﻿{"id":14470,"date":"2021-10-01T19:32:51","date_gmt":"2021-10-01T22:32:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=14470"},"modified":"2021-10-01T19:32:54","modified_gmt":"2021-10-01T22:32:54","slug":"a-vitoria-do-partido-social-democrata-na-alemanha-apos-16-anos-de-angela-merkel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2021\/10\/01\/a-vitoria-do-partido-social-democrata-na-alemanha-apos-16-anos-de-angela-merkel\/","title":{"rendered":"A vit\u00f3ria do Partido Social-Democrata na Alemanha ap\u00f3s 16 anos de Angela Merkel"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">A atual chanceler, Angela Merkel, foi uma das chefes de estado mais longevas da hist\u00f3ria da Alemanha, e decidiu n\u00e3o concorrer este ano. As elei\u00e7\u00f5es presidenciais do pa\u00eds colocam o espectro da pol\u00edtica interna alem\u00e3 mais \u00e0 esquerda, com a <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/09\/27\/eleicoes-na-alemanha-partido-social-democrata-venceu-por-margem-pequena-segundo-resultados-iniciais.ghtml\"><strong>vit\u00f3ria nas urnas do Partido Social-Democrata<\/strong><\/a>. No \u00faltimo fim de semana, foram realizadas elei\u00e7\u00f5es para formar o novo governo federal alem\u00e3o. Ap\u00f3s 16 anos como mandat\u00e1ria do pa\u00eds, Angela Merkel, da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Crist\u00e3, deixar\u00e1 o cargo, e o far\u00e1 com alto \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados, abre-se o prazo para a forma\u00e7\u00e3o da coaliza\u00e7\u00e3o que sustentar\u00e1 o novo governo. E o <strong>Humanista<\/strong> analisa as possibilidades de forma\u00e7\u00e3o de um acordo, a trajet\u00f3ria de Angela Merkel \u00e0 frente da Alemanha, o perfil do principal candidato a seu substituto e tamb\u00e9m as implica\u00e7\u00f5es desta elei\u00e7\u00e3o para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As elei\u00e7\u00f5es, as li\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No dia 26 de setembro, os eleitores alem\u00e3es foram \u00e0s urnas para formar um novo governo federal pela primeira vez desde 2005 sem a possibilidade de eleger Angela Merkel para o cargo mais alto do pa\u00eds. O seu partido, a conservadora Uni\u00e3o Democrata-Crist\u00e3 (CDU), ficou em segundo na vota\u00e7\u00e3o, perdendo por 25,7% a 24,1% para o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda. Apesar do alto \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o do longo mandato de Merkel, na faixa dos 70%, a popula\u00e7\u00e3o optou por uma leve altern\u00e2ncia de poder ao votar mais no SPD do que na CDU, levando em conta tamb\u00e9m a maior popularidade de Olaf Sholz, l\u00edder dos social-democratas, em compara\u00e7\u00e3o a Armin Laschet, o candidato do partido de Merkel. O mais prov\u00e1vel agora \u00e9 que o SPD tente formar sua nova coaliz\u00e3o governamental sem a CDU, e junto aos Verdes e ao Partido Democr\u00e1tico Liberal, mesmo com as discord\u00e2ncias entre esses grupos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Armin Laschet, ministro-presidente do estado da Ren\u00e2nia do Norte-Vestf\u00e1lia e atual l\u00edder da CDU, era o principal favorito para vencer as elei\u00e7\u00f5es, justamente impulsionado pela alta popularidade de Merkel, que o apoiou. Contudo, seu desempenho na campanha foi bem abaixo do que o seu partido esperava, pela sua falta de carisma, pela alta de casos de Covid-19 no estado que administra, e tamb\u00e9m por ter sido flagrado dando risadas de uma piada enquanto Frank-Walter Steinmeier fazia um discurso solene em solidariedade \u00e0s v\u00edtimas das enchentes que devastaram parte do pa\u00eds em julho. Seu fraco desempenho fez a CDU perder cerca de 10 pontos percentuais entre as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o e os votos efetivamente computados na elei\u00e7\u00e3o, abrindo caminho para a vit\u00f3ria do SPD.