EDITORIAL | O Big Brother e a “cultura do cancelamento”

O reality show mais assistido do país pauta diferentes assuntos nos três meses que vai ao ar pela TV Globo; o tema da edição atual até aqui é a cultura do cancelamento.

O começo do ano é sempre confuso. Para parte dos brasileiros, só começa mesmo “oficialmente” depois do Carnaval. Para o Humanista, quando a nova redação assume. E há, ainda, um evento anual na cultura brasileira que ocorre em janeiro – esse ano, coincidindo com a chegada da nova redação: o reality show Big Brother Brasil. Apesar das críticas de setores da política e da academia, ancoradas na suposta alienação que o programa produz, ele costuma pautar o debate público. E o tema da edição atual é a chamada “cultura do cancelamento”.

Como veículo jornalístico especializado em Direitos Humanos, nossa missão também é prezar pela dignidade das pessoas e produzir conhecimento sobre os dilemas éticos que marcam o nosso tempo, atravessado pelas dinâmicas do ambiente digital. O BBB é o assunto mais falado no momento e não poderíamos, ao iniciar o trabalho no portal, deixar de nos posicionar. 

O programa, que foi ao ar pela primeira vez em 2002, chega em 2021 à sua 21ª edição. A fórmula é mais ou menos sempre a mesma: entre 14 e 20 pessoas isoladas em uma casa, com jogos colocam umas contra as outras, e a disputa pelo prêmio em dinheiro para o vencedor – esse ano, R$ 1,5 milhão. Racismo, intolerância religiosa e machismo já foram temas mobilizadores da opinião pública a partir de questões expostas no programa, e, agora, a cultura do cancelamento. Lucas Penteado (participante que desistiu do jogo) teve atitudes inconvenientes com as mulheres da casa durante uma festa em que estava sob o efeito de álcool, a partir de quando o resto dos participantes passaram a excluí-lo e a violentá-lo psicologicamente – principalmente Karol Conká e Lumena Aleluia -, acendendo o debate: é aceitável cancelar alguém assim?

Lumena xinga Lucas, que desistiu do jogo. FOTO: reprodução/TV Globo

Com 20 pessoas confinadas, há diferentes vivências, diferentes experiências, diferentes traumas, e ao entrar em um jogo que a base é o relacionamento, é necessário saber lidar com o outro – e com a complexidade desse outro. Lucas Penteado demonstrou que queria aprender depois dos erros que cometeu. Tentou escutar os colegas de confinamento, mas não encontrou empatia. Pelo contrário, a escolha dos outros participantes foi a exclusão, no limite de impedi-lo de comer na mesma mesa.

O grupo formado por Karol Conká, Lumena e Projota, algozes de Lucas, segue no jogo, mas não sabe das consequências de suas ações e nem como estão sendo vistos pelo público. Nego Di, que também fazia parte do grupo, foi eliminado na noite de terça-feira (16) com a porcentagem recorde de 98,76%. Na manhã desta quarta (17), declarou estar sofrendo ameaças de morte em conversa com Ana Maria Braga no programa Mais Você, da TV Globo. Além disso, o comediante compartilhou com o público que sua mãe tinha medo de andar na rua e que seu filho não estava conseguindo ir à escola por causa das ameaças. 

Não teria ido o cancelamento longe demais? Seja o cancelamento de Lucas, lá dentro, seja o de Nego Di, aqui fora, o que essa cultura pode nos ensinar? 

E quando não há vontade de aprender? E quando não há vontade de mudar? É hora, então, de criticar e apontar os erros. Quando não há o retorno do outro, o boicote pode tornar-se uma alternativa. A rapper Karol Conká é um exemplo: poderá perder até 5 milhões após a participação no BBB, além de já ter tido a participação em mais de um evento cancelada

As perdas sofridas por Karol, aliás, levantam outro debate: como o cancelamento tem diferentes níveis e reações dependendo de gênero, raça e classe social. Projota é seu parceiro de jogo, mas não perdeu contratos, não perdeu milhões. Em outro reality show, A Fazenda, da TV Record, o cantor Biel chegou à final, ficando em segundo lugar, mesmo após polêmicas envolvendo assédio sexual a uma jornalista e uma acusação de agressão física a ex-esposa. Karol, apesar dos seus erros, segue sendo uma mulher preta e enfrentará mais duramente as críticas e reações de uma sociedade marcada pelo racismo e pelo machismo estruturais.

Parte da contundência das críticas dirigidas à Conká, por outro lado, decorrem da figura pública que ela representa: uma mulher empoderada, empática, engajada na luta antirracista e feminista, que se posicionava e abordava questões sobre relações tóxicas. Sua exposição pública, no entanto – o que vemos nas redes sociais, o que conhecemos pela mídia – é muito diferente do que acontece na vida privada. Mesmo no BBB, com câmeras 24 horas por dia, as relações sociais são artificializadas, porque os participantes sabem que estão sendo gravados,  e que “o Brasil está vendo”. 

Imagine, então, como é o cotidiano de homens e mulheres que enfrentam preconceitos sem o apoio de milhões de espectadores sensibilizados. Mesmo com todas as câmeras, Lucas sofreu o que pessoas comuns sofrem diariamente: questionamentos sobre a sua sexualidade, invalidação da sua dor e do seu sentimento; a exclusão ao invés da pedagogia. Cancelar nas redes sociais é excluir: aponta-se o dedo, critica-se, mas não se dá o tempo para uma resposta, um pedido – sincero – de desculpas e a correção dos erros; o julgamento em si se sobrepõe.

A empatia é o elemento fundamental para uma boa relação entre as pessoas e, também, para a preservação e a promoção dos Direitos Humanos. O Humanista acredita que uma “cultura do cancelamento” não pode ser legítima. Excluir, menosprezar, negar o espaço de escuta e de aprendizagem. Linchamento, exclusão e tortura psicológica não são métodos pedagógicos para corrigir o erro de alguém. Durante o semestre, pautaremos temas como a própria “cultura do cancelamento”, o combate à LGBTQI+fobia e o antirracismo; assuntos do reality show e do cotidiano de milhões de brasileiros e brasileiras.


FOTO DE CAPA: reprodução/TV Globo

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