EDITORIAL I Dia da Educação em meio à pandemia salienta necessidade de valorização da área

O apressado retorno às aulas no Rio Grande do Sul precisaria ser acompanhado da imunização de professores e trabalhadores do ensino.

Desde que buscou a flexibilização da bandeira preta para a volta às aulas presenciais, no final de fevereiro, o governador Eduardo Leite (PSDB) tem travado uma batalha na Justiça. Nesta quarta-feira (28), a primeira grande vitória do governo foi sacramentada: com um novo decreto, as escolas do Rio Grande do Sul podem ser abertas. A medida se deu, coincidentemente, em uma data simbólica: o Dia da Educação.

Para que a decisão de abrir as escolas fosse mantida, Eduardo Leite precisou recuar o estado inteiro da bandeira preta para a vermelha. Além disso, realizou uma série de mudanças no texto do sistema de distanciamento controlado, a fim de que não houvesse inconsistências que permitiriam à Justiça revogar a volta às aulas – algo que ocorreu em diversos momentos nos últimos meses. Mesmo que o momento seja de queda na média móvel de casos, os indicadores são piores do que os que levaram o Rio Grande do Sul à maior restrição até hoje, em fevereiro. 

Em suma, os movimentos feitos pelo governador para que as escolas fossem abertas têm influência direta em outras medidas relacionadas ao controle da pandemia. Assim, o tiro pode sair pela culatra, visto que o controle sanitário e as medidas preventivas são chaves para que as aulas ocorram de maneira aceitável, e um provável afrouxamento do controle pode desequilibrar a situação. 

Quanto às escolas, todos os níveis de ensino tiveram seu funcionamento híbrido liberado pelo novo decreto. Em reportagem publicada em março, o Humanista apontou a falta de condições sanitárias em escolas públicas de Porto Alegre, já que, naquele momento, discutia-se a volta das aulas presenciais para a educação infantil e para o primeiro e o segundo ano do Ensino Fundamental. A capital, assim como os outros municípios do estado, estão com suas instituições de ensino preparadas para o retorno?

No vídeo em que anuncia a volta às aulas, o governador do estado menciona mães, pais e alunos, mas não fala de professores e outros profissionais envolvidos com a educação. Tendo em vista as características do vírus, que configura risco maior a adultos do que a crianças, é de se esperar que quem está diretamente envolvido com a abertura das escolas receba o tratamento adequado para isso – o que, em meio a uma pandemia, pode ser relacionado à imunização.

A questão é que vacinar professores seria “furar a fila” que foi estabelecida pelo Ministério da Saúde. O Rio Grande do Sul buscou agir em direção à flexibilização da imunização, mas não obteve sucesso. Mesmo assim, as escolas estão sendo reabertas, o que demonstra que a vacinação não foi um critério para a decisão ante ao ânimo dos profissionais da área, que, logicamente, seguem exaltados

Outros estados anteciparam a campanha de vacinação mesmo sem o aval do governo federal para permitir um retorno mais seguro às aulas. Em São Paulo, 350 mil vacinas foram disponibilizadas para profissionais como faxineiras, merendeiras, diretores e professores de escolas. A imunização ocorre desde o dia 10 de abril, e a abertura das instituições de ensino se deu de maneira gradual a partir do dia 14. Rio Grande do Norte, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro são alguns dos estados que seguem o mesmo caminho de São Paulo.

Para o Humanista, as aulas presenciais só deveriam ocorrer com a devida imunização dos profissionais que estão na linha de frente da educação. Se a vacinação não pode ser antecipada, a abertura das escolas precisa seguir o mesmo caminho. Caso o Governo Leite entenda que não há como seguir com as instituições de ensino fechadas, há exemplos suficientes no país de estados que se organizaram para vacinar professores. Não há dois pesos e duas medidas: há, sobretudo, vidas em risco, e elas precisam ser preservadas, o que asseguraria uma efetiva priorização da educação, que tanto marca o discurso das autoridades políticas.


FOTO DE CAPA: Amanda Perobelli/Reuters – uso não comercial

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