EDITORIAL | Vacina para todos já!

Humanista acompanhará a imunização de brasileiros e brasileiras a partir da semana que vem, quando começa o semestre letivo na UFRGS.

Atrás de muitos países, na frente de outros tantos, 326 dias após a notificação do primeiro caso de infecção por Covid-19 em território brasileiro, 8455059 casos confirmados depois e passadas 209296 mortes pela enfermidade no país, finalmente chegou o dia D e a hora H. Às 15h30 do domingo, dia 17 de janeiro de 2021, foi vacinada a primeira pessoa em território nacional. Mônica Calazans, 54, mulher negra e enfermeira da linha de frente contra a Covid-19, recebeu uma dose da CoronaVac no Hospital das Clínicas de São Paulo e deu início ao processo de vacinação nacional sem data final definida (foto). 

Pouco mais de 24 horas depois, duas mulheres foram vacinadas no Rio de Janeiro, aos pés do Cristo Redentor – na esperança de que ele pudesse nos salvar neste momento. A idosa Terezinha da Conceição, 80, e a técnica de enfermagem Dulcinéia da Silva, 59, que atua na linha de frente contra a Covid-19, receberam a primeira dose da CoronaVac às 18h20, em uma cerimônia bastante teatral. 

No mesmo dia 18, a vacina também chegou ao Rio Grande do Sul. Às 23h45, cinco pessoas pertencentes ao grupo de risco foram vacinadas no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, também com a primeira dose da CoronaVac. No total, o estado recebeu 341,8 mil doses do imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac. As doses foram distribuídas entre 496 municípios gaúchos e vão garantir a imunização de 162 mil pessoas.

Apesar dos números tirarem o Brasil do zero, são, na verdade, ínfimos. A quantidade de vacinas destinadas à capital gaúcha neste primeiro momento, por exemplo, é capaz de imunizar apenas 25 mil pessoas. A fase 1, no entanto – focada na vacinação de pessoas de 60 anos ou mais que vivem em instituições para idosos, trabalhadores da Saúde, população indígena, população quilombola e idosos acima de 75 anos -, deve contemplar 163 mil pessoas. A fase seguinte deverá imunizar até 149 mil cidadãos, de 60 a 74 anos. Na terceira fase, serão 192 mil imunizados em Porto Alegre, todos pacientes com comorbidades. Trabalhadores da Educação, forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional, população privada de liberdade, população em situação de rua, pessoas com deficiência permanente severa, transportadores rodoviários de carga, trabalhadores do transporte coletivo, totalizando 140 mil pessoas, receberão a vacina na fase 4. A quantidade disponível atualmente na capital é suficiente para imunizar apenas 3,8% do objetivado somente nessas primeiras quatro fases, fora o restante da população maior de 18 anos que não se encaixa nesses grupos.

Em escala nacional, a situação não é diferente. O Brasil tem apenas 6 milhões de doses disponíveis da CoronaVac, do Instituto Butantan, que representam um quinto do necessário para concluir com sucesso apenas a primeira fase de imunização no país. Outros 4,8 milhões de doses da mesma vacina podem ser liberadas após o processo de uso emergencial que tramita junto à Anvisa desde o último dia 18. Além destas, estavam em negociação 2 milhões de doses da vacina da Universidade de Oxford com o laboratório AstraZeneca, em parceria com a Fiocruz, mas a negociação do Governo não teve sucesso, e as nossas vacinas ainda estão presas na Índia.

Enquanto o Ministério da Saúde não tem um cronograma de vacinação nacional contra a Covid-19, a previsão é de que nos próximos quatro meses sejam vacinados em três fases os integrantes dos grupos prioritários e, nos 12 meses seguintes a isso, seja imunizada o resto da população apta a receber a vacina. 

Estima-se, ainda, que o país vá receber ainda neste ano 210 milhões de doses da vacina de Oxford somadas a 100 milhões de doses da CoronaVac, ambas aplicadas em duas doses, permitindo a vacinação de aproximadamente 155 dos 212 milhões de habitantes do Brasil. Considerando que, segundo o IBGE, o país tem em torno de 50 milhões de pessoas abaixo dos 18 anos – que não serão imunizadas contra a Covid-19 – ficariam faltando algo como 7 milhões de vacinas ou 14 milhões de doses, de acordo com os nossos cálculos. Sabendo também que existem outros grupos de pessoas não aptas a serem vacinadas e outras tantas que se recusarão a serem imunizadas, a quebra parece aceitável.

Aliás, todos esses dados seriam aceitáveis, se não fosse a previsão inicial de terminar de vacinar a população no final do primeiro trimestre de 2022 – mais de dois anos após o primeiro caso notificado no país – e a informação de que a totalidade das vacinas chegará no presente ano, o que pode acontecer amanhã ou nos 347 dias seguintes. Já passou da hora de as autoridades públicas recorrerem às medidas cabíveis para garantir – à revelia do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que sequer esconde que o combate à pandemia não é prioridade – um plano que dê conta de acelerar esse processo e garantir vacina para todos.

O Humanista acompanhará a imunização dos brasileiros e brasileiras a partir do olhar curioso e comprometido com os direitos humanos de repórteres que chegam para compor a redação na semana que vem, com o início do semestre letivo na UFRGS. Ajude-nos a produzir informação sobre esse momento tão importante da história do Brasil e do mundo: nos conte como anda a vacinação na sua cidade!      


FOTO DE CAPA: Governo do estado de São Paulo.

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