﻿{"id":15235,"date":"2021-11-04T21:42:33","date_gmt":"2021-11-05T00:42:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/?p=15235"},"modified":"2021-11-05T09:26:32","modified_gmt":"2021-11-05T12:26:32","slug":"terras-sem-povo-povo-sem-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2021\/11\/04\/terras-sem-povo-povo-sem-terra\/","title":{"rendered":"Terras sem povo, povo sem terra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Francisco Moura, conhecido como Tito, mora em um assentamento j\u00e1 consolidado no Par\u00e1. Ele \u00e9 da dire\u00e7\u00e3o nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), portanto, um dos respons\u00e1veis por levar as demandas do grupo ao poder p\u00fablico. \u201cMas no Incra n\u00e3o funciona, que era onde a gente ancorava nosso barco\u201d, relata. O Incra \u00e9 o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria. \u201cHoje tu leva a pauta no Incra, mas n\u00e3o tem negocia\u00e7\u00e3o nenhuma.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm v\u00e1rias pol\u00edticas a gente veio num processo de sucateamento, que agora chegou num ponto mais do que cr\u00edtico\u201d, afirma Marcela Amaral, servidora do Incra h\u00e1 15 anos e diretora de Articula\u00e7\u00e3o e Pol\u00edticas Sociais da CNASI (Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Servidores P\u00fablicos Federais Agr\u00e1rios). Hoje, o que conseguiu ser feito a favor da desconcentra\u00e7\u00e3o de terras no Brasil corre o risco de sofrer o processo inverso.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para a hist\u00f3ria desde a coloniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender por que o Brasil \u00e9 um <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/economicas\/agricultura-e-pecuaria\/21814-2017-censo-agropecuario.html?=&amp;t=o-que-e\">pa\u00eds em que 1% das propriedades maiores ocupam 47,6% da \u00e1rea rural<\/a>. Recentemente, houve avan\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 desconcentra\u00e7\u00e3o de terras, com a reforma agr\u00e1ria, mas o pa\u00eds retrocede, com a poss\u00edvel extin\u00e7\u00e3o desse processo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Povo sem terra<\/h2>\n\n\n\n<p>O portugu\u00eas Duarte Coelho foi dono de 9% do Brasil. O ano era 1534 e foi concedida a ele a primeira capitania heredit\u00e1ria doada pela Coroa Portuguesa: Pernambuco. Outros 15 lotes seriam distribu\u00eddos a seus respectivos capit\u00e3es donat\u00e1rios. Coelho era descendente da nobreza agr\u00e1ria, assim como outros capit\u00e3es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A coroa tamb\u00e9m doava sesmarias, peda\u00e7os de \u201cterra virgem\u201d, para que o detentor as explorasse. Em 1850, a Lei de Terras aboliu a distribui\u00e7\u00e3o de sesmarias pelo Estado e instituiu a propriedade privada, com terras vendidas pela Coroa Portuguesa. Pequenos agricultores, que j\u00e1 ocupavam algumas regi\u00f5es, por\u00e9m sem t\u00edtulos, foram expulsos da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s temos processos de apropria\u00e7\u00e3o de terras e destina\u00e7\u00e3o para poucas pessoas, e isso vai se sucedendo com o reconhecimento de ocupa\u00e7\u00f5es basicamente de pessoas de origem europeia, em detrimento das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. Soma-se a isso a escravid\u00e3o, em que os negros e negras reagem tamb\u00e9m fazendo ocupa\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os de sobreviv\u00eancia e de cria\u00e7\u00e3o de comunidade\u201d, diz Carlos Guedes, ex-presidente nacional do Incra, economista e mestre em Desenvolvimento Rural.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Reuniao-em-_General_-20211101_100722-Gravacao-de-Reuniao-online-audio-converter.com_.mp3\"><\/audio><figcaption> Carlos Guedes conta um pouco da hist\u00f3ria da reforma agr\u00e1ria no Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XX, mobiliza\u00e7\u00f5es pela reforma agr\u00e1ria come\u00e7am a se desenvolver. \u00c9 o caso das Ligas Camponesas, organiza\u00e7\u00f5es formadas em 1945 para lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida no campo. \u00c9 nesse contexto que \u201ctemos, talvez pela primeira vez, um enunciado sobre a reforma agr\u00e1ria no governo Jo\u00e3o Goulart &#8211; que, n\u00e3o por acaso, sofre o golpe em 1964 &#8211; e, como resultado disso, com media\u00e7\u00e3o dos militares, h\u00e1 