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outras li\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m restaram da elei\u00e7\u00e3o alem\u00e3. A primeira \u00e9 o aparente ressurgimento da social-democracia na Europa. Depois de um per\u00edodo em baixa no continente, o sistema pol\u00edtico que governou boa parte dos pa\u00edses do bloco europeu durante muitos anos no S\u00e9culo XX &#8211; ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial &#8211; agora se mostra novamente fortalecido, com vit\u00f3rias recentes em Portugal, nos pa\u00edses escandinavos e agora na maior pot\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso destacar a for\u00e7a crescente dos Verdes, partido que tem como plataforma principal a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente e o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Eles foram os terceiros mais votados, e devem compor a nova coaliz\u00e3o de governo. Por fim, o partido de extrema-direita AfD, com assumidas inclina\u00e7\u00f5es neonazistas, teve um resultado pior do que esperavam. Os discursos populistas e conspirat\u00f3rios quanto \u00e0 pandemia, que fortaleceram a extrema-direita em muitos pa\u00edses ao redor do mundo, n\u00e3o encontraram muito eco na Alemanha, em raz\u00e3o da competente gest\u00e3o da crise sanit\u00e1ria no pa\u00eds por parte do governo federal. Assim, acabaram com apenas 11%, perderam alguns lugares no parlamento, e, como j\u00e1 avisaram SPD e CDU, est\u00e3o fora de qualquer cogita\u00e7\u00e3o para formar a nova coaliz\u00e3o governamental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Angela Merkel e Olaf Scholz<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Angela Merkel, formada inicialmente em Qu\u00edmica Qu\u00e2ntica, governa a Alemanha desde 2005. Nesses 16 anos de lideran\u00e7a, em que se tornou a terceira mais longeva chefe de estado da hist\u00f3ria da Alemanha, ela colecionou mais elogios do que cr\u00edticas, e se consolidou como uma das mulheres e l\u00edder mundial mais poderosas do mundo \u2013 por vezes a mais. Recentemente, al\u00e9m de ser a principal for\u00e7a pol\u00edtica da Uni\u00e3o Europeia, tamb\u00e9m se firmou como um importante ponto de resist\u00eancia \u00e0 ascens\u00e3o da extrema-direita, na Alemanha, no continente europeu e no resto do mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os principais eventos hist\u00f3ricos que passou como mandat\u00e1ria suprema de seu pa\u00eds, liderou a Alemanha durante a crise econ\u00f4mica mundial de 2008, a crise da zona do euro em 2013, a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia pela R\u00fassia em 2014, a crise de refugiados desta d\u00e9cada e agora a pandemia da Covid-19. \u00c0 esquerda global, foi principalmente criticada por sua negocia\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel contra os pa\u00edses mais pobres do bloco europeu, especialmente a Gr\u00e9cia, durante a crise do euro. \u00c0 direita, foi criticada por supostamente \u201cabrir as portas\u201d da Uni\u00e3o Europeia para milh\u00f5es de refugiados em 2015 e 2016, mesmo que anteriormente seu hist\u00f3rico no tema tamb\u00e9m fosse duro, com deporta\u00e7\u00f5es question\u00e1veis de imigrantes por parte da Alemanha. No geral, \u00e9 definida como ponderada, inteligente, gestora eficiente e com boa capacidade de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos complexos, al\u00e9m de representar o principal basti\u00e3o de estabilidade da Uni\u00e3o Europeia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma coaliza\u00e7\u00e3o liderada por Olaf Scholz realmente se confirmar, manter o bloco europeu unido ser\u00e1 imediatamente um de seus maiores desafios, ainda mais que a Fran\u00e7a, o segundo pa\u00eds mais forte da Uni\u00e3o Europeia neste momento, ter\u00e1 elei\u00e7\u00f5es presidenciais daqui a seis meses. Scholz j\u00e1 \u00e9 um pol\u00edtico experiente, e agora ter\u00e1 sua grande prova de fogo para mostrar se est\u00e1 \u00e0 altura do desafio. Aos 63 anos, formado em Direito, ele entrou no parlamento alem\u00e3o pela primeira vez em 1998. Em sua carreira pol\u00edtica, tamb\u00e9m