideia do que de fato já vivi e dos abusos daquele homem”, desabafa, ao falar do pai que não vê há mais de uma década. Em mais de 84% dos casos, o estuprador é alguém de confiança ou familiar da vítima, também segundo o Anuário de Segurança Pública de 2019.



Isabel admite que quase não cuida de sua aparência e, atualmente, diz ainda ter dificuldades de se olhar no espelho e gostar de si mesma. “Quem é abusada carrega isso para o resto da vida, essa sensação de estar sempre suja, de nunca ser boa o bastante”, lamenta.

“Não lembro exatamente o quê ou como aconteceu, apenas que eu não queria e pedia pra ele parar. No outro dia vi sangue na minha calcinha e nas roupas de cama”

Mariana* (nome fictício) é filha única. Nunca viu o pai levantar a voz para a mãe ou para ela. Teve uma infância feliz e segura, rodeada de amigos e do afeto dos avós. Do lado de dentro dos altos muros que protegiam o condomínio onde morava, a única violência que podia perceber se passava pela televisão. Aos 14 anos, conheceu um jovem três anos mais velho. “Foi a minha primeira paixão, e meus pais achavam que, se eu tivesse um namorado, estaria mais segura, não sairia para festas, beberia ou me encontraria com pessoas estranhas, como minhas amigas na época”, explica. Os dois começaram a namorar em casa, passavam os finais de semana juntos, mas a adolescente ainda não se sentia segura para ter sua primeira relação sexual, embora ele já tivesse a questionado a respeito algumas vezes. 

Em um sábado à noite, seus pais saíram para uma festa com os amigos e os deixaram sozinhos em casa. Depois de algumas doses da vodka que encontraram na geladeira, Mariana lembra que decidiu ir para o quarto, pois não se sentia bem. “Eu disse que queria dormir, que não estava bem, me senti tonta. Deitei e pouco tempo depois ele começou a me beijar, mesmo eu negando e pedindo pra ele parar. Não lembro exatamente o quê ou como aconteceu, apenas que eu não queria e pedia pra ele parar. No outro dia vi sangue na minha calcinha e nas roupas de cama”, relembra a jovem, agora com 24 anos. Mais de 70% dos casos de violência sexual registrados, de acordo com o Anuário, são de vítimas menores de 14 anos, pessoas alcoolizadas ou com alguma enfermidade que impeça de oferecer resistência ao abusador. 



A menina contou à mãe, que de alguma maneira fez o até então namorado da filha desaparecer dos olhos da família e do seu círculo de amigos. “Nunca mais nos vimos ou conversamos. Ele me bloqueou de todas as redes sociais, o que eu mesma teria feito, e até hoje não tive coragem de voltar a tocar no assunto com minha mãe e perguntar a ela como fez pra ele sumir assim”. Mariana relembra que o pai nunca ficou sabendo, “eu ainda tenho um pouco de dificuldade em falar sobre isso. Essa foi a minha primeira vez, contra minha vontade e com o cara que eu achava que me amava. Até hoje ainda sinto dificuldade em confiar em outros homens e nunca mais namorei”. Segundo dados de 2019, 56% dos casos de estupros de mulheres ou jovens adultas ocorrem no período da noite ou da madrugada.



“Achava que não merecia ser feliz e que ninguém podia gostar de mim – não se soubesse de toda a minha história”

Aos 8 anos, Paula* (nome fictício) perdeu o pai e foi morar com a mãe, usuária de drogas. Na nova casa, foi abusada pela primeira vez. Os abusos, nesse caso, não eram praticados apenas por uma pessoa, mas por vários tios. Nessa idade, a menina ainda não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que havia algo de errado nos toques e carícias que recebia daqueles homens que frequentavam sua casa. Aos 10 anos foi violentada pelo namorado da mãe, que mais tarde se tornou seu padrasto. Diferente dos outros, era atencioso, levava doces e brinquedos, e pela primeira vez sentiu-se amada desde a morte do pai. Paula relembra como ele se esforçava para ficar sozinho com ela, “meus irmãos podiam brincar na rua, mas eu não, eu tinha que ficar com ele. Me tocava, tirava a minha roupa, e eu ficava completamente parada, sem qualquer reação, só com medo e raiva”, relembra, com a voz embargada. Mais de 18% das vítimas têm entre cinco e nove anos de idade e 11,2% são bebês de zero a quatro anos (dados do Anuário de Segurança Pública de 2019).



Quando tudo terminava, a criança passava horas no banho tentando se limpar. O padrasto, vestia-se rápido e ia para o trabalho, “e assim foi por mais ou menos três anos, aos 14 isso parou de vez”, desabafa. Apesar de tantos anos sendo violada frequentemente, a menina nunca contou a alguém o que estava acontecendo, nem mesmo à professora, que havia notado sua mudança de comportamento. “Deixei de ser a criança feliz e simpática que era, pra me tornar uma adolescente rebelde e revoltada. Sentia uma culpa tão grande e não conseguia fazer nada, a única alternativa que encontrei foi renegar a mim mesma, me mutilando e mutilando meu corpo”, lamentou. 

Com a autoestima em pedaços, começou a se anular e se afastar de todos que tentassem se aproximar, evitando qualquer relação que pudesse machucá-la outra vez. O sentimento de culpa lhe tirou a capacidade de confiar e acreditar em alguém. Apenas muitos anos depois dos abusos, Paula entendeu que não passava de uma vítima de todas aquelas histórias. Hoje, com 43 anos, conta que faz terapia e uso de antidepressivos, parte, por conta do passado, que ainda está aprendendo a encarar. “Vivi muito tempo da minha vida atormentada, infeliz e sem perspectiva nenhuma de futuro. Achava que não merecia ser feliz e que ninguém podia gostar de mim – não se soubesse de toda a minha história”, desabafa, após lembrar dos dois filhos e do marido, que hoje são o motivo de sua felicidade, apesar dos traumas deixados pela infância. 

As histórias de Isabel, Mariana e Paula*, refletem a realidade de milhares de mulheres e crianças vítimas da cultura do estupro, do machismo e da misoginia a que somos forçadas a enfrentar todos os dias. Em 2019, foram registrados 66.123 casos de estupro nas delegacias de todo o país. 



FOTO DE CAPA: ninocare/pixabay
FOTOS SOB AS ARTES: Canvas Pro

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