uma <a href=\"https:\/\/www.dicio.com.br\/candente\/\">cand\u00eancia<\/a> do tema\u201d, conta Guedes. Assim, em 1964 foi criado o Estatuto da Terra, determinando as linhas gerais da pol\u00edtica agr\u00e1ria brasileira. Pol\u00edtica esta que foi aprimorada e ratificada na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Incra foi criado em 1970 e, por aproximadamente uma d\u00e9cada, focou em projetos de coloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o norte do Brasil. O processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o e aumento dos conflitos de terra levaram a uma mudan\u00e7a de foco do \u00f3rg\u00e3o, que criou o Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria (PNRA), com o objetivo de assentar 1,4 milh\u00e3o de fam\u00edlias em cinco anos. Ap\u00f3s sofrer oposi\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rios rurais e uma s\u00e9rie de modifica\u00e7\u00f5es, o projeto foi aprovado em 1985. A constitui\u00e7\u00e3o de 1988 imp\u00f4s novas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 desapropria\u00e7\u00e3o de terras e, em 1990, ao final do governo Sarney, somente <a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/acervo\/dicionarios\/verbete-tematico\/instituto-nacional-de-colonizacao-e-reforma-agraria-incra\">82.689 fam\u00edlias haviam sido assentadas<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, o Incra se reorganizou e realizou o primeiro censo dos assentamentos de reforma agr\u00e1ria, al\u00e9m de dar in\u00edcio \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia t\u00e9cnica para assentados. Em 2003, foi criado o <a href=\"http:\/\/www.dhnet.org.br\/dados\/pp\/a_pdfdht\/plano_nac_reforma_agraria_2.pdf\">II PNRA<\/a>, com o objetivo de assentar 400 mil fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale lembrar que <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/incra\/pt-br\/assuntos\/reforma-agraria\/obtencao-de-terras\">pequenas e m\u00e9dias propriedades n\u00e3o podem ser desapropriadas pelo Incra<\/a>, desde que o dono n\u00e3o tenha outras propriedades. O foco do \u00f3rg\u00e3o era a desapropria\u00e7\u00e3o de terras improdutivas com extens\u00e3o superior a 15 <a href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/codigo-florestal\/area-de-reserva-legal-arl\/modulo-fiscal\">m\u00f3dulos fiscais<\/a>, com indeniza\u00e7\u00e3o para o dono ajustada ao valor de mercado e avalia\u00e7\u00e3o da terra. Depois de concluir esse processo, o Incra selecionava as fam\u00edlias a serem assentadas. Ent\u00e3o, cumpria a quarta diretriz da reforma agr\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><strong>\n\n<\/strong><p>Quarta Diretriz: qualifica\u00e7\u00e3o dos assentamentos O Incra implementar\u00e1 a reforma agr\u00e1ria buscando a qualifica\u00e7\u00e3o dos assentamentos rurais, mediante o licenciamento ambiental, o acesso a infraestrutura b\u00e1sica, o cr\u00e9dito, a assist\u00eancia t\u00e9cnica e a articula\u00e7\u00e3o com as demais pol\u00edticas p\u00fablicas, em especial a educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, cultura e esportes, contribuindo para o cumprimento das legisla\u00e7\u00f5es ambiental e trabalhista e para a promo\u00e7\u00e3o da paz no campo. <\/p><em>Diretrizes estrat\u00e9gicas de implementa\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria - Incra<\/em><strong>\n<\/strong><\/pre>\n\n\n\n<p>Para estimular o desenvolvimento dessas propriedades, existem linhas de cr\u00e9dito exclusivas para assentados, como os grupos \u201cA\u201d e \u201cA\/C\u201d do PRONAF (Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar).<\/p>\n\n\n\n<p>O investimento na reforma agr\u00e1ria, e, consequentemente, na agricultura familiar, favoreceu a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para o mercado nacional. A agricultura familiar \u00e9 respons\u00e1vel, segundo o <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/economicas\/agricultura-e-pecuaria\/21814-2017-censo-agropecuario.html?