foi prefeito de Hamburgo, Ministro de Finan\u00e7as e Vice-Chanceler da pr\u00f3pria Angela Merkel, cargo que ocupa ainda na atualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Scholz come\u00e7ou as pesquisas como terceiro candidato, mas cresceu na reta final e acabou vencendo. Mesmo sem a inten\u00e7\u00e3o inicial de formar uma coaliz\u00e3o governamental com a CDU, ele sempre elogiou o governo de Merkel e fez reiteradas promessas de continuidade e estabilidade, o que agradou o eleitorado alem\u00e3o. As quest\u00f5es clim\u00e1ticas tamb\u00e9m ocuparam boa parte da plataforma de campanha de Scholz, o que refor\u00e7a a relev\u00e2ncia atual do tema e tamb\u00e9m a import\u00e2ncia que os Verdes devem ter em um futuro governo, se confirmado. O desejo do SPD \u00e9 que a nova coaliz\u00e3o governamental esteja formada e aprovada at\u00e9 o Natal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Implica\u00e7\u00f5es para o Brasil<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Essa alian\u00e7a entre SPD e Verdes, se confirmada, deve ter implica\u00e7\u00f5es sens\u00edveis ao Brasil. Enquanto Merkel sempre manteve uma postura extremamente pragm\u00e1tica em sua pol\u00edtica externa, com Scholz esse cen\u00e1rio deve mudar, principalmente nas quest\u00f5es ambientais, o que atinge diretamente o Brasil, principalmente se os membros dos Verdes tiverem maior protagonismo nas tomadas de decis\u00e3o do novo governo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O partido j\u00e1 criticou publicamente a pol\u00edtica ambiental do governo federal brasileiro, principalmente em raz\u00e3o dos altos \u00edndices de desmatamento da Amaz\u00f4nia. Essa incompatibilidade de entendimento quanto \u00e0 crise clim\u00e1tica e o desenvolvimento ambiental pode acarretar problemas para assinaturas de importantes acordos bilaterais entre os dois pa\u00edses no futuro, sendo a Alemanha um dos maiores parceiros comerciais brasileiros na Europa. O acordo entre Uni\u00e3o Europeia e Mercosul tamb\u00e9m poder\u00e1 ficar mais amea\u00e7ado se essa nova posi\u00e7\u00e3o do governo alem\u00e3o se confirmar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fora as quest\u00f5es ambientais, o alinhamento ideol\u00f3gico entre Bolsonaro e os principais l\u00edderes do SPD tamb\u00e9m est\u00e1 bem distante. Os sociais-democratas est\u00e3o mais \u00e0 esquerda do que Angela Merkel, e ainda mais distantes da extrema-direita representada pelo AfD, partido que teve alguns de seus representantes recebidos recentemente por Jair Bolsonaro em Bras\u00edlia. Martin Schultz, um dos principais l\u00edderes do SPD e candidato forte a assumir um cargo ministerial de import\u00e2ncia num futuro governo de Scholz, foi at\u00e9 Curitiba em 2018 visitar o ex-presidente brasileiro Lula enquanto ele esteve preso, e j\u00e1 manifestou admira\u00e7\u00e3o p\u00fablica ao l\u00edder pol\u00edtico brasileiro diversas vezes. Se a coaliz\u00e3o liderada pelo SPD realmente se confirmar, o Brasil, pelo menos at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais nacionais de 2022, deve ficar ainda mais isolado na arena internacional, agora tamb\u00e9m mais afastado da Alemanha.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><meta charset=\"utf-8\"><strong>*Mathias Boni\u00a0<\/strong>\u00e9 advogado, com especializa\u00e7\u00e3o em Direito Internacional e Direitos Humanos e Mestrado em Migra\u00e7\u00e3o Internacional e Direito dos Refugiados. \u00c9 aluno do curso de Jornalismo da Fabico\/UFRGS e mant\u00e9m <strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/category\/colunainternacional\/\">coluna sobre assuntos internacionais <\/a><\/strong>no portal <strong>Humanista<\/strong>. <strong>Contato:<\/strong> mathiasboni@hotmail.com.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atual chanceler, Angela Merkel, foi uma das chefes de estado mais longevas da hist\u00f3ria da Alemanha, e decidiu n\u00e3o concorrer este ano. 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