=&amp;t=o-que-e\">Censo Agropecu\u00e1rio do IBGE<\/a> (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) de 2017, pela produ\u00e7\u00e3o de 70% do feij\u00e3o nacional, 34% do arroz, 87% da mandioca, 60% do leite, 59% do rebanho su\u00edno, 50% das aves e 30% dos bovinos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"infogram-embed\" data-id=\"43f4a912-a130-4685-be94-3e9d12c30c2d\" data-type=\"interactive\" data-title=\"PNRA\"><\/div><script>!function(e,i,n,s){var t=\"InfogramEmbeds\",d=e.getElementsByTagName(\"script\")[0];if(window[t]&&window[t].initialized)window[t].process&&window[t].process();else if(!e.getElementById(n)){var o=e.createElement(\"script\");o.async=1,o.id=n,o.src=\"https:\/\/e.infogram.com\/js\/dist\/embed-loader-min.js\",d.parentNode.insertBefore(o,d)}}(document,0,\"infogram-async\");<\/script><div style=\"padding:8px 0;font-family:Arial!important;font-size:13px!important;line-height:15px!important;text-align:center;border-top:1px solid #dadada;margin:0 30px\"><a href=\"https:\/\/infogram.com\/43f4a912-a130-4685-be94-3e9d12c30c2d\" style=\"color:#989898!important;text-decoration:none!important;\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PNRA<\/a><br><a href=\"https:\/\/infogram.com\" style=\"color:#989898!important;text-decoration:none!important;\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Infogram<\/a><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Roubo de terras<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos fatores que contribui para a concentra\u00e7\u00e3o de terras no Brasil \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de grileiros, pessoas que se apropriam ilegalmente de terras p\u00fablicas, muitas vezes j\u00e1 ocupadas por assentamentos da reforma agr\u00e1ria, ind\u00edgenas ou quilombolas. A grilagem gera conflitos no campo e mant\u00e9m a terra nas m\u00e3os de grandes produtores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 25 de maio de 2012, a promulga\u00e7\u00e3o do novo C\u00f3digo Florestal anistiou grileiros de 41 milh\u00f5es de hectares de terra, mais de duas vezes a \u00e1rea do estado do Par\u00e1, segundo c\u00e1lculo da ONG Imazon. Em 2017, outra medida aumentou o tamanho de terras p\u00fablicas pass\u00edveis de regulariza\u00e7\u00e3o de 1500 para 2500 hectares e possibilitou que \u00e1reas griladas at\u00e9 2011 fossem regularizadas, o que antes era at\u00e9 2004.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma maior facilidade de regulariza\u00e7\u00e3o, grilar terras torna-se mais vantajoso e pode gerar mais conflitos. Entre 2012 e 2018, os conflitos por terra cresceram 20,7%, de acordo com <a href=\"https:\/\/www.cptnacional.org.br\/publicacoes-2\/destaque\/5664-conflitos-no-campo-brasil-2020\">dados da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"infogram-embed\" data-id=\"794da0dc-b02d-489e-93e1-b44a5e066f3d\" data-type=\"interactive\" data-title=\"A regulariza\u00e7\u00e3o da grilagem pode aumentar o n\u00famero de conflitos\"><\/div><script>!function(e,i,n,s){var t=\"InfogramEmbeds\",d=e.getElementsByTagName(\"script\")[0];if(window[t]&&window[t].initialized)window[t].process&&window[t].process();else if(!e.getElementById(n)){var o=e.createElement(\"script\");o.async=1,o.id=n,o.src=\"https:\/\/e.infogram.com\/js\/dist\/embed-loader-min.js\",d.parentNode.insertBefore(o,d)}}(document,0,\"infogram-async\");<\/script><div style=\"padding:8px 0;font-family:Arial!important;font-size:13px!important;line-height:15px!important;text-align:center;border-top:1px solid #dadada;margin:0 30px\"><a href=\"https:\/\/infogram.com\/794da0dc-b02d-489e-93e1-b44a5e066f3d\" style=\"color:#989898!important;text-decoration:none!important;\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A regulariza\u00e7\u00e3o da grilagem pode aumentar o n\u00famero de conflitos<\/a><br><a href=\"https:\/\/infogram.com\" style=\"color:#989898!important;text-decoration:none!important;\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Infogram<\/a><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 nessa onda que o <a href=\"https:\/\/legis.senado.leg.br\/sdleg-getter\/documento?dm=8999854&amp;ts=1635255029914&amp;disposition=inline\">Projeto de Lei 2633<\/a> foi para o C\u00e2mara e, depois de aprovado no \u00f3rg\u00e3o, teve urg\u00eancia aprovada para vota\u00e7\u00e3o no Senado em julho deste ano. O PL aumenta de quatro para seis m\u00f3dulos fiscais o tamanho das terras da Uni\u00e3o que podem ser regularizadas sem vistoria pr\u00e9via (realizada pelo Incra). Autor do projeto, o deputado federal Z\u00e9 Silva (Solidariedade &#8211; MG), <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Tplyll5deLQ\">afirma<\/a> que a lei vai fornecer seguran\u00e7a jur\u00eddica no processo de regulariza\u00e7\u00e3o de terras em \u00e1reas da Uni\u00e3o, al\u00e9m de estar adequada ao novo C\u00f3digo Florestal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ato de regularizar terras griladas \u00e9 question\u00e1vel, uma vez que, segundo a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, essas terras deveriam ser destinadas \u00e0 reforma agr\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\"><strong>Art. 188.<\/strong> A destina\u00e7\u00e3o de terras p\u00fablicas e devolutas ser\u00e1 compatibilizada com a pol\u00edtica agr\u00edcola e com o plano nacional de reforma agr\u00e1ria.\n\n\u00a7 1\u00ba A aliena\u00e7\u00e3o ou a concess\u00e3o, a qualquer t\u00edtulo, de terras p\u00fablicas com \u00e1rea superior a dois mil e quinhentos hectares a pessoa f\u00edsica ou jur\u00eddica, ainda que por interposta pessoa, depender\u00e1 de pr\u00e9via aprova\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional.\n\n\u00a7 2\u00ba Excetuam-se do disposto no par\u00e1grafo anterior as aliena\u00e7\u00f5es ou as concess\u00f5es de terras p\u00fablicas para fins de reforma agr\u00e1ria.\n\n<em>Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988<\/em><\/pre>\n\n\n\n<p>Para Reginaldo Aguiar, diretor de Administra\u00e7\u00e3o e Finan\u00e7as da CNASI e servidor do Incra, se aprovado, o PL tende a diminuir ou at\u00e9 extinguir o processo de reforma agr\u00e1ria no pa\u00eds. Outra consequ\u00eancia seria o aumento dos oligop\u00f3lios e da concentra\u00e7\u00e3o de terras. \u201cEsse \u00e9 um problema que a gente avalia poss\u00edvel de acontecer, ent\u00e3o a aprova\u00e7\u00e3o leva a uma consequ\u00eancia terr\u00edvel, e isso pode tamb\u00e9m levar \u00e0 extin\u00e7\u00e3o do Incra, porque pode ser avaliado que o Incra n\u00e3o cumpriu o seu papel\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os t\u00edtulos<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2 de dezembro de 2020, foi assinada a <a href=\"https:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/portaria-conjunta-n-1-de-2-de-dezembro-de-2020-291801586\">Portaria Conjunta N\u00b0 1<\/a>, que instituiu o programa Titula Brasil, executado pelo Incra com o objetivo de facilitar o processo de titula\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias assentadas, etapa final da reforma agr\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/agricultura\/pt-br\/assuntos\/noticias\/governo-lanca-programa-titula-brasil-para-agilizar-regularizacao-fundiaria\">&#8220;Estamos dando um grande passo para levar mais cidadania, dignidade, seguran\u00e7a jur\u00eddica, seguran\u00e7a social e seguran\u00e7a econ\u00f4mica ao campo&#8221;<\/a>, disse Nabhan Garcia, secret\u00e1rio Especial de Assuntos Fundi\u00e1rios do Mapa (Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento) em 10 de fevereiro de 2021, data de lan\u00e7amento oficial do programa. O governo defende que o t\u00edtulo vai oferecer independ\u00eancia, renda e acesso a benef\u00edcios para os agricultores. Para viabilizar essas entregas, uma das defini\u00e7\u00f5es da portaria \u00e9 repassar atribui\u00e7\u00f5es do Incra para os NMRF (N\u00facleos Municipais de Regulariza\u00e7\u00e3o Fundi\u00e1ria), municipalizando o processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"511\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Presidente-Jair-Bolsonaro-entrega-titulos-de-terra-a-produtores-rurais-de-Sao-Paulo_-Creditos-de-imagem_Alan-Santos_PR-.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15242\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Presidente-Jair-Bolsonaro-entrega-titulos-de-terra-a-produtores-rurais-de-Sao-Paulo_-Creditos-de-imagem_Alan-Santos_PR-.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Presidente-Jair-Bolsonaro-entrega-titulos-de-terra-a-produtores-rurais-de-Sao-Paulo_-Creditos-de-imagem_Alan-Santos_PR--300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Entrega simb\u00f3lica de 4.022 t\u00edtulos de terra para assentados no estado de S\u00e3o Paulo. Foto: Alan Santos \/ PR<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Aguiar, na verdade essa \u00e9 uma maneira de regularizar a grilagem, porque, nos munic\u00edpios, as lideran\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas dominam. \u201cA\u00ed, dificilmente vai ter um poder maior que possa, por exemplo, fazer uma reforma agr\u00e1ria\u201d, afirma. Para ele, essa tamb\u00e9m \u00e9 uma maneira indireta de colocar mais terras no mercado, pois, com o t\u00edtulo em m\u00e3os, o agricultor pode vend\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Alexandre Concei\u00e7\u00e3o, da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do MST, explica que o movimento n\u00e3o \u00e9 contra a titula\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como ela est\u00e1 sendo feita. Concei\u00e7\u00e3o defende a modalidade de titula\u00e7\u00e3o coletiva (Concess\u00e3o de Direito Real de Uso &#8211; CDRU), que facilita a coopera\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia do grupo, enquanto o governo tem oferecido apenas o TD (T\u00edtulo Definitivo), que \u00e9 individual e acaba com o direito dos trabalhadores aos programas de desenvolvimento oferecidos aos assentados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 para Francisco Moura, assentado no Par\u00e1 e membro da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do MST, antes de fazer a titula\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que o governo forne\u00e7a infraestrutura para o assentamento, como a constru\u00e7\u00e3o de escolas e ruas, o que n\u00e3o est\u00e1 acontecendo no momento. Moura tamb\u00e9m afirma que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil terminar de pagar a terra e pegar financiamentos depois de receber o t\u00edtulo. \u201cA gente tem orientado nossas fam\u00edlias: podem at\u00e9 pegar [o t\u00edtulo], mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto eles t\u00eam falado e a titula\u00e7\u00e3o tem que ser a \u00faltima coisa, n\u00e3o a primeira.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse investimento na entrega de t\u00edtulos vem acompanhado de uma paralisa\u00e7\u00e3o dos processos de desapropria\u00e7\u00e3o de terras pelo Incra. Marcela Amaral, diretora de Articula\u00e7\u00e3o e Pol\u00edticas Sociais da CNASI, explica: \u201cTeve uma mudan\u00e7a no regimento interno do Incra que acabou com a divis\u00e3o que era respons\u00e1vel por vistoriar terras e desapropriar, que era a antiga Divis\u00e3o de Obten\u00e7\u00e3o de Terras e Implanta\u00e7\u00e3o de Projetos de Assentamento, ela acabou simplesmente porque n\u00e3o \u00e9 prioridade mais se adquirir terras ou se desapropriar.\u201d&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Aguiar, essas pol\u00edticas est\u00e3o dificultando o acesso \u00e0 terra para os pequenos produtores, o que pode gerar conflitos. Antes que o t\u00edtulo seja entregue ao agricultor, a \u00e1rea \u00e9 territ\u00f3rio federal do Incra, nessa condi\u00e7\u00e3o, se o ocupante n\u00e3o tiver condi\u00e7\u00f5es de produzir e n\u00e3o houver sucessores interessados na terra, o Incra pode repass\u00e1-la para outra fam\u00edlia. Quando o t\u00edtulo est\u00e1 nas m\u00e3os do produtor, h\u00e1 uma tend\u00eancia de que ele eventualmente seja vendido e volte para latifundi\u00e1rios, que produzem majoritariamente para exporta\u00e7\u00e3o. \u201cSe houver venda de lotes, se houver redu\u00e7\u00e3o da quantidade de assentamentos passados para fam\u00edlias, uma das consequ\u00eancias \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da quantidade e da qualidade do alimento que chega na mesa do brasileiro\u201d, afirma o diretor. Outra consequ\u00eancia que ele aponta \u00e9 \u201ca perda de renda e qualidade de vida das pessoas do campo, porque elas v\u00e3o se tornar apenas servi\u00e7ais, pessoas que fazem uma venda de servi\u00e7o a custo muito baixo para ter um peda\u00e7o de ch\u00e3o para produzir.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O assentado tem direito ao t\u00edtulo e ele paga para ter a terra em um prazo estipulado em 20 anos. O problema acontece quando essa titula\u00e7\u00e3o \u00e9 acelerada e feita antes que o agricultor tenha autonomia o suficiente para manter a terra. \u201cA reforma agr\u00e1ria divide [grandes propriedades] em pequenos lotes para dividir entre dezenas, centenas e milhares de fam\u00edlias. No processo inverso, as fam\u00edlias vendem essa \u00e1rea para os grandes propriet\u00e1rios rurais, ent\u00e3o se a entrega do t\u00edtulo for feita de forma equivocada, sem valorizar v\u00e1rios aspectos nesse sentido, ela pode ser o inverso da reforma agr\u00e1ria: em vez de democratizar o acesso, ela faz a concentra\u00e7\u00e3o rural\u201d, diz Aguiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para piorar, o diretor afirma que o Incra opera, hoje, com 66,6% do or\u00e7amento que tinha h\u00e1 20 anos, mesmo atendendo mais cidades do que atendia \u00e0 \u00e9poca. Al\u00e9m disso, relatos de ass\u00e9dio moral praticado por superiores t\u00eam sido comuns na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Futuro?<\/h2>\n\n\n\n<p>Concei\u00e7\u00e3o se preocupa com o cen\u00e1rio atual. Para ele, muitos agricultores que receberam t\u00edtulos n\u00e3o ter\u00e3o capacidade de viabilizar a terra e acabar\u00e3o vendendo-a e deslocando-se para beiras de estrada e periferias. \u201cPode ocorrer um processo de reconcentra\u00e7\u00e3o de terra na m\u00e3o de latifundi\u00e1rios.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo de reconcentra\u00e7\u00e3o est\u00e1 ocorrendo tanto por meios institucionais, quanto a partir da viol\u00eancia. \u201cNos acampamentos que eu ajudo a coordenar, j\u00e1 teve ataque de pistoleiro, j\u00e1 teve entrada da pol\u00edcia querendo despejar os trabalhadores, ent\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea muito violenta, mas os trabalhadores t\u00eam achado maneiras de se manter em cima da terra para n\u00e3o serem despejados. Acho que o MST est\u00e1 certo em n\u00e3o entrar em conflito, principalmente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pistolagem\u201d, conta Francisco Moura, assentado no Par\u00e1 e membro da dire\u00e7\u00e3o nacional do MST.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo nesse cen\u00e1rio, Concei\u00e7\u00e3o olha com otimismo para o futuro: \u201cH\u00e1 um indicativo de avan\u00e7o da pol\u00edtica do latif\u00fandio e de Bolsonaro, mas tamb\u00e9m h\u00e1 avan\u00e7os organizativos e solid\u00e1rios do povo brasileiro de n\u00e3o s\u00f3 resistir ativamente, mas partir agora para uma ofensiva de ocupa\u00e7\u00f5es de terra no pr\u00f3ximo per\u00edodo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m existem mecanismos legais de controle para evitar a concentra\u00e7\u00e3o de terras. Carlos Guedes cita o dispositivo presente no Artigo 24 da <a href=\"https:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/instrucao-normativa-n-99-de-30-de-dezembro-de-2019-236098411\">Instru\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 99<\/a>, que limita a negocia\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo para a incorpora\u00e7\u00e3o de outros im\u00f3veis rurais que resulte em \u00e1rea total maior que quatro m\u00f3dulos fiscais. \u201c\u00c9 o suficiente para enfrentar uma tend\u00eancia com essa for\u00e7a? N\u00e3o \u00e9. Mas s\u00e3o iniciativas contra tendenciais que, com mecanismos de controle, com o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a pr\u00f3pria consci\u00eancia da sociedade civil, podem ajudar a fazer com que as \u00e1reas de reforma agr\u00e1ria n\u00e3o voltem a ser latif\u00fandios\u201d, diz o ex-presidente do Incra.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Incra, Marcela Amaral tamb\u00e9m aposta em organiza\u00e7\u00e3o social: \u201cNada \u00e9 imut\u00e1vel. Apesar de a gente saber que a conjuntura est\u00e1 muito ruim, a gente ainda aposta que a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no local de trabalho, seja para as suas quest\u00f5es espec\u00edficas, seja em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o das pol\u00edticas do Incra, \u00e9 o caminho.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Moura, conhecido como Tito, mora em um assentamento j\u00e1 consolidado no Par\u00e1. Ele \u00e9 da dire\u00e7\u00e3o nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), portanto, um dos respons\u00e1veis por levar as demandas do grupo ao poder p\u00fablico. \u201cMas no Incra n\u00e3o funciona, que era onde a gente ancorava nosso barco\u201d, relata. O Incra &#8230; <a title=\"Terras sem povo, povo sem terra\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/2021\/11\/04\/terras-sem-povo-povo-sem-terra\/\" aria-label=\"More on Terras sem povo, povo sem terra\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":15236,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[53,243,46,49],"tags":[],"class_list":["post-15235","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alimentacao","category-mais-recentes","category-politica","category-vida"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15235\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/humanista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}